Solo feminino

Livia Garcia-Roza

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Orelhas do livro:

Nada do que se escrever sobre o amor j no foi sentido. Tudo o  que  se
l sobre o amor pode ser revivido. AMORES EXTRE-  MOS    a  coleo  de
novelas inditas que a Record traz para voc, reunindo uma seleo das
melhores escritoras brasileiras da atualidade. O amor  mais  sonhado,  o
que se fez invisvel, ou que mudou de rostocomo as fases  da  Lua -,
como se escorresse por entre nossos dedos... ou de nossos lbios, e logo
quando parecia to, to presente. E o amor realizado,  reconquistado,
refeito... Histrias sobre o que se desejou do amor, sobre o que no  se
quer ou no se consegue esquecer. Ou sobre o que ainda se quer amar.

        AMORES EXTREMOS   mais  uma  demonstrao  da  magnitude  da
presena feminina na literatura brasileira. No que esse fato carea  de
comprovaes, mas  sempre  importante  destacar  que  as  escritoras
brasileiras, j participando  de  uma  slida  linhagem  literria,  tm
conseguido imprimir s questes humanas um tom particular.  O  universal
se torna a exposio da intimidade; a instabilidade de nossas certezas
e sentimentos  transcrita sobre esse trnsito entre o sonho  e  o  concreto, caracterstico de quem, naturalmente, entende a vida em ciclos.

        A Record se orgulha de lhe oferecer a oportunidade de  percorrer
estas novelas de amor. Ser como ler  a  voc  mesmo,  e  aprofundar-se,
nestes personagens e em seus dramas. Afinal,  em  algum  recanto  nosso,
todos temos, a encontrar, AMORES EXTREMOS.

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Livia Garcia-Roza nasceu no Flamengo, Rio de Janeiro. Passou a  infncia
e adolescncia em Icara (Niteri), retornando  ao  Rio  onde  vive  at
hoje.  psicanalista, formada  em  Psicologia  com  ps-graduao  em
Psicologia Clnica, pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de  Janeiro).
Fez formao psicanaltica no Instituto de Medicina  Psicolgica,  atual
Sociedade de Psicanlise Iracy Doyle (SPID), tendo artigos publicados em
jornais e revistas. No incio da dcada de 90, freqentou  durante  um
ano o curso de Literatura Brasileira e Portuguesa ministrado por  Ivan
Cavalcanti Proena.
        Estreou na fico com  o  romance  Quarto  de  menina  (selo  de
Altamente  Recomendvel  concedido  pela  Fundao  Nacional  do   Livro
Infantil  Juvenil -  FNLIJ).    autora  de  Meus  queridos  estranhos,
Carto-postal e Cine Odeon (finalista do prmio Jabuti  na  categoria
romance, no ano de 2002). Organizou recentemente a coletnea  de  contos
Fices fraternas, cujo tema central  a frataria, a ser  publicado  pela
Editora Record.

Ilustrao da capa: Toulouse-Lautrec, Femme qui tire
son bas, 1894, guache s/ carto, 61,5 x 44,5 cm

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Solo feminino
Amor e desacerto





EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO - SAO PAULO


2002

Cip-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

G211s Garcia-Roza, Livia
        Solo feminino: amor e desacerto / Livia Garcia-Roza. - Rio de Janeiro: Record, 2002
-        (Amores extremos)

        ISBN 85-01-06380-0

1.        Novela brasileira. 1. Titulo. Ii. Srie.
                CDD 869.93
        02-0925        CDU 869.0(81)-3





Copyright (c) 2002 by Livia Garcia-Roza

Projeto editorial: Veio Libri

Projeto grfico: Regina Ferraz

Todos os direitos reservados.
Proibida a reproduo, armazenamento ou transmisso de partes deste
livro, atravs de quaisquer meios, sem prvia autorizao por escrito.

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Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000


Impresso no Brasil
ISBN 85-01-06380-0


PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 23.052
Rio de Janeiro, RJ - 20922-970          EDITORA AFILIADA
 
 
 
 
 
 



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Estava  em  lgrimas,  montada  na  pia  do  banheiro,  arrancando    as
sobrancelhas  no  espelho,  quando  o  telefone  tocou  e  uma   mulher,
dizendo-se amiga de uma amiga, queria falar com Cilda. Falei que era  eu
mesma (tenho voz de trombone, desde criana). Ela ento contou que tinha
perdido o marido e gostaria de entrar em contato com  todas  as  pessoas
que o conheceram, e eu era uma delas, se poderamos nos encontrar...
        - A pia vai rachar!!
        No h uma vez que eu esteja no telefone  que  mame  no  venha
passear  os  ouvdos  por  perto.  Como  se  escutasse  alguma  coisa...
Concordei em ver a mulher. Certamente teve  a  ver  com  a  apario  de
mame.
        No dia seguinte,  noite, escovei os cabelos com as  pontas  dos
dedos, cansa  bea porque esto enormes,  mas  no  quero  cortar,  fiz
promessa para  Jos  Jlio  casar  comigo.  Fiz  tanta  coisa  com  essa
inteno..., pus meu nome sobre o dele  em  encruzilhadas,  pendurei  em
rvores pelas estradas, fora as cachoeiras nas quais fiz oferendas, e  o
uso de objetos pessoais. At agora, nada.
        Pronta, finalmente, para  o  encontro,  me  enderecei  ao  local
combinado, tendo dito que estaria com uma fita vermelha no cabelo. Amo o
vermelho,  a cor que mais combina comigo.

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        Marcamos num bar Durante o caminho, me  bateu  um  medo.  Me  vi
rindo  diante  da  mulher  Quando  fico  nervosa  rio,  no  consigo  me
controlar, e a pressao cai, as vezes apago. Sou assim desde  que  nasci.
Mame diz que so manifestaes de outro plano. Tudo  para  ela  vem  do
alm. Volto depois ao assunto, seno me perco, a  coisa  mais  fcil  do
mundo.
        No restaurante, depois de se encharcar de  suco  de  laranja,  a
mulher perguntou se eu havia transado com seu  marido!  Hein!?  Pensando
bem, eu no podia dizer nada porque  me  arrebento  de  cimes  de  Jos
Jlio. A mulher fazia pergunta atrs de pergunta enquanto  eu  entornava
chopes (adoro chope acompanhado de azeitonas  mistas)  e  ela  sofria  a
seco. Bem capaz tambm que isso me acontea. Assim somos todas: sofremos
desbragadamente, enquanto eles mentem cinicamente. Crpulas.
        Voltei para casa furando  todos  os  sinais,  tentando  no  ser
assaltada. Um caos as ruas, desviei  de  um  buraco  e  quase  caio  num
canteiro de obras... Quando embiquei em direo  garagem, o  carro  deu
um solavanco, trepidou, no sei que diabo colocaram na  calada...  Pstranco, consegui subir a rampa, tenho certeza de que um dia vou rebentar
uma parede desse edificio. Todas as noites acho um milagre a operao. A
sndica mandou fazer essa entrada estreita para que  ningum  beba,  dizem que ela no toma nada, expulsou  de  casa  o  general,  seu  marido,
depois de uma limonada.
        Mais uma vez guardei o carro sem fazer nenhum estrago no prdio.
Saltei e quase tropecei no Waldecir, que abria a porta para mim.  Ele  e
seu perfume gardnia de

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conquistar domsticas. A mulher desconfia e de vez  em  quando  aparece.
Nesses dias,  praticamente certo ouvirmos gritos esganiados vindos  do
quartinho nos fundos da garagem. Ns, mulheres,  vivemos  assim,    uma
desgraa; falo por mim, que trago  Jos  Jlio  engasgado  no  meio  dos
peitos, da garganta, dos dentes. No sei como ainda no o mordi. Pensava
nessas coisas enquanto me  estabacava  de  costas  contra  a  parede  do
elevador. Por falar nisso, o  sndico  anterior,  antes  da  mulher  das
cavernas, no gostou do elevador com vidro biseaut  e,  depois  de  uma
reunio de condminos, mandou destru-lo, revestindo-o de frmica.  Para
facilitar a limpeza, alegou. Depois dele, entrou a generala, e aqui est
at hoje, os porteiros se borram de medo dela. Parece que um dia sopapou
os trs, dizem. Mas eu estava falando que havia  grudado  as  costas  na
frmica porque estive numa fisioterapeuta que mandou que eu me cole  nas
paredes, fingindo estar sendo puxada para o alto por um fio de cabelo  e
mantendo a cabea alinhada com o horizonte; assim minha  coluna  estaria
no lugar Enfim, que eu me concentre para virar lagartixa.
        Aguardava a subida dos meus nove andares, pensando no jeito  que
tinha dado para piorar da coluna, quando me lembrei que foi  no  momento
em que o telefone tocou, corri para atender Jos Jlio, e ele disse  que
no podia vir me  encontrar  Jos  Jlio  e  sua  filha  Bianca.  Magra,
anmica, esqulida, a um passo da desnutrio. Vi numa fotografia.
        O elevador chegou ao andar, e eu precisei  destrancar  a  porta,
porque, de uns tempos pra c, tem ladro por

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todos os lados desta cidade de Cristo dependurado  nas  nuvens.  Tentava
destrancar a porta, e outra me esperava, a  do  apartamento;  depois  de
vrias voltas nas chaves, entrei no breu da sala, e quando  procurava  o
interruptor, mame apareceu com  suas  gengivas  moles  e  movimentadas,
dizendo para ela mesma que eu tinha bebido de novo enquanto  eu  cuidava
de desembolar os sapatos no tapete da  sala.  Ela  esperava  que  eu  me
desemaranhasse e eu no disse nada, alm do mais porque a cada dia  est
mais surda, j berrei que precisa consultar um otorrino, mas mame s d
ouvidos ao mdico da famlia, que cuida de bicho-de-p a caspa. Acredito
que o cavernoso cidado (consegue ter a voz  pior  do  que  a  mi-  nha)
tambm tenha perdido a audio,  porque  diz  que  ela  no  precisa  de
aparelho, enquanto minha voz atinge escalas picas de tanto gritar nesta
casa.
        Mame desapareceu no corredor, dizendo que papai tinha voltado e
que se tornaram freqentes suas visitas noturnas,  insistindo  para  que
ela o acompanhasse. (Tem vises.)  um horror dormir depois  de  escutar
essas coisas.
        Enquanto me despia, pensava no bosta do Jos Jlio, que mais uma
vez disse que iria se separar, e  nada.  A,  entra  naquela  lengalenga
melosa de que a mulher sofre dos  nervos,    doente,  coitada...  Estou
fodada a viver s! Me joguei na cama, no antes de dar  uma  porrada  no
porta-retratos com a fotografia de Jos Jlio rindo, certamente de  mim,
e resolvi no pensar em mais nada, quando ondas espumantes,  douradas  e
geladas me cobriram de alto a baixo.

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        Dia seguinte, batidas na porta, mame, achando que eu perderia a
hora. Todas as manhs repete o ritual, apesar de  eu  j  ter  dito  uma
infinidade de vezes que no bato ponto no Meio  do  Cu  (edificio  onde
trabalho). No adianta. Em seguida, eIa ps a bandeja na  porta  de  tio
Hildebrando, a quem todos chamam de Lili. Ele  padece  de  uma  tristeza
aguda e infinita; nos piores dias, dorme debaixo da cama. Mame diz  que
foi a partir de quando a me morreu, o irmo  nunca  mais  se  recobrou,
acha tambm que o episdio coincidiu com seu declnio como  homem,  tudo
isso contribuiu para que ele se acabrunhasse. Nina, minha irm do  meio,
acha que foi por causa de uma festa que Lili deu  em  menino  e  ningum
compareceu. No sei de onde Nina tirou essa histria... E Dad,  a  mais
velha, no acha nada porque s pensa nela, nos filhos e em seu marido. E
eu, cheguei   concluso  de  que  meu  tio  atingiu  um  tal  ponto  de
insuportabilidade da famlia, que mal consegue dar uma espiada.
        Apesar das porradas, me levantei calma. Assim inicio os dias  de
uma maneira geral, mas  medida que as horas transcorrem, no sei o  que
acontece que vou me  transformando  numa  espcie  de  animao  descontrolada. Enquanto eu destrancava  a  porta,  mame  sumia  no  corredor,
trilando,  dando  bom-dia  ao  passarinho.  O  infeliz   do    canarinho
aprisionado na rea. Acordou o bichinho. Eu olhava para o espelho e  via
minha carranca de proa, como Jos Jlio a chama, borrada;  no  tirei  a
madrugada da cara, olhos semi-abertos, blush... e brin
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cos!, bem que senti durante a noite uma coisa me espetar... A gua fria,
a pasta na boca me fizeram despertar calma, assim so minhas manhs, at
a energia se manifestar Ela comea a se apresentar por volta das sete  e
meia, oito horas; s nove, praticamente j tomou conta da minha  pessoa.
Surgem as primeiras vontades: fumar, beber, danar...  Aos  poucos  esse
fluxo vai se expandindo, dando lugar a  idias  nebulosas,  perigosas  e
sombrias, todas ligadas a Jos Jlio. Mas, voltando  manh,  assim  sou
ao alvorecer: tranqila, leve, simptica, menos com mame.  Mas  isso  
outra histria. Mame me alucina. Ela e  Jos  Jlio.  No  quero  falar
sobre ela agora, ainda brilham os primeiros raios da manh.
        Hoje, tera-feira, vou me encontrar com Jos  Jlio;  temos  dia
certo para trepar Sempre foi assim. O motel tambm  o  mesmo,  ele  no
consegue variar Acho at que o  porteiro  nos  conhece.  Caso  no  haja
nenhuma ameaa por parte de sua mulher, e se  a  filha  estiver  bem  de
sade, vamos nos encontrar. Tudo na minha vida depende de  duas  pessoas
que jamais vi.
        Sabia  como  iria  encontr-lo:  verde,  exausto    e    insone.
Particularmente, acho que ele  vai  morrer.  Invariavelmente  depois  de
treparmos, Jos Jlio dorme ao meu lado no motel.  Transcorridos  alguns
minutos, acorda sobressaltado, dizendo que  precisa  voltar.  Samos  na
disparada, e ele me deixa a quarteires de casa.
        Tomei caf assistindo mame mergulhar os  biscoitos  na  xcara,
depois baixando  o  rosto,  entortando-o,  sugando  os  pingos,  fazendo
barulho. Tem dias que o cana
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rinho na gaiola responde. Estvamos sem empregada, foi o assunto  mesa;
enquanto ela contava como se dera o desfecho com Raimunda, que   ladra,
dizia, eu lia as previses do dia para ver se no desabaria nenhum  temporal. Caso acontea  alguma  coisa    famlia  de  Jos  Jlio,  nosso
encontro  imediatamente cancelado. Tudo depende  do  bem-estar  de  sua
mulher e de sua filha. Se a gua invadisse o prdio onde moram,  e  ela,
me, ficasse nervosa e tentasse afogar a menina numa  poa,  Jos  Jlio
teria que correr espavorido, desatinado,  para  salvar  a  filha.  Mame
continuava a falar da cara feia de Raimunda, que, ao sair,  parecia  que
ia dar pancada nela, e eu no consegui acompanhar o relato,  porque  via
Jos Jlio chegando  portaria de seu prdio,  desafogando  a  garota  e
abraando a mulher, e os trs entrando juntos no elevador
        - A que horas voc vai chegar?
        Quase respondi que dependia  do  tempo,  cuja  previso,  alis,
consegui ler no jornal: "O dia permanecer abafado, com sol entre nuvens
e pancadas de chuva no final da tarde:"
        - No disse? falei alto.
        - No, ainda no disse.
         assim, eu digo uma coisa, mame entende outra, e Vice-versa.
        - No sei respondi. Todos os dias a cercao de horrio...
        Mame franziu a cara e voltou a mergulhar mais um biscoito cream
craker no fundo da xcara, repetindo a

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operao, chupando-o por baixo para que no pingasse. Porquerias.
        Bati a porta de casa dizendo que iria me demorar. Trepar.

        "A famlia Matilha  e  Matilha  tem  o  alvio  de  comunicar  o
falecimento de sua desequilibrada Aurora, que, de hoje  em  diante,  no
mais alvorecer; para os sculos dos  sculos  permanecer  no  breu  da
lpide.  Dispensam-se  flores,  cumprimentos  e  sofrimentos:"    Dentro
do nibus que sacolejava, eu imaginava o anncio de falecimento da mulher
de Jos Jlio: Aurora.
        A primeira  vez  que  Jos  Jlio  me  acompanhou  ao  trabalho,
estvamos na calada esperando  onibus  (seu  carro  se  encontrava  na
oficina), quando olhei para baixo, para os ps, e constatei que  faltava
uma florzinha numa das sandlias que usava. Teria cado  no  trajeto  do
elevador  rua? Depois volto ao incidente porque tinha acabado de chegar
ao escritrio, e o  chefe,  seu  Evaristo,  circulava  inspecionando  os
funcionrios. De repente, girando bruscamente o corpo na minha  direo,
falou, entre dentes, que assim que abriu o olho para o mundo  gostou  de
defunto. Quando adolescente,  percorria  velrios.  Que  beleza,  dizia,
aqueles seres arrumadinhos, cobertos de flores, circundados  de  amor  e
prece. No acha?, perguntou. Ri, claro. Depois de minutos  em  silncio,
me observando, ele voltou a dizer como se comovia, porque era o  momento
em que mais gostava de algum: morto, plcido, firme,  alguns  levemente
sorridentes. Uma vez, vira um de culos:

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        - Que imponncia majesttica, que entrada no alm! Seu  Evaristo
parou de falar, porque Susie, sorrindo, sem  suti,  mamas  trepidantes,
avisou que daria uma descidinha; se algum ligasse,  j  j  estaria  de
volta. Saiu enrolando o colar nos dedos e atirando um beijinho.
        Roddy dizia para o menino que acabara  de  ser  contratado  como
boy, e que naquele momento servia um cafezinho, que ele, Roddy, era gay.
Qual o problema? perguntava, enquanto o garoto, estatelado  sua frente,
esperava que ele pegasse a xicrinha.
        Esse, o meu local de trabalho.
        O telefone tocou e vieram avisar que era para mim:  mame.  Liga
quase todos os dias  para  o  escritrio.  Diz  que  no  tem  com  quem
conversar. s vezes, os fantasmas desaparecem. Ligou para dizer que Jos
Jlio telefonara logo depois de eu sair. Era para eu ligar para  a  casa
dele. Sinal de que a famlia pegaria o temporal na  rua.  Aquela  menina
vai morrer,  fraca, plida, magra, franzina, azulada. Vi  perfeitamente
na fotografia. Jos Jlio diz que a menina no consegue ficar  reta,  em
p. Mas eu tambm no. Bueno, mami cario, hay das en que me  muero  de
amores por ti, y otros en los que deseo esganarte con mis proprias manos
y luego llorar a continuacin diciendo: perdn!

        - Oi, chuchu! Estava me esperando h  muito  tempo?  disse  Jos
Jlio assim que eu entrei no carro, e continuou: -  Cad  meu  beijo?  esticou o corpo na minha direo.

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        Eu ainda estava chateada, ele sabia, com o saco cheio  de  ficar
plantada em casa.
        - Precisamos conversar, Jos Jlio.
        - Conversemos tudo, amor, pernas, bocas, braos, membros...
        - Pra!
        Ele dirigia, e, soltando uma das mos  do  volante,  alisou  meu
joelho, dizendo que eu era beleza pura, sem mistura.  Nesse  momento,  o
carro passou da entrada do motel, e Jos Jlio parou de falar; retirou a
mo do meu joelho e desandou a correr sem  parar. Ao  entrarmos  em  uma
estrada, perguntei se iramos viajar;  ele,  voz  diferente,  disse  que
estava sendo seguido pelos seus padrinhos de casamento.  Mandou  que  eu
no olhasse para trs. Custei a me acalmar quando chegamos de  volta  ao
motel.

        Mais tarde, abraados sob o lenol, eu contava para  Jos  Jlio
sobre a paixo de seu Evaristo pelos defuntos:
        - Cantada, chuchu! - Fnebre!?
        - Existiam de diversas espcies continuou ele. Rimos. E eu  tive
vontade de comer a boca de Jos Jlio, linda, quando ele riu.
        Jos Jlio acha que todos  os  homens  me  cantam,  e  eu  tenho
certeza de que todas as mulheres do em cima dele.  Vivemos  assim,  num
desespero mtuo.

        Ao enfiar a chave na porta, ela se abriu pelo lado de dentro. H
de chegar o dia em que eu consiga entrar na

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minha prpria casa sem que ningum me espione pela janela e  em  seguida
corra para abrir a porta.  Mame  me  olhava  com  sua  cara  comprida,
queixosa, balanando a cabea, reclamando da hora.
        - Estou me resfriando... disse ela, tapando o nariz com o leno.
        Emudeci, por causa do bafo que iria exalar Depois do motel, Jos
Jlio e eu emendamos num bar para falarmos sobre ns, a, tome  chope  e
confuso. Sem se mover da minha frente, mame disse que estava  com  dor
do lado direito da cabea, como se fosse uma cometa ou trombeta rompendo
pelos interstcios dos poros.  Esperou  que  eu  dissesse  alguma  coisa
diante do que disse. Em vo. Perguntei se havia ligado  para  o  mdico.
Ela continuou imvel, mandei que fosse tomar uma aspirina e  se  deitar.
Tudo aos gritos. Quando acabei de me esgoelar, ela disse: que  tristeza,
agora no h noite que chegue sem  voc  cheirar  a  bebida.  Dirigiu-se
lentamente para o corredor, dizendo: que caminho voc  est  escolhendo,
que caminho... Entristecida, la madre.
        No dia em que mame soube que Jos Jlio era casado, me entregou
a todos os santos conhecidos e aos parentes que tinham  morrido.  Alis,
no sei com que direito ela entrega minha  alma...  Por  isso  mesmo  me
sobra apenas o corpo, disse, e ela se  benzeu.  Continuou  a  cantilena,
podia esperar tudo de mim, menos que sua tempor  (tempor)  enveredasse
pelo mau caminho. Era uma desonra para ela,  que  me  criara  com  tanta
dedicao e carinho.

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        Fui para o quarto. Depois de alguns minutos de luta com o colar,
o fecho emperrou, resolveu no rodar, mas para quem j tinha dormido  de
brincos, no custava nada acordar de colar. Enquanto arrancava  a  roupa,
continuava a ouvir a voz de mame - saco! No pra de falar, e eu cansada
de Jos Jlio e sua maldita famlia, merda, dei com a canela na ponta da
cadeira, e mame no parava de falar, e eu a ponto de gritar, resolvi ir
 cozinha beber gua e deixei a garrafa cair no cho, ainda bem que  no
se espatifou, e mame voltou a dizer "tristeza"; e  eu  passei  por  ela
dando uma rabanada, enquanto ela desligava a televiso.  Mergulhando  na
cama, apaguei; no antes de pr compressas nos olhos. No  dia  seguinte,
seria filmada.





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2


        Acordei com o telefone rebentando de tocar E mame, onde estava?
Conversando com os mortos? No  tinha  ido  me  acordar?  Quando  pus  o
aparelho no ouvido, escutei a voz de Nina, minha irm, chorando do outro
lado da linha, perguntando por mame, e dizendo que  estava  cansada  de
sofrer. Sa pelo apartamento sem ter escovado  os  dentes,  desgrenhada,
calcinha e camiseta, descala, em direo  gaiola  do  passarinho.  L,
mame  no  estava,  acordando  o  bichinho.  Depois  de  berros    pelo
apartamento, localizei sua voz vinda do banheirinho da empregada. Voltei
a berrar, perguntando o que tinha ido fazer l. Ela disse que  eu  podia
querer usar o banheiro, por isso resolvera ir no de Raimunda. Avisei que
Nina estava ao telefone e  que  aquele  banheiro  no  era  de  Raimunda
porcaria nenhuma. Assim que acabei de falar, me lembrei da  filmagem  no
escritrio, j havia dormido com compressas  nos  olhos,  no  podia  me
estressar.
        Nina, na verdade, se chama Geny. Mame tinha posto os  nomes  de
ns trs iniciados pela letra G na esperana de que nascesse um  menino,
a quem chamaria de Genival (homenagem ao  seu  pai).  Bordara  nos  trs
enxovais a letra G, e nascemos: Geralda (Dad),  no    por  ser  minha
irm, mas  uma pessoa ruim; Geny (Nina), a infeliz ao telefone;  e  eu,
Gilda, de cuja existncia mamae

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no se deu conta at o quarto ms de gravidez. Asi son las cosas  de  la
vida.
        Bem, mas hoje no posso me chatear porque vo filmar o  Meio  do
Cu para sair no jornal da tev. Parece que houve  um  rombo  l,  e  os
reprteres vo entrevistar os funcionrios, menos o diretor  de  contas,
que est foragido. S o que comentam. Ontem,  avisei  a  Nina,  Dad  no
adianta, mora na Flrida, e s pensa nela, em sua famlia, e em furaco,
tornado e terremoto, essas coisas. Avisei tambm a Jos Jlio,  e  mame
se incumbiu de espalhar a notcia pelo prdio.
        O telefone voltou a tocar. Certamente mame est ao  lado  dele,
surda. Atendi. Era dona Idalina, mora na porta ao lado, no sei por  que
telefona. Gritei com mame que era para ela; apareceu reclamando que  eu
no a deixava em paz; estava no meio de uma prece.
        Fui me preparar. Demorei para escolher o que usar,  quase  todas
as minhas roupas so curtas, leves e transparentes;    o  que  importa,
construir uma iluso de nudez, mas nessa manh queria  algo  forte,  que
estourasse na tela, acabei optando pelo meu vestido  de  seda  violenta,
esse  direto e impactante, e colo bonito combina com  decoto...  Batom
escarlate, blush, base em p lquida, sombra dourada, rmel, lpis  para
sobrancelhas e para contorno dos olhos... A ordem  brilhar! Me maquiei,
escovei os cabelos at meus dedos no mais agentarem, calcei  sandlias
plataforma (elevar o corpo aos pncaros dos olhares...), e  nas  orelhas
enfiei argolas douradas.
        -  ouro!   brilho!    fora  e  movimento!...  -  Danava,
avanando diante do espelho.

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        Mame entrou no meu quarto contando que Idalina  soubera  de  um
excelente exerccio para estimular  o  crebro:  tomar  banho  de  olhos
fechados, tateando as torneiras, o sabonete e o xampu.
        - Mas isso eu fao todos os dias... Ser  que  Idalina  esqueceu
que sem culos eu no enxergo?...
        Para quem relatava o telefonema?, perguntei. Respondeu  que  era
pra mim. Agradeci, dizendo que j escutara.
        Dificil me concentrar no que interessava... Tinha certeza de que
seria  a  primeira  entrevistada  porque  trabalho  em  frente    porta
principal, como recepcionista, e tambm como  secretria  particular  de
seu Evaristo. Na verdade, acumulo funes. Aps dezenas de assobios pela
rua, cheguei  ao  trabalho.  Pouco  depois,  cinegrafistas  invadiram  o
escritrio, iluminando o local com refletores,  onde  puseram  gelatinas
coloridas.  Os  rapazes  conversavam  entre  eles;  alguns  me   olharam
demoradamente. De repente, um deles, com uma cmera na mo, focalizou  o
meu rosto. Me senti radiosa, brilhando, como  uma  estrela  nascendo,  e
quando ele perguntou h quanto tempo  eu  trabalhava  no  Meio  do  Cu,
respondi e soltei uma risada - se voc chora ningum liga,  mas  se  ri,
chama a maior ateno. Ento, o rapaz desviou a cmera do  meu  rosto  e
subitamente tudo escureceu; passados alguns minutos em  que  conversaram
com seu Evaristo,  recolheram  o  material  e  foram  embora.  Continuei
sentada, pensando, brilhando no breu. Na volta, custei a chegar em casa,
porque um sujeito queria me assaltar.  isso o tempo todo nesta cidade de
Cristo nos ares. Assim que saa do edificio, um ho
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mem me encarou e diminuiu o passo; ao perceber que eu  iria  atravessar,
movimentou-se  em  direo    rua.  Recuei,  ele  tambm.  A   calada,
praticamente vazia. De longe, vi um grupinho  conversando  em  roda,  me
dirigi at eles, e o cara andando atrs de  mim.  Ao  me  aproximar  das
pessoas,  ouvi  que  falavam  em  Deus,  diante  de  uma  igreja.  Olhei
discretamente para o lado a fim de localizar  o  bandido,  e  quando  me
voltei o grupo havia desaparecido.  beira do desatino, atravessei a rua
correndo; com a graa de Deus, o circular passava; ao colocar  o  p  no
primeiro degrau, escutei perto do ouvido:
        - Fissurei em voc, teso...
        Olhei para trs, e o sujeito, do lado de  fora,  me  atirava  um
beijo. Puto!

        Quando cheguei em casa, mame perguntou pela filmagem,  respondi
que a cena na rua havia sido muito mais movimentada. Ela  no  entendeu,
claro, resmungou que eu no conversava. No iria  explicar.  No  estava
nem um pouco a fim de gritar. Ento, ela resolveu falar sobre Nina. Tinha
uma idia do  que  ouviria.  Nina  e  sua  vida  com  Srgio,  cabeludo,
andrajudo, pestilento, em Santa Teresa, numa casa  caindo  aos  pedaos.
Vivem de fazer po pra fora; alm disso, Srgio  msico, toca violo, e
pelo que soubemos, pra fazer Nina dormir. Segundo ela,  Srgio    muito
bom, leva caf na cama, faz cafun e, parece,  s  se  engraou  com  as
empregadas do bairro. Passa os dias telefonando  para  os  anncios  que
saem nos jornais, mas at agora no achou nada que

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justifique que ele saia de debaixo dos lenis. Mas cozinha, lava roupa,
e a espera com um sorriso nos lbios e um boto de rosa no prato. Enfim,
So zen, mas de vez em quando sai uma pancadaria, como mame  disse  que
tinha acontecido. E eu perguntei se Nina ia  l  para  casa,  mas  mame
achou que deviam estar se acertando, porque ela no voltara a telefonar.
Naquele instante, Lili saiu do quarto, cala de pijama, descabelado,  em
direo ao banheiro. Mame se dirige a ele, mas Lili jamais responde, em
parte pela surdez, cansa ficar gritando, falo por mim, que  ando  com  a
garganta em pandarecos.

         noite, meia hora antes do  jornal,  mame  saiu  porta  afora,
tocando a campainha dos apartamentos do andar para lembrar aos  vizinhos
que sua filha iria aparecer na tev. Quando  entrou,  berrei  que  nunca
mais contava nada para ela. Ela se enrodilhou em tromba e no respondeu.
Escutou. Em seguida, levantou-se de um  salto,  e  depois  de  instantes
retornou  limpando  as  mos  uma  na  outra,  contando  que   escondera
Arnaldinho dentro do boxe do banheiro da empregada. No escuro, para  que
no cantasse. Segundo ela, o passarinho no  pia,  mas  canta  como  uma
flauta. Enfim, sentou-se, quase grudada  tela, precisei  reclamar  para
que pudesse me enxergar. Nesse instante, Lili apareceu e se postou de p
encostado  porta, e assim ficou. Mame dizia a todo momento que eu iria
aparecer na tev. Assim que o jornal comeou, focalizaram a  entrada  do
escritrio, e, mal me vi, num instante sumi. Mas a reportagem  continuou
mostrando as salas dos diretores, do presidente, e de l

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foi para os camarins dos artistas. Vrios apareceram dando  depoimentos,
enquanto mame repetia o que eles diziam. Quando entraram os comerciais,
ela disse que eu tinha me sado  muito  bem.  Me  sado.  Lili  murmurou
"merda" e desapareceu.

        Jos Jlio  chega  ao  motel  sempre  apressado.  Mal  entra  no
estacionamento, baixa a porta da  garagem  fazendo  estrondo,  custei  a
entender que era para que no vissem a placa do carro. Sobe a  escadinha
aos pulos, me puxando pela mo, dizendo um monte de  elogios,  corre  em
direo a cama, me  empurra  contra  ela  e  cai  em  cima  de  mim;  se
desabotoando, aflito... Tenho sempre impresso de gincana  quando  vamos
transar. J comentei com ele, e Jos Jlio riu.  Mas,  nessa  tarde,  no
correcorre, eu queria contar que ningum tinha me assistido na televiso
        - Inveja, despeito, desprezo... Infmia, chuchu... - Me  beijava
a cada palavra dita, abraado comigo.
        Depois, comentou que o Carnaval se aproximava, seria muito tempo
sem nos vermos, queria propor sairmos na mesma escola de samba.  Na  ala
dos mendigos. Talvez sua mulher e Bianca fossem desfilar.  Na  hora,  eu
no soube o que dizer; mais tarde, discutindo e brindando, num bar perto
de casa, concordei em nos vermos na Avenida.

        A noite, ouvi a voz de mame vinda do quarto:
        - Checho, voc tem que se conformar, eu j me  conformei  com  a
sua ida para o outro lado, meu bem, voc

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deve ter feito descobertas importantes para a sua  alma  cheia  de  luz,
Checho... Agora encolhe as pernas e me deixa passar. Dis!

        O expediente estava quase  no  final,  quando  seu  Evaristo  se
aproximou da minha mesa perguntando se eu  podia  me  demorar  mais  uns
minutinhos. O que ele  queria  comigo!?  J  me  via  no  olho  da  rua,
desempregada.
        Quando todos se foram, ouvi a voz dele me  chamando.  Assim  que
entrei em sua sala, seu rosto luzia, seus  olhos  se  apertaram,  e  ele
pediu que eu me sentasse, que ficasse  vontade.
        - Sabe, Gilda, h algum tempo venho apreciando seu desempenho, e
ainda no tive a oportunidade de lhe dizer o quanto estou  satisfeito...
Felizmente estou tendo agora, corrigindo o erro a tempo, espero...
        Tamborilava os dedos grandes sobre o tampo da mesa.
        - Tambm no tive chance de lhe  dizer  que    uma  moa  muito
bonita, vistosa, volumosa, encorpada como os melhores vinhos...  -  Riu,
sem abrir a boca mas fazendo um barulhinho.
        (Por quin me toma?) "Funcionria  estuprada  na  Agncia...";
j via meu nome estampado nas manchetes de jornal.
        - Quantos anos voc tem?
        - Vinte e seis.
        Estava na bica de me estrepar.

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        Nesse instante, levantando-se, ele disse que  era  o  que  tinha
para dizer, lamentava no t-lo feito antes,  e  agradeceu  por  ter  me
prendido fora do horrio.
        - At amanh, Gilda disse, sorrindo e suando.
        Cruzei as salas escuras e vazias,  nem  esperei  pelo  elevador,
desci pelas escadas. Muito vivo esse seu Evaristo  com  aquela  conversa
sobre mortos. Jos Jlio tinha razo.

        Cheguei em casa, e mame disse que  a  sndica  pretendia  fazer
reformas no prdio, melhorias; para isso, precisava aumentar a  cota  do
condomnio. Gritei, dizendo que no podia dar nem um tosto  a  mais.  E
ela, desaparecendo dentro do quarto, comentou que eu tinha chegado muito
exaltada.

Naquela noite, sonhei que um mastodonte perguntava se eu tinha namorado.
Depois, pegando meu brao,  cheirou-o  de  alto  a  baixo.  Em  seguida,
perdendo o equilbrio, o monte de banha fervente derramou-se sobre  mim,
segurando meu rosto com as patas, tentando me beijar, e eu  lutava  para
me desvencilhar enquanto ele  murmurava  que  gostava  de  mulher  rude,
rebelde, selvagem como ele, e me lambia o rosto, e nesse momento  avisei
que ia gritar, enquanto via meu corpo enrolado num  pano  branco,  feito
mmia, carregado para o camburo, e ele fungava e  bufava,  perdigotando
minha cara e dizendo que por favor eu deixasse que me desse um beijo,  e
a boca pegajosa, grudenta, melada, veio na dire
24

o da minha e eu no conseguia me livrar e ele,  arfando,  sugou  minha
lngua, a saliva e os dentes.

        Acordei, e Nina dormia no sof da sala. Sempre que o marido  no
passa a noite em casa (vai farrear em outro lugar), ela baixa na  nossa.
Mame disse que Srgio viajara a trabalho e Nina no  gostava  de  ficar
sozinha. S quero ver o que vai ser de Nina, cagona, quando mame morrer
e eu me casar com Jos Jlio.

        No dia seguinte, j me encontrava havia algum tempo no trabalho,
quando seu Evaristo abriu a porta de sua sala e, vindo at  minha mesa,
curvou-se, perguntando como eu tinha passado. Em seguida, empertigouse e
sorriu. Que pergunta foi aquela?... Mastodonte!
        Tera-feira: recreio, folga,  relax.  No  telefone,  Jos  Jlio
avisou que queria conversar seriamente comigo. O qu? Terminar?...
        Mal entrei  no  carro,  notei  seu  aspecto  abatido,  cinzento,
acabado. No havia pregado o olho, contou. Dessa vez, iria  se  separar,
no  agentava  mais  passar  noites  em  claro.  Por  que  no  dormia?
perguntei. Ele respondeu que a mulher sequer cochilava.
        - O que ela faz de madrugada? - Varia.
        Como no continuou, respeitei. Jos Jlio rompeu o silncio para
contar que procurava apartamento. A, no cOnsegui  me  conter,  ca  em
seus braos, beijando sua boca linda, dizendo que  se  ele  quisesse  eu
poderia ajudar. Jos Jlio subiu os degraus do motel devagar, cansa
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do mesmo, coitado. Depois, sentou-se na beira da  cama  e  ficou  srio,
olhando para a frente, estendido para o futuro, certamente, onde  eu  me
via abraada com ele; Jos Jlio e eu, eu e Jos Jlio, e, para falar  a
verdade, no vi Bianca ao nosso lado.  Essa  menina  microscpica  qualquer dia vai ter que ser vista de lente.

        Ao chegar em casa, encontrei mame fazendo palavras  cruzadas  a
mando de seu parente; est muito desneuronizada. Levantando os olhos  da
revista, disse:
        - Essa, quem no sabe?... forma de  Budismo,  trs  letras...  Sorriu.
        Aproveitei que sorria e contei que iria me casar com Jos Jlio.
Na verdade, experimentar uma relao de casamento. Silncio. Em seguida,
levantando-se da cadeira  rumo    cozinha,  ela  saiu  dizendo  que  um
ambiente  propcio,  sem  notcias  impactantes,   tambm    ajuda    no
desenvolvimento do crebro, depois a ouvi murmurar que ningum    feliz
construindo a vida sobre a desgraa alheia.
        Mame deseja o meu mal, ardentemente.

        Acordei e dei de cara com uma nova empregada. Na mesa  do  caf,
mame comentava que tivera timas referncias. A nica restrio era que
a moa sofria do corao; no podia se aborrecer
        - Hein? gritei.
        Ningum  perfeito, continuou ela, na  nossa  casa  havia  muita
paz, tinha certeza que Wilma se daria bem. A

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exceo de Arnaldinho (o passarinho), ningum fazia  barulho,  comentou,
balanando a cabea. Avisei que se algum  dia  encontrasse  a  empregada
emborcada no tanque ou na pia da cozinha, no viesse me chamar. Mame
disse que sabia perfeitamente que no podia contar comigo. Lili, abrindo
a porta de seu  quarto,  murmurou  "droga"  e  voltou  a  fech-la.  No
continuei  a  discusso  porque  estava  para  fazer  a  experincia  do
casamento, e diante disso, nada mais importava.
        Mame continuou a falar da empregada, adora o assunto -,  dizendo
que j alertara a Wilma que, se  por  acaso  a  encontrasse  doutrinando
algum, no se assustasse, ela era mdium, desde criana. Parece  que  a
moa tinha concordado, e assim se acertaram.

        Sbado de Carnaval. Aleluia! Inspirada  em  Alice  no  pas  das
maravilhas, escolhi a roupa do desfile: o vestido de noiva de Dad.  Mal
cabia no meu corpo; alm de curto, ficou esturricado, ento se rasgou em
diversas partes, espontaneamente. Perfeito. Na vspera, eu havia  lavado
os cabelos com xampu de pitanga para que ficassem vermelho-ferrugem, cor
do batom que iria usar. Basicamente, a maquiagem teria esse tom, alm de
prpura, pssego, violeta e aafro. Calcei sandlias havaianas e fui ao
banheiro me despentear Preparada para o desfile, cruzei a sala, e  mame
perguntou  se  eu  pretendia  sair  daquele  jeito  -  Esquisitssima...
murmurou. (Nem reconheceu o vestido..).

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        Enfiando o dinheiro no suti, eu  disse  que  iria  desfilar  na
escola de samba, na ala dos mendigos.
        Breve estaria assim, e sem esforo, foi o que pensei, fechando a
porta de casa.





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3

Na Avenida, em meio a centenas de pessoas, homens bbados mexiam comigo,
enquanto, atarantada, eu procurava a  minha  ala  e  Jos  Jlio.  Nesse
instante o vi, esmolambado, no muito distante, e em  passos  largos  me
dirigi at ele, que disse, baixo, entre dentes:
        - Aurora e Bianca tambm vieram...
        Meleca... O que tinha ido fazer l? Ao seu lado, Aurora, prestei
bem ateno nela, parecia bem contente, mas Jos Jlio  tinha  dito  que
havia uma doena que dava muita alegria. Uma vez, uma  moa  tinha  sido
internada em plena felicidade.  cada histria do capeta. Nesse momento,
o bumbo da bateria soou e rapazes passaram entre ns, mendigos, mandando
que avanssemos, sambando,  no  queriam  ningum  parado  na  Avenida.
Voltei  a  procurar  Jos  Jlio,  e  no  o  encontrava  na   imensido
emporcalhada que desfilava. Aurora, ao meu lado, sambava com  os  braos
para o alto, tendo ao lado Bianca, franzina, olhos  aflitos,  mastigando
uma chupeta; Logo atrs vinha Jos Jlio, que pegou  a  mo  da  menina,
cantando a msica da escola, piscando  para  mim,  e  eu,  completamente
confusa, atordoada, assistia a multido que  levantava  na  arquibancada
gritando "j gafiliou"; no tumulto, passaram a mo na minha bunda vrias
vezes. Na reta final, na hora da disperso, ouvi a

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voz de Jos Jlio: "chuchu, voc parece mendiga de contos de fadas.."
        Tomei o nibus de volta  ainda  ouvindo  os  folies  cantando  o
refro da escola, e quando cheguei    minha  rua,  lgrimas  de  agonia
escorreram no meu rosto pela merda do Carnaval.
        Cheguei em casa com a cabea explodindo, e encontrei  o  alarido
da novela. Mame, grudada na tela,  virouse  e  perguntou  o  que  havia
comigo, fiz um gesto para que diminusse a televisao.
        - Nada.
        Ela voltou a aumentar o som do aparelho,  balanando  a  cabea.
Fui me deitar pensando num jeito de terminar com Jos Jlio.  Escutei  a
voz de mame vinda da sala:
        - Sossega, Ritinha, sossega...
        A noite, os espectros esto  sua disposio.
        Dormi puta da vida.

        Quem disse que  Jos  Jlio  ia  se  separar?  Quem?  Mentiroso,
cnico, crpula. Pelo visto, estava a fim de brincar. Precisava  dar  um
jeito na minha vida, foi o que pensei acordando no domingo, sem pancadas
na porta.
        Mame sentou-se  minha frente, j devia ter  tomado  o  caf  e
chupado os biscoitos.
        - Quando voc vai se casar?
        Pedi que me esquecesse no Carnaval. Ela se levantou, dizendo que
eu andava intratvel, e foi acudir o  passarinho  que  cagara  a  gaiola
inteira. Quando isso acontecia, cantava sem parar Aliviado, coitado.

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        Nesse momento, o telefone tocou e eu atendi. Uma voz de homem do
outro lado disse ser Evaristo. Seu Evaristo!? Por  que  estaria  ligando
para minha casa? Segundos depois, ainda ouvia a respirao do outro lado
da linha, quando desligaram. Mame voltou da rea  dizendo  que  deixara
tudo limpo para o Arnaldinho. Avisei que se voltassem a  ligar,  eu  no
estava em casa. Pouco depois, o telefone tocou e mame disse  para  Jos
Jlio que eu tinha sado.
        - Merda! Merda! Merda! gritei para cada parede da sala.
        Mame virou as costas,  dizendo  que  eu  tinha  acordado  muito
alterada.

        Felizmente, Jos Jlio voltou a ligar,  atendi,  e  enquanto  eu
dizia que no tinha ido a canto  algum,  mame  cutucava  o  meu  brao.
Detesto falar com algum me cutucando. Pedi licena a ele e gritei  para
que ela me deixasse em paz. A notcia que Jos Jlio queria me dar  que
encontrara  nossa  casa,  estava  louco  para  me    mostrar.    Desisti
completamente de terminar com ele. Combinamos de visitar  o  apartamento
na manh seguinte, antes de eu seguir para o trabalho. Sa aos pulos  do
telefone, at para o passarinho cantei. Mame me olhava, e eu  voltei  a
pular dizendo que era Carnaval... Em voz baixa, ela disse que estava  me
achando muito, muito descontrolada.
        No dia seguinte, depois de conhecer minha futura  casa,  liguei
para mame. Uma gracinha o apartamento. Dois  quartos,  varandinha,  no
batia sol de frente, fresco,

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brisa suave e macia contornando nosso futuro, meu e de Jos Jlio. Mam,
tengo orgullo de usted, pero vez en cuando me dan  ganas  incontrolables
de al-zogarla con ei cordn de la cortina,  y  as  sus  ojos  salientes
vern finalmente a su hija.
        Mame  no  fez  nenhum  comentrio  diante  da    notcia    do
apartamento; deseja continuamente minha desgraa.

        No Meio do Cu, quase  no  final  do  expediente,  seu  Evaristo
mandou que eu fosse  sua sala, e me entregou dois contratos.  Antes  de
sair, perguntei por que havia ligado para minha casa.
        - No lhe telefonei, dona Gilda. Por que o faria?
        No soube o que dizer. Dona? O que estaria acontecendo?

        - Tome ch de alecrim,  me,  alivia  a  dor  de  cabea.  Os
temperos tm propriedades medicinais, ningum acredita nisso...
        Encontrei Nina em casa. Pelo jeito,    noite  teramos  o  sof
ocupado. Assim que ela me viu, perguntou se era verdade  que  eu  ia  me
casar. Eu disse que ia experimentar, no sabia se gostaria de morar  com
outra pessoa. Ela perguntou quando eu me mudaria. Fingia-se de son-  sa,
mame j devia ter contado tudo.  a rainha de espalhar notcias.  Disse
para Nina que faramos um almoo em casa e depois seguiramos para Mau.
Ela adorou  Mau,  claro.  Nesse  momento,  mame  entrou  na  conversa,
perguntando se eu tinha marcado a data,

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respondi que tudo dependia da separao de Jos  Jlio.  Ela  sacudiu  a
cabea, em seguida pediu que assim que eu soubesse avisasse  porque  no
queria comunicar a Wilma de supeto, e levantou-se para pegar  a  pomada
chinesa que fica esfregando na testa. Quando retornou, comentou que Dad
esperava somente um telefonema para embarcar. No sei o que viria fazer,
certamente desejar votos ruins. Tambm no falei. Ando muda em  famlia,
para evitar aporrinhao.
        Sentando-se ao lado de Nina e pegando sua mo - adoram ficar  de
mos dadas, as duas -, mame disse que no tinha achado nada boa a  cara
da empregada. Ser que ouvira falar na recepo? Endereou a pergunta  a
Nina. Sa da sala. Pouco depois, Nina e Wilma conversavam na cozinha.
        Nina faz tudo o que mame quer, por isso  a preferida;  Nina  e
Arnaldinho, as paixes de mame.

        Assim que Nina virou as costas, mame veio atrs de mim  dizendo
que precisava me contar uma  coisa,  j  contara  para  Nina  e  ela  se
emocionara. Comearam os rodeios; d voltas enormes  quando  quer  falar
sobre algum assunto. Ento, disse que dona Idalina havia contado que uma
senhora que se mudara havia pouco para o prdio, dois andares abaixo  do
nosso, uma mulher na casa dos sessenta: Idalina acha, ela disse..:"
        - Continua. Pois ento... a senhora, em  conversa  com  Idalina,
teria dito que estava encantada com o som de  Arnaldinho.  Perguntara  a
Idalina se ela conhecia a dona do passari
33

nho. Queria saber se podia pedi-lo emprestado na  noite  de  Natal.  Era
viva e no tinha filhos. Estava certa de que ele encheria sua  casa  de
alegria.
        - O que voc acha? perguntou, olhos marejados,  mos  dadas  com
ela mesma.
        Respondi que o Natal  estava  a  quilmetros  de  distncia,  na
rabeira do  ano.  E  ela,  que  minha  insensibilidade  a  impressionava
profundamente, tocava fundo sua alma.
        Me levantei pensando no fim de  semana  que  me  esperava.  Jos
Jlio me apresentaria a Bianca. Sairamos juntos  os  trs,  rumo  a  um
parque de diverses. Ele, j fora de casa, dormia na casa de  um  irmo.
Tivera uma longa conversa com a mulher (parece que a  noite  tinha  sido
braba). Me arrumei  e  desci  para  esper-lo  em  frente  ao  edificio,
felizmente no precisei andar mais trs quarteires para entrar  em  seu
carro. Deixei Nina e mame conversando, depois de minha irm ter passado
a noite na nossa casa. Na verdade, deixei Nina chorando, porque  contava
como gostava de seu marido, e mame  a  consolava  dizendo  que  o  amor
sempre fora fonte de sofrimento. Cada  conversa  brbara...  Jos  Jlio
chegou, estacionou o carro, saltou, e eu vi a menina descorada na  parte
de trs do automvel, munida de trs chupetas. Uma na boca,  e  as  mos
ocupadas. Sorrindo, Jos Jlio mostrou a filha, dizendo  que  eu  era  a
Gilda, meu bem (para quem seria o meu bem?),  amiga  do  papai.  Para  a
menina, claro. Ao entrar no carro, tentei dar um beijinho na garota, mas
ela se encolheu. Samos, e, como se irradiasse uma partida,  Jos  Jlio
de
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sandou a falar.  Enquanto  dirigia,  a  menina,  muda,  grudou  as  mos
enchupetadas em volta do pescoo do pai. Tentei puxar conversa com  ela,
que me olhava de esguelha e no me respondeu. Nesse instante, Jos Jlio
comentou que precisvamos vender  um  dos  carros  para  fazer  face  s
despesas da nossa futura casa. Ofereci o  meu,  que  h  anos  chacoalha
pelas ruas. Ao ouvir nossa conversa, a menina apertou  o  gog  de  Jos
Jlio quase enforcando-o, e ele, puxando as mos da garota  do  pescoo,
disse, assim no,  Bibi,  machuca  o  papai.  Bibi.  Tenho  um  medo  de
criana...
        Saltamos diante de um parquinho e l ficamos durante quase  trs
horas, percorrendo filas interminveis em meio a um  calor  de  bode.  A
cada brinquedo que a criana ia, Jos Jlio corria  em  volta  acenando.
Depois de trs brinquedos, trs filas e trs horas, sem contar  as  trs
chupetas, ele me deixou em casa dizendo que achava que as coisas estavam
muito bem encaminhadas. Quando o carro partiu, a menina tirou a  chupeta
da boca e virou a cara para mim. O que me esperava...

        No encontrei mame em casa. Sobre a mesa da sala,  um  bilhete,
debaixo do cinzeiro vermelho de murano: "Para ativar a mente    preciso
jogos e convivncia. Fugi da monotonia  da  casa:"  M.  Nem  se  deu  ao
trabalho de escrever mame at o fim,  ou  deve  ter  escutado  os  meus
passos e sado correndo para  se  esconder  na  casa  de  dona  Idalina.
Amassei o bilhete para jog-lo na  cesta  de  lixo,  quando  o  telefone
toCou. Atendi, e a voz de um homem do outro lado da li
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nha tornou a dizer que era Evaristo, em seguida desligou na minha  cara.
De novo?
        Mal desliguei o aparelho, a empregada apareceu para avisar que o
abajur de seu Lili fervia.
        - E voc no fez nada!?.
        Fez cara mais ignorante ainda, como se fosse possvel.  Alm  de
cardaca, era uma anta...  J  que  mame  no  estava,  fui  debelar  o
incndio. Lili dormia embaixo da cama.

        Quando cheguei ao trabalho, havia um convite sobre a minha mesa.
Abri o envelope: "Evaristo e Gilda participam sua unio e convidam  para
a festa de comemorao:" Estava com os olhos to colados nos nomes,  que
quase no escuto a voz de Susie perguntando se tambm eu tinha  recebido
o convite de casamento do filho de seu Evaristo. Balancei  a  cabea,  e
nesse instante ele entrou no escritrio; e vendo o convite na minha mo,
disse que  minha  presena  era  imprescindvel.  Sorriu.  Susie  j  se
encontrava em sua mesa, olhos baixos, trabalhando. No Meio do Cu, todos
tm medo dele. Eu, a cada dia estou adquirindo.
        No telefone, contei a Jos Jlio sobre o  convite,  pedindo  que
ele me acompanhasse, mas ele disse que teria que ficar com  Bianca.  Sua
mulher,  depois  de  um  dia  de  intensa  alegria  (comentou),  chorava
copiosamente. Acho que Jos  Jlio  faz  muito  alarde  das  emoes  de
Aurora... Contou que teria que apanhar a menina para dormir na  casa  de
seu irmo. O nico problema era o

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cachorro, que s poupava o dono, mas  j  haviam  programado  o  fim  de
semana do bicho num canil. Enfim, notcias da famlia de Jos Jlio.  No
final, sugeriu que eu ligasse para uma colega, e foi o que fiz, combinei
com Susie irmos juntas. Ela disse  que  nenhum  de  ns  poderia  faltar
porque seu Evaristo era muito vingativo. Vingativo? Chegamos  diante  de
um edificio envidraado na Lagoa. Assim que Susie diminuiu a  marcha  do
fusca, manobristas se ofereceram para estacion-lo. Contratados  de  seu
Evaristo, certamente. No hall de entrada, uma longa passadeira  vermelha
nos fez desembocar em um elevador espelhado de alto a baixo. Reflexos do
meu medo surgiram de todos os lados. Quando chegamos ao andar, havia uma
grande escultura de mulher  e,  ao  lado,  uma  porta  aberta  por  onde
escapavam murmrios. Entramos em um apartamento inteiramente  preto.  As
cores presentes pertenciam aos quadros. Seu Evaristo,  terno  e  gravata
escuros, apareceu para nos receber Olhando fixo nos  meus  olhos,  disse
que eu jamais poderia faltar ao compromisso. Em seguida, nos  apresentou
ao filho e  sua noiva, Gilda, depois s ex-mulheres  e  os  respectivos
maridos. No ouvamos rudo  de  passos,  um  pequeno  conjunto,  msica
suave, animava o ambiente, e garons,  desfilando  taas  de  champanhe,
afundavam os Sapatos de verniz  na  pluma  do  tapete.  Tudo  flua  com
artificialidade. Todos ns, da nossa sala  do  Meio  do  Cu,  estvamos
presentes, fora os outros que eu via espalhados pelo apartamento.  Sobre
a mesa grande da sala, en
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tre dois castiais com velas acesas, um vaso  de  cristal  continha  uma
infinidade de tulipas negras.
        Seu Evaristo circulava pela sala com olhos postos em mim.  Olhos
escuros, sombrios, y los labitos salientes... O que estaria havendo  com
esse homem? De vez em quando eu olhava  para  as  pessoas  para  ver  se
percebiam, mas elas se encontravam distradas, conversando em voz baixa.
Um possante sistema de refrigerao gelava o salo, as cortinas  abertas
deixavam  aparecer  atravs  dos  vidros    o    Corcovado    iluminado.
Antes de servirem o jantar, seu Evaristo anunciou que queria dizer  umas
palavras. Ento, pigarreando, iniciou  dizendo  que  o  Cristo  estivera
sempre ao seu lado - apontou para a imagem -, por isso talvez tivesse sido
to abenoado, pela famlia maravilhosa,  pelo  filho,  orgulho  de  seu
corao de pai, Gilda, as ex-mulheres, os amigos queridos, e todos  ns,
do Meio do Cu, dedicados companheiros de trabalho. Antes  de  terminar,
queria dizer que ali estvamos por um motivo muito feliz: selar a  unio
de Evaristo e Gilda, a quem desejava eterna felicidade.
        Sob aplausos dos presentes endereou o olhar para o jovem casal,
e em seguida mirou os olhos nos meus. Nesse momento,  os  garons,  mos
enluvadas, voltaram a circular com travessas sob fogo brando, enquanto o
olhar de seu Evaristo crepitava sobre  mim.  Uma  situao  horrvel.
Quando retiraram a sobremesa, eu disse a Susie que precisava ir  embora,
me esperavam em casa; doida para me ver  livre  dali.  Susie  disse  que
tambm ela teria que levar  seu  poodle  para  passear.  De  longe,  seu
Evaristo percebeu que sairamos e, caminhando a passos

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largos em nossa direo, agradeceu pelo comparecimento e, de novo, disse
que eu no poderia ter faltado: - Dona Gilda.


        Dentro de uma semana,  eu  entraria  de  frias.  Finalmente  me
casaria com Jos Jlio,  quer  dizer,  moraramos  juntos.  Dad  chegou
sozinha, os filhos estavam em aula,  e  o  marido  s  queria  saber  de
trabalho. Trabalho. Me trouxe um brinde do avio. Um kit de material  de
limpeza... Seria este o presente de casamento?
        Mame no sabia se ficava  feliz  com  as  filhas  reunidas,  ou
profundamente triste com o rumo que eu  havia  escolhido  para  a  minha
vida.  Destroando  um  lar  alheio  e  ainda  por  cima  com    criana
envolvida... No se cansava de dizer que eu  comearia  muito  mal.  Por
ela, eu ficaria infeliz e aflita, una solterona pasada.
        Diante da confuso instalada em mame, resolvi que  faramos  um
pequeno almoo em casa, s para ns, e Jos Jlio, claro. Nina disse que
Srgio  fazia  questo  de  comparecer;  havia  composto   uma    cano
especialmente para a data. Sabia Deus o que iramos ouvir..
        Inacreditvel o almoo, e ramos poucas pessoas.  O  corao  de
Wilma felizmente resistiu, e ela pde fazer um estrogonofe  de  camaro.
Quando terminamos de comer, Srgio, pegando o violo, disse que  tocaria
a surpresa que fizera para ns.  E  cantou  uma  msica  que  falava  de
agonia, melancolia e solido. Que comemorao.  Na  hora  do  champanhe,
Jos Jlio fez questo de Prometer a mame que se casaria comigo,  teria
apenas (apenas) que assinar os papis de divrcio. Passado al
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gum tempo, durante o qual a conversa no engrenou  para  lado  algum,  o
interfone tocou para avisar a dona  Gilda  que  havia  um  telegrama  na
portaria.
        Dentro  do  carro,  despedida  da  famlia,  abri  o  telegrama:
"Felicitaes. Evaristo."
        Jos Jlio perguntou quem enviara, respondi que tinha  sido  meu
chefe. O que gosta de defuntos?, perguntou, rindo. Balancei a cabea.
        - Legal! disse, espalmando a mo sobre a minha coxa.
        E o assunto, por falar em defunto, morreu.





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O telefone tocou no quarto do hotel onde  passvamos  a  lua-de-mel.  Um
infortnio como outro qualquer Enquanto o aparelho apitava, Jos Jlio e
eu nos entreolhamos durante segundos; em seguida, esticando o brao, ele
arrancou o fone do gancho. Fingi que tirava  a  maquiagem  no  banheiro,
enquanto o ouvia perguntar por Bianca. Em seguida, desligou.
        - E a, querido, tudo bem? - Tentei afinar a voz.
        O cunhado (cunhado) contara que Aurora tinha atirado a tartaruga
pela janela do prdio. Sentando-se na ponta da cama, e  pondo  a  cabea
entre as mos, Jos Jlio ficou pensativo, em seguida levantou-se e,  me
abraando, disse que estvamos ali para sermos felizes. Me deu vontade
de perguntar o nome do bicho.
        - Judith, Jos Jlio?
        Aurora tinha escolhido. Bem, depois de fazermos amor (nem sei se
assim se  pode  chamar  o  que  se  passou  meteoricamente  entre  ns),
deitados, olhos no teto, vamos sua mulher jogando o resto da casa  pela
janela.
        Assim comeou nossa vida a quatro:  Jos  Jlio,  eu,  Aurora  e
Banca.

        Ao voltarmos, depois de dias de cachoeira, verde, frio,  lareira
e  muitos  silncios  de  Jos  Jlio  (preocupao  com  a   menina,
certamente), ele me deixou para ver

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mame e foi direto conferir o resultado  da  tartaruga  despencada  pela
janela.
        Assim que passei pela entrada do prdio, o porteiro me  entregou
um buqu de rosas. Quem teria sido? Abri o  envelope.  "Saudades?  Dessa
vez, no havia assinatura. Subi com as flores  nas  mos,  e  depois  de
abraar mame gritei em seu ouvido que as  flores  eram  para  ela.  Ela
perguntou como tinha sido  a  viagem;  contei,  s  no  disse  que  uma
tartaruga acabara com a nossa lua-de-mel logo no primeiro dia. Falei  de
passarinhos, riachos e flores, ela gosta. Depois, como estava  comeando
a ficar agoniada com a histria de seu Evaristo, resolvi contar  que  um
homem me perseguia. Ela ouviu. No final, perguntou se eu achava que  dar
flores era perseguir. Mame no entende nada! Passados  alguns  minutos,
sria, revistinha de palavras cruzadas no colo, perguntou  se  eu  sabia
como era prato em ingls. Dish, gritei.

        Mudei-me para a casa nova. Tudo improvisado. O dinheiro da venda
do carro deu para comprar cama, colcho e geladeira, ainda bem que havia
armrios embutidos no apartamento. Acampamos na sala. Jos  Jlio  tinha
posto  cervejas  na  geladeira;  jantamos  sanduches  acompanhados   de
latinhas geladas. Depois nos deitamos. Um fiam  boyant  florido  entrava
pela janela, esparramando seus galhos e decorando o quarto. Luz apagada,
nus, abraados, Jos Jlio dizia que me amava, enquanto eu  beijava  sua
boca macia e  linda.  Tivemos  uma  noite  tranqila  pela  ausncia  de
telefone em casa.

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        Na  manh  seguinte,  chegando  ao  escritrio,  os  colegas  me
cumprimentaram. A sala de seu Evaristo, s escuras, estava vazia. Depois
do almoo, ele apareceu e, detendo-se   minha  frente,  perguntou  como
tinha sido o casamentO. Bem, obrigada, respondi. Quase na hora de fechar
o expediente, ouvi sua voz me chamando. Quando entrei,  ele  contou  que
andava com problemas de sade e teria que fazer exames; queria saber se,
precisando de algum favor, poderia contar com a minha ajuda. Sim, claro,
eu disse. Ele agradeceu. Ento, tomei coragem e perguntei se tinha  sido
ele a mandar o telegrama e as flores. Quanto ao telegrama,  sem  dvida,
desejava me felicitar, respondeu, mas quanto s flores, dona  Gilda,  de
maneira alguma. Agradeci pelo telegrama e sa; as  luzes  na  cidade  j
estavam acesas, e, de novo,  como  naquele  dia,  tive  que  driblar  um
assaltante. E assim, uma vida desassossegada.

        No dia seguinte, ao chegar ao escritrio,  um  dos  funcionrios
disse que seu Evaristo me aguardava em sua residncia. Nem tive tempo de
pendurar a bolsa na cadeira.
        Ao entrar na escurido do seu apartamento, entrevi-o  prximo  
janela. Vestia um robe de seda vinho,  e  nos  ps,  chinelos  de  couro
preto. Seu Evaristo no  feio nem bonito,  antigo.  Estatura  mediana,
um pouco barrigudo, usa culos e tem  os  cabelos  crespos  e  grisalhos
agarrados na cabea. Se desculpando, disse que eu ganharia um extra pelo
trabalho de atend-lo em casa:

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        - Desculpe, Gilda, desloc-la at aqui, mas como lhe  comuniquei
na ltima vez em que nos vimos, ando um pouco adoentado  e  preciso  que
realize algumas tarefas... - Apontando o sof para que eu  me  sentasse,
continuou a falar que gostaria de reiterar os elogios  minha  pessoa,
e acrescentou que, no nosso departamento, no havia  ningum  to  capaz
quanto eu...
        Ora me chama de Gilda, ora de senhora, no se  decide.  Pediu
que passssemos  sala, precisava manter-se  recostado.  Reclinou-se  no
sof; entre ns, uma mesa de tampo de vidro cheia de  papis.  A  medida
que explicava o servio, gesticulava, ento o robe  comeou  a
escorregar devagarinho, se abrindo. Uma viso horrvel instalou-se    minha
frente, um verdadeiro monstro de gordura e plo;  demorei  a  perceber
que no usava cuecas... No notava que estava  descomposto,  ou  fingia?
Quanto mais falava, me encarando, olhos espremidos, boca  molhada,  a
viso do horror se modificava;  comecei  a  notar  sob  sua  barriga  la
transflguracin dei miembro. Fazia um  esforo  enorme  para  permanecer
indiferente, impossvel, quando se est diante de um animal gigantesco
perambulando  pelo  planeta.  Em  meio  s  frases,  puxando  o  robe,
ajeitando-o, ele bufava, babujante, se dizendo com falta  de  ar.  Dessa
maneira, trabalhamos, com o membro dele se anunciando.
        Sa abismada; quarteires adiante, comecei a pensar no extra  no
final do ms; o extraordinrio trabalho.

        Mal pisei em casa, tive um troo. De  vez  em  quando  acontece,
minha presso cai e eu apago durante algum

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tempo - j contei -, depois volto numa boa, como naquela  tarde  em  que
retornei com O sopro do vento nas folhas do fiamboyant que nos visita  a
casa. Assim que Jos Jlio chegou, contei para ele que de vez em  quando
desmaio, no se incomodasse (bastava  tudo  que  tinha  vivido  com  sua
ex-mulher). E por falar no assunto, perguntei se estavam bem,  ela  e  a
menina, ento Jos Jlio contou que Aurora pusera fogo  no  apartamento.
Felizmente, fora acudida a tempo, uma vizinha conhecia seu temperamento.
        No final dessa tarde, chegou a primeira surpresa na nossa  casa:
um abajur enorme, acompanhado de um carto: "Ju, para voc,  o  esprito
da luz."  Aurora.  Em  seguida  ao  abajur,  remessas  de  presentes  se
acumularam. Precisei pedir a Jos Jlio que desse um jeito  na  situao
porque d trabalho  atender  aos  entregadores;  no  prdio  no  existe
interfone,  preciso gritar, com a cabea fora da janela,  ou  despencar
trs lances de escada.
        Na manh seguinte, um aparelho de  tev  chegou    nossa  casa;
Aurora o mandara acompanhado de outro carto. "Ju,  para  que  voc  no
perca os filmes da madrugada:" Agradeci ao rapaz e entortei os olhos  em
direo a Jos Jlio, que, constrangido, levou o aparelho para o  quarto
de Bianca. Quando reapareceu, perguntei:
        - Ela te chama de Ju?
        Ele balanou a cabea, sem graa. Ento eu disse que tinha  lido
uma reportagem que talvez pudesse interesslo: "Auroras so decifradas";
e dei boa-noite.

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        No dia seguinte, tive a impresso  de  ter  visto  seu  Evaristo
saindo do nosso  edificio...!?  Esse  homem  se  alastra  por  todos  os
lugares...
        Na volta do trabalho, subia a escada  do  edificio,  quando  seu
Evaristo passou por mim, me cumprimentando, e seguiu  para  o  andar  de
cima. O que estaria fazendo no nosso prdio!?
        Assim que Jos Jlio chegou em casa, contei a ele. Teramos  uma
vizinhana tranqila com o amigo dos defuntos, riu, quando  terminou  de
falar. Jos Jlio tem mania de rir das coisas que diz, eu no  achava  a
menor graa naquele homem seguindo meus passos.
        No dia seguinte, no Meio do Cu, esperei seu Evaristo  aparecer,
e mal entrou em sua sala, bati na porta.
        - No me mudei, dona Gilda, apenas aluguei um  apartamento  numa
localidade agradvel do Rio. Embora muito bonita, ando cansado da  vista
da Lagoa, do movimento constante do trfego e, dependendo do vento, do
cheiro dos peixes mortos.  O  Jardim  Botnico  surgiu  como  uma  opo
natural. Mais alguma pergunta, dona Gilda?
        Balancei a cabea, e j ia sair da sala, quando ele perguntou se
eu havia reparado no galho de fiamboyant  que  enfeitava  nosso  quarto.
Alugara o apartamento em cima do nosso!? Passada uma semana, eu  chegava
cansada em casa, quando vi  uma  ambulncia  estacionada  em  frente  ao
prdio. Quase alcanava o  corredor  quando  dois  enfermeiros  passaram
carregando uma maca com uma moa desmaiada. Andei ao lado deles, fazendo
perguntas gri
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tadas - tenho o hbito  de  falar  assim,  devo-o  a  mame  -,  mas  os
enfermeiros no sabiam o que tinha acontecido, apenas  receberam  recado
de uma remoo urgente. Ser que a moa se encontrava no apartamento  de
seu EvaristO?
        Subi correndo e encontrei Jos Jlio no telefone, aflito. Fiquei
em p ao seu lado, louca para falar, enquanto o ouvia dizendo  que  iria
investigar. Investigar o qu, Jos Jlio, quase gritei quando ele saiu do
aparelho. Alergia. Bianca est com alergia. Falava com  Aurora,  e  tudo
que ela diz ele tem que escutar, porque se borra  de  medo  do  que  ela
possa fazer. Disse que achava melhor que ele investigasse  o  que  tinha
ocorrido no prdio:
        -  Uma  moa  saiu  daqui  numa  maca,  desacordada,  desmaiada,
apagada, Jos Jlio!...
        Ele se disps a verificar no dia seguinte. Jos Jlio tem  muito
boa vontade.

        Mal pus os ps no escritrio, mame telefonou perguntando se  eu
sabia qual era o filme com a Judy Garland com onze letras. O  Mgico  de
Oz, respondi, e ela deu um risinho do outro lado. S acha  legal  quando
eu acerto palavras cruzadas. Depois, ainda queria falar, perguntar  se
eu lembrava que tinha me. At logo, mame, passe bem o  dia,  disse,  e
desliguei.
        Estava doida para chegar em  casa  e  saber  o  que  Jos  Jlio
descobrira a respeito da moa. No agentando esperar, liguei para o seu
trabalho (Jos Jlio  dono de Sebo, ganha uma misria, coitado...)  No
estava, disse a VOZ que atendeu, fora ver a filha.

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        Cheguei em casa muito antes  dele,  claro.  Pela  demora,  devia
estar fazendo reparos no apartamento de Aurora; acho que nos acessos  de
alegria ela quebra as  coisas  para  que  depois  ele  as  conserte.  De
repente, comecei a ouvir passos no apartamento de cima; resolvi  testar,
andar tambm, de um lado ao outro, e  os  passos  me  acompanharam.  Seu
Evaristo devia ter contratado uma  pessoa  para  cada  aposento.  Fiquei
naquela perturbao) quando, finalmente, Jos Jlio chegou, contando  em
detalhes como encontrara Bianca. Assim que conseguiu acabar de falar  da
filha, perguntei se, finalmente, soubera o que tinha acontecido no nosso
edificio. Sim, porque no  normal uma moa sair numa maca e  as  coisas
continuarem do  mesmo  jeito.  Jos  Jlio  contou  que  uma  enfermeira
aplicara morfina em si prpria. Exagerara na dose, mas parece que    um
barato, disse ele.
        - Que horror... Jos Jlio...
        Mas a moa no se encontrava no apartamento de seu Evaristo.

        Passei na casa de mame. Quando pergunta se eu lembro que  ainda
tenho me, me d uma coisa esquisita, acho que compaixo, culpa, amor  e
raiva. S isso.
        Logo que entrei, encontrei Lili  mesa, e ao seu lado um  jovem.
Mame servia os dois, e enquanto se  movimentava,  perguntou  se  eu  me
lembrava de Ricardo. Lili cismou h no sei quantos anos que  pai desse
rapaz. Ricardo  um  crioulinho,  magro,  alto,  falante,  que  mora  no
interior de Minas, s vem ao Rio por ocasio dos aniversrios, dele e de
Lili. Hoje era aniversrio de meu

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tio, e eu tinha me esquecido. Disse que da  prxima  vez  lhe  traria  o
presente. Qualquer bloco e lpis  de  cor  agradam  a  Lili,  que  vive
desenhando no escuro; tenta, h vrios anos, observar a escurido,    o
que diz quando sai do breu do quarto.
        Conversei um pouco com mame, quer dizer, ouvi-a enveredar  pelo
seu assunto predileto: ns, filhas desde o comeo. Dizia que  Dad  sim,
casou bem, est feliz, tranqila com o marido  e  os  filhos,  nada  lhe
falta; Nina j no teve a mesma sorte, a fixao em Srgio  no    nada
boa, mame acha que ela est obsecada. E eu  sou  uma  fonte  perene  de
preocupao. Aproveitei que escutava,  testava  o  aparelho  da  vizinha
(dona Idalina) e falei, de novo, que meu chefe  andava  me  cercando.  E
mame disse que eu tinha mania, desde pequena, de achar  que  os  homens
andavam atrs de mim. Precisava parar com isso.
        As vezes, parece, que mame vai me  escutar,  mas  em  todas  me
engano.





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- O que aconteceu, dona Susie, desmaio?...
        Ouvi a voz de  seu  Evaristo,  depois  fez-se  o  mais  absoluto
silncio.
        Olhei para os lados, e o escritrio estava  inteiramente  vazio.
P  ante  p,  me  aproximei  da  sala  dele,  me  borrando  nas  saias.
Paralisada, vi Susie emborcada sobre a  meia,  tendo  ele  por  trs  se
movimentando... Assim ficaram durante algum tempo, at  que  escutei  um
urro e os gritos de Susie. Corri para a minha sala, peguei a bolsa e sa
porta afora.
        Na rua, enquanto esperava o nibus, Susie saiu do prdio, rodando
a bolsa no ar. O nibus, nada de chegar, de repente um carro estacionou 
minha frente, e a porta se abriu.
        - Ainda por aqui, dona Gilda? - Seu Evaristo me oferecia carona,
dizendo que iramos para o mesmo lugar. No vi jeito de  escapar.  Assim
que entrei, comentei que o nibus demorava chegar. Deve ter passado pelos
seus torpes miolos que eu o tivesse visto com Susie. Mal deu  a  partida
com carro, perguntou: - Como  vai  a  vida  de  casada?  Bem,  obrigada,
respondi. Ele silenciou; passado algum tempo,  outra  pergunta:  se  era
verdade que meu ma
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rido  era  apressado.  Escutava  o  que  se  passava  dentro   do    meu
apartamento!? Quando chegasse em casa, iria falar com Jos Jlio que  eu
queria me mudar, e tambm que sairia daquele infecto trabalho!
        O carro chegou em frente ao edificio, agradeci a carona e  desci
apressada. Ele seguiu rua abaixo, ainda bem  que  para  outro  lugar  Em
casa, encontrei Jos Jlio no alto  da  escada,  com  a  boca  cheia  de
pregos, montando a estante na sala. Disse que precisava falar seriamente
com ele. Contei o que tinha se passado  no  escritrio;  quando  acabei,
Jos Jlio disse que certamente minha colega devia andar dando bola para
o chefe.
        - Por  exemplo,  no  sebo  ningum  jamais  se  engraou  com  a
Vernica, e ela no  de se jogar fora... comentou, rindo.
        Tive vontade de dar um tapa em Jos Jlio, acho  que  ele  notou
porque acabou  rapidamente  com  o  riso  nojento.  Resolvi  encerrar  a
conversa, dizendo que ia procurar trabalho em outro lugar.
        - E antes que eu me esquea, quero tambm dizer que vamos  mudar
deste apartamento!
        Jos Jlio voltou para o alto  da  escada,  avisando  que  tinha
comprado saladas para o jantar.
        Tentar conversar com ele ou mame  d  no  mesmo,  no  entendem
nada. Estou na iminncia de ser a prxima vtima.
        Quando fomos para a cama, Jos Jlio disse que queria fazer
amor.
        - Vem, chuchu, vem...

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        Enquanto transvamos, na afobao costumeira,  eu  ouvia  passos
sobre as nossas cabeas; sussurrei no seu ouvido, e  ele,  tremelicando,
disse:
        - Meu bem, as pessoas aaaanndammm...

Na manh seguinte, no escritrio, Susie sorria  de  um  lado  ao  outro.
Roddy disse que, pelo jeito, ela se apaixonara, e Susie falou que nem de
longe podamos imaginar o que havia acontecido em sua  vida.  Era  outra
pessoa. E enfiando os dedos entre os cabelos, jogou-os para trs.  Pouco
depois, seu Evaristo pisou no andar, e ela saiu  atrs  dele  sibilando,
chefe, chefe, e ele entrou apressado, dizendo que teria  um  dia  cheio.
Durante toda a manh, eu me via entrando na sala  de  seu  Evaristo,  me
despedindo, mas quando terminou o expediente, desisti da idia.
        Mame recebe uma aposentadoria de merda. Nina no ajuda em nada,
e mame s abre a boca para dizer coitada. Dad no  d  um  tosto,  j
disse que  uma pessoa ruim. Sobra pra mim, que tenho um bom salrio mas
vai todo na bosta da casa, e  ainda  tenho  que  comprar  alpiste...  s
vezes, penso em acabar com todos, a comear pelo passarinho.
        Arrumava a  mesa  para  sair,  quando  o  telefone  tocou  e  me
chamaram. Custei a entender que era dona Idalina, vizinha  de  mame.  O
que ela queria? Mame estava mal? Sua me pede que,  se  voc  tiver  um
tempinho, d uma passada em sua casa, disse ela, e  se  desculpou  pelo
incmodo.

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        - Algum problema em casa, dona  Gilda?  perguntou  seu  Evaristo
assim que pus o aparelho no gancho.
        -  Posso  ser  til  em  alguma  coisa?...  Por  favor,  no  se
constranja...
        Agradeci, e reparei em seu olhar de falco.

        Encontrei  mame  assistindo    televiso  e  fazendo  palavras
cruzadas.
        - O que aconteceu? perguntei de p, mos na cintura.
        Ela disse que  precisava  urgentemente  me  contar  o  ocorrido.
Sentou-se e me pediu que tambm sentasse.  noite, quando ia se  deitar,
foi  sala  verificar  se  as  janelas  estavam  fechadas,  ameaava  um
temporal, sacudiu as mos no ar; subitamente, surgiu na cadeira  de
balano um morto que ela no conhecia, jamais havia visto,  nem  mesmo  em
fotografia, todavia no parecia atormentado, apenas deslocado; devia ter
se equivocado de endereo. Iniciou uma conversa  com  ele,  podia  estar
obsecado, sabe como , Wilma tambm apareceu para ajudar, e o sujeito se
recusou a conversar e a dizer o nome de sua pessoa.
        Senti a ira me  tomando,  subindo  aos  borbotes,  j  j  iria
destampar as cordas vocais. Mas disse a ela que nada  tinha  a  ver  com
suas maluquices. Apertando os olhos - quase desapareceram de to midos -,
mame disse que lamentava muito  que  logo  eu,  sua  filha,  no  desse
importncia ao que realmente valia a pena, a vida  aps  a  morte.  Tive
vontade de apresent-la a seu Evaristo, dariam uma boa dupla.

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        Estava de sada, quando Nina,  olhos  vermelhos,  engrou.  Mame
pediu que eu no falasse sobre o assunto; ela    muito  impressionvel,
segredou perto do meu ouvido. Mal as duas se viram, se abraaram, e Nina
chorou. Contou baixinho que Srgio sara de casa sem se despedir. Virando
o rosto para mim, mame voltou a sussurrar que Nina era muito  sensvel,
achava que Srgio se aproveitava.
        J que estavam entregues uma  outra, eu disse que iria  embora,
e mame me levou at a porta enquanto ouvamos Nina assoar  o  nariz  no
banheiro. Est sempre assim, funguenta.

        Ao chegar em casa, Jos Jlio estava no banheiro. Fui pr a mesa
para o jantar e me deparei com um livro aberto

 "O tudie-t-on les Aurores?
     Quel est le programme
 des tudes? Quel est
 l'avenir de cette profession?
 Peut-tre serai-je un
 jour Inspecteur Gnral
 des Aurores? Demain je
 veux m'inscrire."

Jos Jlio levou a srio o deciframento  de  Auroras!?  Quando  saiu  do
banheiro, sorri para ele, ele sorriu de volta. Sempre de bom humor.

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        Amanheci cantando parabns, aniversrio de Jos Jlio.   noite,
jantaramos fora, coisa rara, o dinheiro est  curto,  principalmente  o
dele, coitado. Mas quem pode gostar de livro velho, poeirento e sujo, j
perguntei, e Jos Jlio respondeu  que  muita  gente,  mais  do  que  eu
poderia imaginar. Tinha que sair preparada desde cedo porque no haveria
tempo de voltar em casa  e  trocar  de  roupa,  ento  pus  meu  vestido
perolado com brilho furta-cor, decote profundo, transparente; quase nada
cobrindo tudo... Como Jos Jlio gostava. Ele diz que eu sou uma  mulher
magntica, atraio todos para o meu mbito; meu arrecife,  minhas  curvas
setentrionais, e na pequena ilha uma orada  na  capela,  que  pla,  que
pla... Cantarolava enquanto calava os sapatos salto agulha.
        Ao chegar ao Meio do Cu, Roddy disse que eu estava um  espanto.
Pouco depois, seu Evaristo entrou, me  viu  e  pediu  que  no  final  do
expediente eu fosse  sua sala, precisava encontrar papis  na  estante.
Quando o escritrio esvaziou,  ouvi  sua  voz  me  chamando.  Assim  que
entrei, ele perguntou se naquela noite haveria festa. Eu disse  que  era
aniversrio de meu marido, jantaramos fora. Sentado  sua mesa, ele  me
olhava de alto a baixo. A mesa  de  seu  Evaristo    um  mvel  grande,
escuro, pesado, com um buraco para que ele ponha as pernas. Apontando
para mim uma escada, pediu que eu a colocasse diante da estante. De onde
estava, me diria onde se achavam as pastas que desejava localizar. Trepei
na escada e ele me pediu que  prestasse  ateno  porque  a  estante  se
encontrava abarrotada e no  seria  fcil  achar. Ento,  comeou  a  me
dirigir: " direita, dona Gilda, no canto,

56

por favor"; meti as  mos  numa  maarocada  de  papis, "esto  na
prateleira de cima"; mandou que eu subisse mais um degrau;  medida que
falava, sua voz se modificava, bufava, chiava como uma televiso fora do
Me virei para trs, seus olhos estavam apertados, narinas  dilatadas,  o
rosto mido brilhava, e ele mandou que eu me concentrasse no que  fazia.
Mais para l, dona Gilda,
no, para c, dizia, e sua respirao se  alterava,  suando,  de
repente, alteou a voz, avisando que estava quase chegando, ento gritou:
a!, dona Gilda, a!, e eu puxei duas pastas verdes e  velhas,  enquanto
ele dizia, calma, pega devagar e, sacudindo-se na cadeira, despejou:
        -A senhora  mesmo uma beleza... - E caiu com a  cabea  apoiada
sobre a mesa. Desci da escada e me
        aproximei  para  entregar  a  sujeira,  ele  levantou  o  rosto,
 pingando suor:
        - No sei o que seria de mim sem a senhora, dona Gilda...
        Palavra de honra que vou sair deste emprego nojento,
pensei enquanto pegava minha bolsa para me encontrar com Jos Jlio, que j
devia estar l embaixo me esperando.
        Quando Jos Jlio me viu, disse que eu estava uma
lindeza, chuchu.
        A pizzaria estava cheia, mas conseguimos  uma  mesa
ao lado dos banheiros. Meia hora depois, tnhamos tomado at  o  cafezinho.
Ningum come mais rpido que Jos  Jlio,  estou  aprendendo  a  engolir
comida. Assim que samos do restaurante, deu pressa nele para chegarmos em
casa. Mal entramos, arrancou meu ves
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tido e, correndo comigo para o quarto, me empurrou contra a cama e  caiu
sobre o meu corpo, nos embolamos e, pouco depois, comecei a  sentir  uma
aflio gostosa quando Jos Jlio se desmanchou sobre mim.
        No sei o que acontece! Inicialmente resistente, borrachudo,  da
espessura de um pulso, o peru  de  Jos  Jlio  se  exaure  rapidamente.
Pensava nisso, quando escutei:
        - Faz, Evaristo, assim, devagar, assim...
        A voz de uma mulher no meio da noite. Depois, gritos, gritos sem
fim. Jos Jlio disse que, como ns, tambm havia um casal comemorando.

        Subia a ladeira de volta para casa, e assim que me aproximei  do
nosso edificio, vi  um  carro  todo  desenhado.    medida  que  andava,
consegui identificar que  consistia  em  riscos  dourados  raios?  sobre
linhas: auroras.
        Jos Jlio contou que seu carro quebrara e Aurora lhe emprestara
o dela. Nem precisava dizer. Perguntei por que  ela  fizera  aquilo.  Ele
respondeu que assim no seria roubado. Nesse instante, vi Bianca ao  seu
lado, cheia de fotos de sua me com ela no colo. Parece que  Aurora  tem
medo que a menina a esquea num fim de semana.
        De mo dada com a filha, e a  outra  me  abraando,  Jos  Jlio
entrou no prdio dizendo que a menina  viera  passar  a  noite  conosco.
Conosco. No sei o que se passa com Jos  Jlio  quando  a  garota  est
presente, ele no pra de falar. Canso de ouvir sua voz. Depois do jantar
no qual ele entupiu meus ouvidos, foi levar a menina

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para a cama. Ficou lendo  histrias.  Assisti  a  um  filme  inteiro  na
televiso e ele no apareceu. Ao me levantar para fazer xixi,  ouvi  seu
ronco no corredor. Chamei-o, e Jos Jlio passou para a nossa  cama  sem
escovar os dentes e trocar de roupa.
        Acordei com o dia clareando e senti algum me espiando.  Deitada
entre ns, com as  chupetas,  inteiramente  muda,  a  menina  me  olhava
fixamente.  uma sensao horrvel. Tenho medo de criana, dela ento...

        Tocaram a campainha. Fui abrir a porta. A vizinha que eu  jamais
vira dizia que era telefone para mim. Na casa dela?  Fui  atender  Nina.
Para contar que Dad tinha escrito dizendo que Hermano trocara de amant.
Depois de um caso de onze anos (minha irm fizera as contas),  escolhera
uma bem mais jovem, na verdade, uma garota, que adorava viajar.  Da  os
constantes deslocamentos de Hermano. Rubia, chama-se. O que Nina  queria
que eu dissesse? Que os homens so torpes, indecentes e infames?  Disse,
e ela logo desligou. Mas Nina ligou para a casa dessa  vizinha,  que  eu
no conheo, para me contar isso?
        Sa do telefone e fiquei esperando Jos Jlio para contar o  que
Nina acabara de fazer Depois do almoo, tinha  ido  levar  a  menina  em
casa. Todas  as  vezes  em  que  leva  ou  busca  a  filha,  demora  uma
eternidade. Certamente tem de trocar lmpadas, apertar torneiras,  fixar
prateleiras, enfim, trabalhar; o pedgio que paga por ter sado de casa.
Bem, deve chegar para o jantar. De repente, uma msica  alta  invadiu  o
ambiente: I've got you

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under my skin, vinha do apartamento de cima. Seu Evaristo estava por l,
e tambm sabia que Jos Jlio tinha sado. Devia ter detetive  espalhado
por todo o quartei ro. A vizinha voltou a chamar. Dessa vez, era mame.
O que est havendo com elas!? Perguntei se estava com o  aparelho.  No,
claro. Sua voz aflita pedia que eu fosse correndo at l. Nem sequer deu
tempo de deixar um bilhete para Jos Jlio, sa  correndo  pela  escada;
quando alcancei a rua, olhei para trs, para ver  se  deixara  a  janela
aberta, certamente cairia um p-d'gua,  com  aquelas  nuvens  baixas  e
negras; ao me virar, um homem de binculo, apoiado no peitoril da janela
de cima do nosso apartamento, acompanhava meus  passos.  No  disse  que
estava sendo cercada?

        Assim que entrei na casa de mame, ouvi  sua  voz  ao  telefone,
ligando para a ambulncia. Disse que j  invocara  papai  e  ele  achara
melhor chamar o mdico para atender a Wilma. Sabia que  iria  acontecer,
sai andando pela rea, e mame, atrs de mim, dizia que tinha certeza de
que a empregada no tivera nenhum aborrecimento, a no ser  que  tivesse
ficado irritada por causa de Arnaldinho, cantara a manh  inteira.  Sabe
como  chilrear de canrio, comentou, atravessando a rea  com  as  mos
para o alto, afastando os lenis pendurados no secador.
        - Pode me dizer por que est andando desse jeito?
        Ela mancava, torta.
        - Dor no corao da ndega esquerda.
        Fim do interesse.

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Encontrei a moa emborcada no tanque. Segurando pela cintura, Lili,  com
o pijama pelo avesso, repetia "merda".
        Esperei os  enfermeiros  chegarem,  mame  dizia  que  aguardava
levarem Wilma para falar de novo com papai, ver o que ele acrescentaria.
Quem sabe falaria tambm com tia Nininha, ela fora  mdica,  competente,
sria, devota dos seus pacientes. Em meio  fala de mame e  s  mierdas
que Lili soltava, escutei a campainha. Os enferzneiros  entraram  e  com
rapidez ajeitaram Wilma na cama; aps um demorado exame, constataram que
ela no tinha nada. A empregada abriu os olhos, sorriu, e Lili fechou  a
porta de seu quarto dizendo "bosta"!
        Os homens se foram e eu fiquei olhando para mame,  que,  tambm
me olhando, disse que tinha esqueido a vela acesa no quarto. Era melhor
apagar.





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6

Demorei tanto para chegar, que encontrei Jos Jlio  em  casa,  cansado,
claro, e com cara diferente.
        - O que , Jos Jlio? Diz logo, depois eu conto o
        que aconteceu na casa de mame...
        - Seu chefe ligou.
        Estanquei no meio da sala. Quase gritei: -Paraqu?
        Seu Evaristo telefonara para nos convidar para jantar; pedia que
no recusssemos porque teria  uma  comunicao  importante  a  fazer  e
gostaria de contar com a presena de meu marido,  anunciou  Jos  Jlio,
contente. Quase gritei, de novo, que no iria, e ele  comentou  que  no
estava entendendo a minha reao. No iria  contar  a  cena  do  peru  
mostra, tampouco o que tinha acontecido no dia da  procura  das  pastas.
Alm do mais, quem no estava entendendo era eu; Jos  Jlio  cisma  com
todos os homens, e sequer desconfia de seu Evaristo?...
Jantamos em silncio, eu, puta da vida.  Em  breve  era  O  que  estaria,
certamente. Enquanto comamos o macarro que ele cozinhara,  sempre  o
mesmo, eu no ouvia passos  no  apartamento  de  cima.  Quando  fomos  nos
deitar, fazendo carinho no  meu  cabelo,  Jos  Jlio  pediu  que  eu
pensasse sobre o convite, no valia a pena
no ir, eu podia me prejudicar  toa. Disse  que  j  conversramos
sobre a minha sada do Meio do Cu. Ele


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continuou  me  fazendo  carinho,  dizendo  que  o  travesseiro  era  bom
conselheiro (falou igualzinho a mame), que eu pensasse, porque  no  dia
seguinte ele teria que dar a resposta... Nesse instante, tarde da noite,
o telefone tocou. Jos  Jlio  levantou-se  para  atender  e  l  ficou.
Passado algum tempo em que eu no escutava  sua  voz,  conclu  que  era
Aurora. Ela tem a liberdade de ligar para nossa casa a qualquer momento;
comprei um telefone para que os dois continuassem a se comunicar. Quando
voltou para a cama, Jos Jlio avisou que teria de acordar cedo, porque,
antes de ir para o sebo, assistiria  demonstrao de ginstica olmpica
de Bianca no Piraqu. Aurora determina o que Jos  Jlio  deve  fazer  e
depois ele repassa pra mim.  assim.
        No dia seguinte, ao me levantar, havia um bilhete sobre a mesa:
       "Meu bem, espero que tenha dormido bem; me ligue  por  volta  das
dez, quando j devo estar no trabalho. Fiquei de dar a resposta sobre  o
jantar na hora do almoo. Beijos. Jos Jlio"
        Ao chegar ao Meio do Cu, outro bilhete me esperava:
       "Dona Gilda: Espero que a senhora conceda  esse  jantar  a  trs.
Pretendo recompens-la pela gentileza. Cordialmente. Evaristo"
        Devidamente pressionada, liguei para Jos Jlio, que, assim  que
ouviu meu sim, se alegrou.  chegado a frescuras.
         noite,  pus  meu  minivestido  amarelo  Arnaldinho  (se  mame
escuta, chora), e fiquei esperando Jos Jlio

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se aprontar, sempre indeciso quanto ao que vestir,    comum  voltar  da
porta para trocar calas, camisa ou sapatos. Nesse momento,  escolhia  a
meia, j havia vrios pares sobre a cama, quando se  decidiu;  comentou,
sorrindo, que seu Evaristo pusera um carro  nossa disposio. Empolgado
com o programa?
        Mal entramos no restaurante decorado de verde, com  cadeiras  de
couro negras, o maftre disse que o senhor Evaristo  nos  aguardava  numa
sala reservada. Assim que nos viu ele se levantou,  nos  cumprimentando,
dizendo que folgava (folgava) muito em conhecer meu marido; estapeou  as
costas de Jos Jlio. Assim cumprimentam- se os homens, na porrada.
        Passado algum tempo, em que  seu  Evaristo  se  interessou  pelo
trabalho de Jos Jlio, e este contou em detalhes  a  vida  no  sebo,  o
maitre trouxe o vinho, safra especialmente escolhida  para  essa  noite,
comentou seu Evaristo ao efetuarmos o brinde. Em seguida, ouvimos a  voz
do matre recomendando  crebro  de  carneiro  com  azeitonas.  Era  uma
especialidade da casa. Se  no  aprecissemos  carneiro,  interveio  seu
Evaristo, havia um pato assado delicioso, extremamente saboroso,  porque
ao ser morto no era degolado. Senti nsias de  vmito  acompanhadas  do
incio de desmaio que s vezes me acomete. Nesse instante, seu  Evaristo
comentou que eu empalidecera,  e  Jos  Jlio  disse  que  devia  ser  a
iluminao, no tnhamos o hbito de jantar  luz de velas, terminou  de
falar rindo. Tem mania de se divertir com o que diz,  j  comentei.  Seu
Evaristo me observava, e eu

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tentei sorrir e esbarrei nos copos que tilintaram. Subitamente srio, em
outro tom, seu Evaristo disse que nos convidara no s para ter o prazer
de conhecer meu marido, como tambm para comunicar que estava em vias de
uma importante negociao,  e  para  que  esta  tivesse  sucesso,  minha
presena  seria  indispensvel,  visto  eu  me   encontrar    plenamente
habilitada a executar a tarefa que envolvia o Meio do  Cu.  Voltando-se
para Jos Jlio, e dando um tapa em suas costas, comentou, sorrindo:
        - Dona Gilda  a locomotiva da empresa!...
        Continuou: pretendia me recompensar por me privar um  sbado  de
casa: dois mil dlares por um dia  sua disposio, fora  do  Rio.  Jos
Jlio escutava com a  maior  ateno,  e  eu  pensava  que  o  sonho  do
mastodonte estava em vias de se realizar. Seu  Evaristo  continuava  sua
cantada milionria: me aguardaria no Yacht Club, e de l seguiramos  de
lancha para Angra dos Reis, onde se efetuaria  a  transao.  Transao.
Caso meu marido concordasse, enfatizou ele. Nesse momento, ergueu a taa
brindando, olhos brilhando, aguardando a resposta. (Precio fijo, senra.
O tomarlo o dejarlo). Na sua pressa costumeira, Jos Jlio disse que no
se opunha. Como  eu  nada  dizia,  seu  Evaristo  comentou  que  poderia
aguardar a resposta no final do jantar ou, se eu precisasse de um  tempo
maior - o compromisso seria no final de semana -, teria um par  de  dias
para pensar. Mudando de assunto, perguntou se sabamos que o tamanho das
orelhas e a forma do crnio determinam se algum tem  tendncia  ou  no
para o crime. Jos Jlio disse que  era  uma  teoria  interessante.  Que
conversa...

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        Nesse momento, Jos Jlio pediu licena e, levantando-se,  sumiu
para o banheiro. Mal ele virou as  costas,  os  olhos  de  seu  Evaristo
fixaram-se nos meus seios;  sem  me  encarar,  disse  para  si  prprio:
magistrais,  polpudos  e  rosados.  Em  seguida,  enxugou  a  boca    no
guardanapo. Degenerado.
        - Ento, dona Gilda, posso  contar  com  a  sua  colaborao?  perguntou, quando Jos Jlio retornou  mesa.
        - No, respondi. As sobrancelhas de seu Evaristo se arquearam  e
Jos Jlio me olhou com cara de assombro. Danem-se. Muito  rapap  desse
homem para me comer.
        Assim dizem eles, os crpulas, cnicos, sacanas.
        Jos Jlio voltou mudo no carro, quem sabe pensando nos  dlares
perdidos. Quando conseguiu falar, perguntou o que tinha acontecido  para
que eu no aceitasse o convite. Esse cara quer me foder, eu  disse,  com
todas as letras. E ele:
        - O que  isso, Gilda...
        Entrando em casa, Jos Jlio comentou que tivera  boa  impresso
de seu  Evaristo,  eu  devia  estar  cismada...  Lembrei-lhe  a  cantada
fnebre; puxando meu corpo para junto do seu, me beijando  e  abraando,
ele sussurrou que em relao  sua mulher estava inteiramente tranqilo.
        Dormi e sonhei que me afogava, enquanto sobre  as  ondas  Bianca
fazia uma ginstica desordenada.
        Acordei com o telefone tocando: mame. Queria contar  que  papai
aparecera e estava preocupado comigo.

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Achava que eu corria perigo. s vezes penso que mame tem  parte  com  o
demo.
        - Bom dia, mame desejei e desliguei.
        Passados dois dias em que estivemos mais ou menos mudos em casa,
sa do silncio:
        - No adianta, Jos Jlio, voc pode ficar sem  falar  comigo  o
quanto quiser, porque eu no estou com a menor vontade de ser lanada em
goela de tubaro. Ele me olhava olhos parados, em p ao lado da estante.
J j comearia a rearrumao. Muda  os  livros  de  lugar  praticamente
todos os dias, diz que eles tm de ser manuseados,  assim  se  preservam
por mais tempo, e toca a alislos e cheir-los. Diz que cada  um  possui
cheiro prprio, enfim, loucura como outra qualquer.
        Nesse momento, lembrou-se da viagem planejada, nossa turn pelos
pampas... As coisas que fala... Quando percebeu que da  minha  boca  no
sairia palavra, disse, "esta bem, chuchu, voc  quem sabe"

        No dia seguinte, quando cheguei ao escritrio, seu  Evaristo  j
se encontrava. Depois de me  cumprimentar,  disse,  em  voz  baixa,  que
lamentava eu no ter aceitado o convite para  os  confins  nunca  dantes
navegados e afastou-se devagar, passando a mo no cabelo.  No  entendi.
Mas devia ter sacanagem, claro.
        Mais tarde, correu um zunzum no trabalho; disseram que  o  chefe
teria uma comunicao importante a fazer. Comunicao todos  os  dias...
Depois do almoo, postando-se no umbral da porta de  entrada,  alteou  a
voz, dizendo que gostaria de nos dirigir algumas palavras.

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        - Como vocs sabem... iniciou, empostado -, a empresa far vinte
e cinco anos de existncia sbado prximo. Os  que  aqui  trabalham  so
conhecedores desta data que muito nos orgulha. A notcia alegra a  todos
quantos envidaram esforos no sentido de fazer desta casa um celeiro  de
arte no nosso pas. Ns, da  parte  administrativa  da  tev  Terrestre,
faremos tambm nossa comemorao particular: um brunch  na  sexta-feira.
Sbado prximo haver a festa na emissora. Agradeo a
        ateno e conto com a presena de todos. Obrigado.
        Em casa, contei a Jos Jlio, mas  ele  disse  que  no  poderia
estar presente, sentia muito. Sentia mesmo - adora frescura, eu j disse
-, teria que ficar com a filha; Aurora iria fazer um refresco.
        - Refresco, Jos Jlio?
        - ... acho que  plstica, no ?
        Ficou sozinho com a dvida, no respondi. Palavra de  honra  que
acho estranha a doena dessa mulher. Nada comentei, estou ficando craque
em mudez.
        Bem, decidi com Jos Jlio que  eu  iria  apenas  ao  almoo  de
sexta-feira, e olhe l; no sbado, teria tanta  gente,  que  no  dariam
pela minha ausncia.
        Meio-dia de sexta-feira. Saa de casa, quando vi pingos na  rua,
voltei  para  pegar  o  guarda-chuva.  Depois  de  descer  a    ladeira,
caprichando para no  quebrar  os  saltos  dos  sapatos  na  buraqueira,
vestida como sempre, pouco pano, muito corpo, consegui, depois de  algum
tempo, fazer sinal para um txi. Deve haver um acordo entre os  taxistas
para se escafederem quando cai gua nesta ci
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dade de Cristo, meu Deus! Entortei a porcaria do p e quase cai...
        No percurso, o chofer, Robson, um crioulo com  um  dos  maiores
pescoos jamais visto, cabelos raspados e  um  chumao  no  cocuruto  da
cabea, contava que essas meninas andam de amargar. Tinha dado uma surra
de fio em sua filha de quinze anos que queria namorar.
        - Fio!?
        - Namorar.., e o estudo onde fica,  madame?  -  Silenciei,  e  o
bruto continuou: - Tambm, arriei ela no cho, caprichei, essas  meninas
s aprendem na porrada.
        Eu disse que queria saltar, ali mesmo. O resto, faria a  p.  Un
ansia... una opresin...

        Ao entrar no restaurante, passei pelo buf: ostras em  profuso,
camares grados com molhos  diversos,  coquilles  de  Saint  Jacques  e
mariscos na concha. O garom ao lado  enumerou  os  pratos.  Jos  Jlio
adoraria.
        Assim que me viu, seu Evaristo levantou-se e afastou  a  cadeira
ao seu lado para que eu me sentasse. Esse homem cismou  comigo.  A  mesa
comprida, repleta de funcionrios. Sobre ela, bandeja de prata, taas de
cristal e vinho branco, certamente na temperatura ideal. Onde  quer  que
seu Evaristo esteja, um balde com vinho no gelo esta sempre preparado.
        Ao me sentar, olhando duro para a frente, ele  murmurou  "pernas
soberbas": Depois, perdigotando dentro do meu ouvido, disse que gostaria
de desfazer a m impresso que certamente havia causado na ocasio que

70

falara sobre os mortos. No queria ser mal interpretado. Bem,  retornava
aos defuntos, enquanto o garom ao lado abria uma garrafa de  champanhe.
Assim que a rolha espocou seu Evaristo fez questo de encher duas  taas
e me ofereceu uma, brindando. Clice  na  mo,  comentou  que  sempre  o
fascinara a morte encarnada, ou seja, a atrao pela  pessoa  morta  mas
ainda viva, como eu  sua frente (a coisa  era  pesada);  essa  atrao,
ressaltou, sempre o acompanhara. Susie, a trs  cadeiras  de  distncia,
pescoo esticado, tentava inutilmente  acompanhar  o  que  seu  Evaristo
dizia.  E  ele  continuava:  Se  eu  pensasse  bem,   eu    mesma    era
simultaneamente desaparecida e  presente.  Nessa  hora,  felizmente,  os
garons aparecem com os pratos quentes. Entre garfadas de  lagosta,  ele
comentou que era muito sensvel ao fato de sermos ao mesmo tempo vivos e
mortos.
        - A vida, na verdade,  alvo  em  fuga!  -  exclamou,  dando  um
ligeiro murro sobre a mesa. As pessoas  sua frente balanaram a cabea,
concordando. - Durante todo o tempo em que nos  fartamos,  e  os  aromas
volteis do champanhe circularam entre ns,
        seu Evaristo prosseguiu com o  tenebroso  assunto.  De  repente,
ouvi atrs de mim.
        - Qu desea comer ei se flor?
        Seu Evaristo fincou os olhos nos meus, e eu achei que j  estava
mais do que na hora de ir embora.





71








7

Jos Jlio estava  arrasado  por  eu  ter  recusado  o  convite  de  seu
Evaristo. Queria levar Bianca para conhecer os pampas. Cismara com isso,
ver a filha montada a cavalo, desabalada,  cabelos  soltos,  aos  quatro
ventos. Assim ganharia sade, disse, se desenvolveria,  era  uma  menina
que precisava de hectares de terra  sua frente. Sem comentrios.

        Encontrei um bilhete sobre a mesa de trabalho:  "Grato  por  ter
abrilhantado nosso almoo. Evaristo."
        Esperei que ele entrasse em sua sala e bati na porta.
        Assim que ele olhou para mim,  sorrindo,  eu  disse  que  aquele
seria meu ltimo dia de trabalho. Continuando  a  sorrir,  ele  murmurou
"est bem".
        -  Tudo  o  que    ligado  a  ns,  humanos,    da  ordem   do
imprevisvel, no  mesmo, dona Gilda? disse, antes que eu sasse.

No caminho para a casa de mame, quase fui assaltada no ponto  donibus.
Sob a caixa de chiclete tutti-frutti, uma gilete brilhava nos  dedos  do
meliante; o nnibus chegou, empurrei as  pessoas,  furando  a  fila,  me
embarafustando entre elas, e  o  bandido,  fodido,  filho  da  PUta,  na
calada, achacava outro infeliz.  uma desgraa. Esta cidade  vai  virar
um grande diamante derretido,

73

negro. Penso muito em me mudar para o interior. Plantar  batatas,  criar
galinha e ver pato tomando banho no tanque da  vizinha.  Outro  dia,  em
suas freqentes recordaes, mame contou que quando criana, na casa da
av, gansos  corriam  atrs  dela.  Feliz  menina  minha  me,  plumosas
criaturas brincavam de pegar com ela.
        Encontrei mame, revistinha de palavras cruzadas no  colo;  logo
ao me ver, perguntou se eu sabia  o  que  era  aspirante,  onze  letras.
Pretendente, respondi. Esperei que ela acabasse de escrever, sorrindo, e
contei que sara do emprego. E no estava com  a  menor  vontade  de  l
voltar para buscar o salrio a que tinha direito. Mame  continuava  com
olhos grudados na merda da revistinha, e, antes  que  eu  continuasse  a
falar, perguntou se eu sabia o que  era  pavorosa,  horrorosa.  Ttrica,
respondi, e disse tambm que ela precisava exercitar seus neurnios, no
eu. Chateada, ela fechou a revistinha, perguntando o que eu  queria  que
ela dissesse. Que eu tomava as decises e depois vinha comunicar Como eu
viveria dali em diante? Ela estava muito preocupada, porque dona  Edite,
lembra dela?,  perguntou  e  continuou,  pois  ento,  quase  sofreu  um
desastre de avio. Est muito abalada... Mame  profundamente ligada em
desgraa alheia. Nada lhe chama mais  a  ateno.  Assiste  a  todos  os
noticirios de televiso. E eu sempre digo que basta o que enfrento  nas
ruas do Rio,  assaltantes,  pedintes,  tarados,  bandidos  e  meliantes.
Repeti tudo isso.
        - No sei como um tiro ainda no acertou o Redentor! gritei.

74

Mame sacudiu a cabea. Lili apareceu na sala. Em seguida, Nina  entrou;
com sua chegada, meu tio voltou para o quarto, no suporta mais de  trs
pessoas ao mesmo tempo. Nina estava com uma cara horrvel, comentou  que
queria ter uma conversa espiritual com mame,  se  eu  quisesse  poderia
escutar. Imediatamente comeou a falar do medo de dormir  sozinha  (como
se fosse uma grande novidade...); uma amiga  sua  tinha  morrido  e  ela
achava que iria aparecer. Sacaneara a moa e agora se borrava de medo de
v-la pela frente. Bem,  falariam  de  morte  a  noite  inteira,  quando
engrenam, demoram a acabar. Fui buscar  restos  de  mudana  no  quarto;
quando voltei, escutei Nina  contando  como  sua  alma  conhecera  a  de
Srgio.
        No agentei, fui embora. Ainda  escutei  ao  sair:  -  Lindo  o
encontro de almas, no , mame?
        Mame respondeu que, na verdade, era o nico encontro que  valia
a vida.
        Assim que divisei a rua, um menino de bicicleta  desapareceu  no
buraco aberto havia trs meses em frente ao prdio. Todos  os  dias  cai
algo l dentro - fora o que jogam -, hoje foi um  menino  de  bicicleta.
Ajudei a iar o garoto. Depois, fui catar um galho para enfiar na  porra
do  buraco.  o  que  as  pessoas  se  escangalham  nesta  cidade    uma
enormidade...

 "Ah,        los          vasos                del                pecho!
 Ah,        los          ojos                de                ausencia!
 Ah,                las                rosas                   delpubis!
 Ah,        tu        voz        lenta         y                triste!"
 Pablo Neruda

75

 "Ah,        qu           ganas                de                verte!
 Ah,                qu                brillo                    amarte!
 Ah,        los          botones                deI                seno!
 Ah,        mi        voz        lenta          y                triste!
 Evaristo

        "Dona Gilda: Encontrei este poema dentro de sua gaveta, e espero
que a senhora no leve a mal a pardia. Se me conceder alguns minutos de
ateno, passarei s suas mos seus ltimos proventos. Para isso,  basta
que suba um lance de escada. Sinceramente, Evaristo."
        Encontrei a carta na caixa de correio  do  edificio.  Depois  de
ler, escutei a msica vinda do seu apartamento: Ne me quitte pas. E nada
de Jos Jlio. Devia estar de servio na casa de Aurora.
        Apesar do meu corpo ter comeado a dar ares de agitao,  fiquei
quieta em casa, esperando  Jos  Jlio,  que  logo  depois  chegou,  aos
trambolhes, dizendo que Aurora desaparecera e fora dificil localiz-la.
Depois de muita procura, encontraram-na correndo pela praia, desabalada,
querendo se atirar no mar. Fora um custo traz-la  de  volta,  comentou.
Queria tomar um banho noturno, quase disse, mas resolvi  perguntar  pela
menina. Dormiria na casa da av, e no dia seguinte cedo estaria na nossa
casa. Jos Jlio continuou falando de Aurora, depois... desabou no sof,
roncando. Da Aurora ao crepsculo em minutos... Que vida, que merda, eu,
em turbulncia corporal, e Jos Jlio arrasado. Fui me  deitar,  com  os
ouvidos surdos de Ne me quitte pas. Pouco depois, tonto feito um  zumbi,
Jos Jlio apareceu no quarto e tombou  ao  meu  lado.  Me  restavam  os
sonhos.

76

Manh seguinte, Bianca chegou e eu tentei fazer um carinho nela, que  se
afastou e grudou-se no pai. Enroscou-se em seu colo  e  ficou  brincando
com as chupetas que disps sobre a mesa, e  a  boca  tapada  com  outra.
Quatro eram agora as chupetas; essa menina vive tapada. Pouco depois,  a
empregada que veio trazendo a garota foi embora, no antes  de  entregar
uma carta quilomtrica para Jos  Jlio.  De  Aurora,  claro,  deve  ter
passado a noite escrevendo. Deixei pai e filha se confortando e sa para
a feira. O apartamento  de  cima  em  silncio.  Ao  descer  a  ladeira,
encontrei um caminho trombado contra a rvore que os meninos  moradores
da rua plantaram;  os  garotos  davam  chutes  nos  pneus  do  caminho.
Devasta-se esta cidade por todos os lados.
        Cheguei em casa carregada; depois dos  trs  lances  de  escada,
abri a porta e me estatelei no sof. Bianca, escarrapachada  em  frente,
munida das chupetas, amassava uma revistinha. Perguntei por  seu  pai  e
ela no respondeu. No fala comigo a criana. Me levantei  e  escutei  o
barulho da gua do chuveiro, abri a porta do  banheiro  que  Jos  Jlio
deixa sempre destrancada para a filha entrar  quando  tiver  vontade,  e
ele, voz ensaboada, perguntou:
        -  voc, chuchu?
        Quem mais poderia ser, perguntei, e  ele  no  respondeu.  Devia
estar com os ouvidos entupidos de xampu. No sei o que tanto Jos  Jlio
lava as orelhas, deve ser para limpar o sonido de Aurora. Fui   cozinha
guardar a feira, quando escutei a voz da criana:
        - A ona vai te pegar...

77

        Apareci na sala, e ela, quase rasgando a revistinha, continuou:
        - Vai puxar seus cabelos, comer  suas  orelhas  e  arrancar  seu
umbigo...
        A primeira vez que a menina fala comigo.
        De noite, na cama, contei a Jos Jlio o que sua filha dissera:
        - Bianca  criana, chuchu... - Rindo, continuou: - Quando nosso
filho nascer, voce vai ver...
        - Jamais terei filho algum!
        - Hein?
        Cospem, babam, mordem...  Jos  Jlio  me  interrompeu  com  sua
risada e em seguida dormiu. E eu, depois de me dedicar a  dois  ou  trs
pensamentos macabros em relao a seu Evaristo, fiquei pensando que  no
fora buscar o salrio a que tinha direito.
        Dormi e sonhei que estava sozinha numa casa; de repente,  hordas
de crianas me rodeavam e, aos poucos, milhares eram  as  aves  pequenas
grasnando,  saltando  sobre  mim,  me  bicando,  fazendo   um    barulho
ensurdecedor, uma das minhas orelhas voou no bico de uma  delas,  depois
foram as unhas, os dedos, e eu gritava; quando  ento  me  arrancaram  a
lngua,  acordei  suando,  agitada,  e  Jos  Jlio   tambm    acordou,
perguntando que tanto eu me debatia, quando vi sua  filha  na  porta  do
quarto; sa e fui me deitar no sof da sala.

        Assim que amanheceu,  Jos  Jlio  saiu  com  a  menina  para  a
ginstica olmpica; senti alvio por ficar sozinha

78

em casa. Depois que tomei o caf, o telefone tocou, e a VOZ era  de  seu
Evaristo.
        - Voc gosta de corrida de bondinho?  Ou  prefere  apreciar  uma
regata?
        No entendi. Ento ele disse que gostaria que eu conhecesse  seu
apartamento na Rui Barbosa, nica vista  tranqila  e  animada  do  Rio.
Queria me pagar o que ainda devia, sempre fora bom  pagador  e  no  era
comigo que deixaria de s-lo. Marcou para aquela tarde,  e  eu  respondi
que  no  sabia  se  poderia  ir  (meu  corpo  se  animaVa,   entortava,
empinava...), e ele disse que,  de  qualquer  forma,  me  aguardava.  Lo
encuentro ser costoso. Desli- guei, e o telefone, pouco depois,  voltou
a tocar. Mame, dizendo que Dad viria de frias ao Rio  por  dez  dias,
com Hermano. Continuou falando, dizendo que chegariam naquele mesmo  dia
para o almoo. Ainda bem que Dad avisara, disse ela, assim tivera tempo
de preparar Wilma para a enchente. Alm do mais, vinham com criana.
        - Que criana, mame?
        - Voc no falou da menina?...
        - Voc est de aparelho, hein? Claro que no...
        Deve ter sabido de alguma coisa, Nina fala tudo para ela...
        Mame disse que no poderia continuar no telefone  Porque  teria
de dar um pulnho na casa de dona Idalina,  precisava  estar  aparelhada
quando Dad chegasse. Terminou o telefonema  dizendo  que  me  esperavam
para o almoo.

79

        Deixei um bilhete para Jos Jlio e fui para a casa de mame.
        Mal os viajantes entraram, cansados do fuso horrio, mamae  quis
saber da menina. Finquei os olhos nela.
        - Que menina?  -  rebateu  Hermano,  e  suas  pupilas  cresceram
repentinas.
        Dad, que iria se sentar, ficou  no  meio  do  movimento,  bunda
suspensa no ar.
        - Mame cismou com a neta de dona Idalina, que volta e meia  vem
nos visitar.. falei,  pela  primeira  vez  torcendo  para  que  ela  no
escutasse.
        Fez-se silncio. Mame no ouviu, felizmente. Passado  o  choque
da entrada, Hermano pediu para ler os jornais, queria se pr a  par  das
notcias. Ele  era  outro,  rejuvenescido  pela  plstica.  Foram-se  as
olheiras e as plpebras de cachorro sonolento.  Em  seguida    leitura,
disse que precisava dar telefonemas e se fechou no  quarto.  A  pilantra
deve estar em territrio nacional.
        Nisso, chegou Nina, avisando que Srgio no viria porque viajara
atrs de trabalho, e que ela no iria se demorar porque ficaram  de  lhe
arranjar emprego como recepcionista. Teria que voltar  para  aguardar  o
telefonema. Na certa, voltaria para dormir com mame; nao  iria  encarar
alma penada sozinha. Nesse instante,  o  telefone  tocou  e  Jos  Jlio
avisou que no viria, devia estar s voltas com Aurora, sabe-se  l  por
onde andava  ou  corria.  Ao  terminar  o  almoo,  Hermano  voltou  aos
telefonemas; nos  entreolhamos.  Levantando-se,  mame  disse  que  iria
devolver o aparelho de dona Idalina, que tam
80

bm esperava visitas. Depois de virar outros  copos  de  cerveja,  Dad,
olhos cheios d'gua, contou que o nico  interesse  de  Hermano  era  em
Rubia, estava encantado com ela. Mal parava em casa...  Voltando,  mame
perguntou por que Dad chorava, e Nina disse que era estresse da viagem.
E eu falei que Dad estava sendo corneada, no momento, na nossa  prpria
casa. Mame disse que no sabia a  quem  eu  puxara,  devia  ser    av
paterna espanhola, que tinha esse sangue descontrolado nas veias; que eu
estava sempre a  um  passo  do  exagero,  do  destempero,  da  exploso,
enquanto minhas irms sofriam dignamente, choravam tranqilamente.  Quer
dizer, escutou sem o aparelho, ou no o devolveu?
        Nesse instante, Nina disse que estava pensando em entrar para  o
convento. Mame, j sem o aparelho,  cara  apatetada,  brincava  com  os
dedos no colo. Parece que o mdico tambm recomendou atividade frentica
de dedos. Sugeri que fosse apanhar o aparelho de volta. Foi o que fez.
        - E a, Nina? perguntou Dad.
        Nina disse que esperaria mame voltar  Instantes  depois,  mame
entrou com as mos no ouvido, tentando acertar o aparelho.
        - As celas das  monjas  -  continuou  Nina  -  so  individuais,
possuem apenas uma esteira sobre um estrado de  madeira  e  uma  pequena
mesa. A saboneteira  Uma casca de coco, e a nica veste  pendurada num
cabide da parede. Deixam o claustro apenas para consultas mdicas, votar
ou ver o papa.

81

        - No tenho nada contra Nina virar monja, o importante  que ela
esteja numa busca espiritual... disse mame.
        Enquanto conversavam idiotices, eu pensava que seu  Evaristo  me
esperava pregado no "carto-postal" da cidade. Senti meu corpo  em  fuga
vrias vezes, mas eu dizia "quieto"; e ele sossegava.
        Algum tempo se passou, mame num quarto, Hermano  em  outro  (no
meu), quando escutamos:
        - Checho! As meninas esto todas aqui! Por que vo-  c  no  vai
tambm para a sala?
        Mame voltou a aparecer. revistinha na mo,  dizendo  que  papai
estava por perto, e, por razo desconhecida, em  silncio.  Em  seguida,
perguntou:
        - Alguma de vocs pode me dizer o que  cavalo com pouca  chance
de ganhar um preo, e est escrito (bras.). - Passou a revistinha sob os
nossos olhos.
        - Azaro! gritou Lili do quarto.
        Ps-grito, ouviu-se a campainha. Ricardo, o crioulinho  que  meu
tio acha que  seu filho. Cumprimentando-o, mame disse que s  faltavam
ele e os netos para que a famlia estivesse  completa.  Srgio  inexiste
para mame, Jos Jlio ento... Assim que Lili viu Ricardo,  seus  olhos
se encheram d'gua: ele apontou na nossa direo e nos apresentou:
        - Sua famlia, Ricardinho!
        A essa altura, eu j desistira de ir   casa  de  seu  Evaristo,
apesar de meu  corpo,  volta  e  meia,  querer  afundar  na  enseada  de
Botafogo.

        82

        Ricardo e Lili encontravam-se sentados lado a lado en  silncio.
Mame contou que assim faziam, todas as vezes, no trocavam uma palavra,
era uma admirao mtua e recproca, acrescentou (as  palavras  cruzadas
faziam efeito). Passada meia hora, ou hora e meia, dependendo  do  tempo
de que dispunha, Ricardo ia embora e deixava, de novo,  Lili  com  olhos
cheios d'gua. Nesse momento, Lili comeou a sacudir a cabea sem parar.
        - O que h com Lili? perguntou Dad.
        - Irritado com o zumbido das cigarras respondeu mame.
        Ricardinho levantou-se instantaneamente, foi at a  janela,  fez
ch e voltou em seguida para perto de Lili.
        Hermano apareceu na sala, sorridente, dizendo que resolvera  boa
parte dos negcios com alguns telefonemas.
        - Vamos, dona Dad deve estar cansada... - (Chamando minha  irm
assim?...)
        Nessa hora, resolvi me despedir e encarar outra  famlia,  a  de
Jos Jlio.





83





8

        Havamos  acabado  de  instalar  a  secretria.  Quando  peguei,
piscava. Pensei muito em  Aurora  antes  de  comprar  esse  aparelho;  o
inferno podia se ampliar. Bem, um recado: mame. J? Dizia  que  estavam
no hospital, Wilma no agentara o almoo, tinha sido demais para ela.
        Poucos agentariam. Desejei melhoras, mas, como ela  sabia,  no
dava para contar comigo. Desligou na minha cara. Odeio  quando  ela  faz
isso!
        Ningum em casa, Jos Jlio, Aurora e Bianca deviam estar juntos
e felizes. O apartamento de cima  no  mais  completo  silncio.  Fui  me
deitar, descansar um pouco de famlia,  sempre  que  estou  com  eles  o
estresse  garantido. Instantes depois, em que  os  pensamentos  vagavam
desnorteados,  me  lembrei  do  que   Nina    dissera:    recepcionista.
Recepcionista!? Dei um pulo  da  cama  e  liguei  para  a  sua  casa.  A
secretria atendeu, deixei recado, dizendo que precisava  falar  urgente
com ela.  Passado  algum  tempo,  meia  hora  talvez,  tornei  a  ligar,
secretria de novo, voltei a repetir  o  recado.  Merda!  Onde  Nina  se
leteu? No disse que iria para casa  esperar  telefonema?  Passado  mais
tempo ainda em que achei que Jos Jlio amanheceria vendo Aurora  emitir
seus raios, voltei a ligar para a casa de Nina, e quando ouvi de novo  a
secretria quase quebro o aparelho. Puta que pariu!

85

        Jos Jlio abriu  a  porta  de  casa  perguntando  com  quem  eu
brigava. Eu disse que achava legal ele se mudar de novo para a  casa  de
sua mulher. Ele perguntou se eu queria saber  o  que  tinha  acontecido,
respondi que, se fosse mais desgraa, me poupasse. Vem  c,  chuchu,  eu
estava com tanta saudade, falou, tentando me abraar, e  eu  avisei  que
precisvamos conversar. Depois do banho, estaria a  postos,  seria  todo
ouvidos, disse, seguindo para o banheiro.
        - Para trabalhar no Meio do Cu,  preciso primeiro que se dispa
para ver as estrelas...
        A voz de seu Evaristo! O canalha vai trepar com  minha  irm  em
cima do nosso quarto!? Senti que comearia a gritar, quando de novo ouvi
sua voz:
        - Incline-se mais,  para  ter  uma  viso  completa  da  abbada
celeste...
        Tentei sair do quarto, mas no conseguia. Andava de um lado para
o outro, desesperada, quando Jos Jlio  comeou  a  cantar  debaixo  do
chuveiro, quase gritei para que ele parasse quando sua voz  entremeou  a
de Nina:
        - Faz, faz, assim... mais...
        Devasso, Corruptor, Delinqente. Jos  Jlio  entrou  no  quarto
enxugando os cabelos na toalha e sacudindo a cabea e perguntando o  que
havia comigo, enquanto eu escutava Nina gemendo. Piscando para mim,  ele
comentou que a coisa l em cima  estava  animada.  Depois,  insistiu  em
saber por que eu estava agitada daquele jeito, e  a  resposta  na  minha
lngua de ponta afiada secou.
        - O que foi, meu bem?... insistia.

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        Pedi que sassemos do quarto, queria conversar em  outro  lugar,
se  que eu teria condies de falar alguma coisa.
        Fomos para a sala. Tive mpetos de abrir a porta  da  entrada  e
correr at o apartamento de seu Evaristo e socar a porta,  mas,  em  vez
disso, me sentei no sof, enquanto ouvia na calada da noite Nina gritar,
ento disse a Jos Jlio que eu queria falar sobre sexo.
        - Sexo?
        - , sexo.
        Ele ficou srio, subitamente.
        - Eu no tenho tido prazer com voc,  isso... assim comecei.
        -  mesmo??...
        - Voc  muito desregulado, afobado, faz tudo na correria...
        - Teso, chuchu...
        Ele continuava srio, me olhando, prossegui:
        - Acha por um acaso que vou sumir da sua frente!?...
        - Vamos resolver isso agora. Agorinha mesmo. - Pulou em cima  de
mim.
        Apesar de tentar se controlar, em poucos minutos Jos  Jlio  se
desmilingia. Ao terminar, perguntou como tinha sido pra mim. Melhor  um
pouco, menti, e fomos para o quarto, o silncio reinava  no  apartamento
de seu Evaristo. Quando  Jos  Jlio  dormiu,  ca  num  choro  raivoso,
convulso e profundo.

Acordei com o telefone tocando. Nina. O dio borbulhou na minha garganta
ao ouvir sua voz. Perguntei

87

o que tinha acontecido, e ela contou que Srgio voltara de  surpresa,  e
como fora contratado, depois  de  tanto  tempo  sem  conseguir  emprego,
resolveram comemorar Num motel. No tinha sido ela  a  transar  com  seu
Evaristo!? Fiquei em silncio, enquanto ela dizia que nada  como  variar
de lugar. Nina estaria mentindo? muito disfarada, mame diz que de ns
trs  a mais sexualizada. No  sei  de  onde  tirou  isso...  Antes  de
desligar, Nina perguntou o que eu queria de to  urgente.  Perguntei  se
sabia que Wilma tinha ido parar no hospital. Ela  disse  que  sim,  cedo
mame ligara para ela. - Era isso?
        Era, respondi,  e  ficamos  em  silncio,  ento  eu  disse  que
precisava desligar.

        Ao sair, me beijando, Jos Jlio disse que  quando  eu  quisesse
saber por que se atrasara na vspera, ele contaria.
        Tomei caf, me arrumei e subi o lance de  escada  em  direo  
casa de seu Evaristo.
        - Que prazer em v-la, dona Gilda!
        Assim, ele abriu a porta. Sem me convidar sequer para sentar, me
entregou o envelope pedindo que o conferisse. Tanto  tempo  se  passara,
que poderia haver algum engano. Eu  disse  que  no  havia  necessidade.
Continuamos por segundos em p, no centro  da  sala,  e  ele,  sorrindo,
comunicou que estava atrasado, mas, como dissera, tinha sido  um  prazer
me rever e, principalmente, acertar as contas comigo.

88

O telefone voltou a tocar: Dad. Me convidando para almoar fora. O  que
ser que queria? Gastar comigo? Muito estranho...
        Encontrei Dad com olhos midos, tinha chorado  ou  as  lgrimas
estavam por vir? Queria me contar a sua noite, ser que foi pior do  que
a minha? Disse que precisava da minha  opinio,  eu  era  tarimbada  com
homens. Ri. (O Riso.) Bem, continuou, queria contar que, quando chegaram
ao hotel, Hermano disse que esquecera  de  comprar  cigarros,  virou  as
costas dizendo que j voltava. No p que  entrou,  saiu.  Ela  passou  a
noite assistindo  televiso, quase sem som, para que pudesse escutar  o
elevador trazendo Hermano. O dia clareava quando ele voltou; ela  fingiu
dormir, mas foi difcil, porque teve que suportar o  cheiro  de  perfume
que o corpo dele exalava.
        Nesse instante, descontrolou-se. Batendo  com  as  mos  uma  na
outra, rangendo os dentes, disse que estava com vontade  de  quebrar  os
copos e pratos  sua frente.
        - Depois vamos ter que pagar avisei.
        Sossegou; falou em dinheiro, ela presta ateno. Perguntei ento
por que no se separava de Hermano. Ela disse que o amava e  temia  pelo
que perderia. Comeou a chorar, dizendo que  naquela  manh,  assim  que
acordou, Hermano perguntou se ela no iria ver a  me;  sentiu  que  ele
queria se livrar de sua presena. Almoamos em silncio e Dad, vez  por
outra, deixava cair lgrimas no prato. Minha irm, uma ruindade  que  se
desmantelava.
        Despedimonos, ela me agradecendo, e dizendo que teria que voltar
para o hotel. Mesmo sem saber se encontraria Hermano.

89

        Cheguei em casa, e, como sempre, Jos Jlio  no  estava,  devia
estar ocupado com sua famlia, e o telefone voltou  a  tocar  Novamente.
Dad, para me dizer que encontrara um bilhete  de  Hermano  dizendo  que
fora mostrar o Po de Acar a estrangeiros de passagem pelo Rio, no  a
convidara porque l ela j estivera vrias vezes. Reles  Grosseiro  Vil.
Tinha ido levar a moa para passear de bondinho,  claro.  Disse  a  Dad
que, por mim, eles podiam despencar do alto do  morro.  Ela  ensaiou  um
riso do outro lado e voltou a me agradecer, dizendo que achava  que  no
nos veramos mais dessa vez, porque no dia seguinte iriam a  Salvador  e
de l seguiriam direto  para  a  Flrida.  Hermano  e  Rubia  certamente
rolariam nas dunas de Amaralina, enquanto  Dad  compraria  fitinhas  do
Bonfim. Poderia ter a idia de reservar uma para quando Hermano dormisse
fazer um torniquete no seu peru.

        Fui contar meus dlares que escondo dentro do  Pequeno  Prncipe
que Jos Jlio me deu, dizendo ter sido o primeiro  livro  que  lera  em
menino. Livro caindo aos pedaos, claro. Apesar de  sermos  apenas  dois
dentro de casa, fora a menina que quando aqui est no desgruda do  pai,
 sempre bom no deixar dinheiro dando sopa. De vez em quando  Lili  diz
essa gria antiga. O dinheiro estava acabando; sem trabalho e  gastando,
num instante eu estaria sem um tosto. Fora o que tenho  que  contribuir
na casa de mame... o alpiste de Arnaldinho.  O  que  Jos  Jlio  ganha
garante a comida e o aluguel, o resto

90

corre por minha conta, inclusive as guloseimas para  a  menina,  de  que
Jos Jlio faz questo. S come besteira, a criana. De repente,  msica
no ar: You're the top. Seu EvaristO estava por l, certamente  sabe  que
eu falo ingls. Quando fiz a ficha para trabalhar no Meio do  Cu,  essa
era uma das exigncias, dominar algum idioma. Falo ingls e, de  vez  em
quando, espanhol.  Enquanto  escutava  a  msica,  me  vi  vrias  vezes
fechando a porta de casa e subindo o lance de  escadas,  indo  bater  na
porta de seu Evaristo. Meu corpo fervilhava, convulsionado. Fui  para  a
sala tentar meditar, Nina havia me ensinado. Fiz posio de  ltus,  mas
no conseguia me acalmar. Ento, subitamente, comecei a tirar  a  roupa.
Estou  sempre  a  um  passo  do  strip-tease.  Fiquei  inteiramente  nua
caminhando pela casa.  Sensao  de  liberdade  desesperada;  ilhada  no
corpo. Nesse instante, Jos Jlio entrou com a menina; voei para  dentro
do quarto para me vestir, e ele estranhou  eu  estar  daquele  jeito,  e
quando perguntou, aleguei calor. Voltei  para  a  sala  e  tentei  puxar
conversa  com  a  menina,  que  obviamente  no  me  respondeu;  o  pai,
percebendo, disse que ela estava triste porque sua boneca tinha morrido.
- A boneca morreu?  cada coisa que escuto... Jos Jlio fez  shhh  para
mim, ou seja, que eu no continuasse o assunto. Pegando a caixa de lpis
de cor e o bloco, perguntou se a filha gostaria de  desenhar.  A  menina
disse que sim. Jos Jlio rriu para mim, enquanto se sentava  mesa  com
ela. Bem, sesso familiar. Jos Jlio desenha muito bem, tra
91

balhou como desenhista antes de se interessar  pelo  sebo.  Perguntou  a
Bianca o que ela queria que aparecesse no papel; a menina respondeu,  um
homem, grande, e ele comeou a fazer o que a filha pedira.
        - E agora?
        - Uma menina chorando.
        - Chorando?...
        Bianca balanou a cabea. E ele quis  saber  por  que  a  menina
chorava. Ela respondeu que tinha aparecido uma bruxa com chifres,  pegou
o homem, enrolou-o num pano e o levou embora.
        Chifres? Me levantei e fui para o quarto;  algum  tempo  depois,
Jos Jlio entrou, propondo lancharmos. Baixinho, perto do  meu  ouvido,
disse que, aos poucos, Bianca estava conseguindo realizar nossa unio, e
piscou o olho em seguida. Que vidinha de merda, que  merdinha  de  vida,
pensei, no disse, e fui para a sala pr a mesa. Perguntei a  Bianca  se
ela queria ovo frito:
        - S se o meu pai fizer...
        Jos Jlio passou por mim, frigideira em punho, dizendo  que  ia
estrelar um lindo ovo que brilharia na barriguinha de  Bianca.  Os  dois
sorriram. Tentei outra investida, perguntando se ela queria torrada, ela
disse que no precisava, o papai iria fazer.
        Desisti e fui comer minha gelatina, enquanto os dois conversavam
e brincavam na cozinha. Depois de comermos, Jos Jlio disse que levaria
Bianca de volta, Aurora se levantaria cedo na manh seguinte;  viajariam
para O Nordeste, casa de amigos. Voltaram a sair os dois, e eu

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voltei a tirar a roupa e a caminhar com o corpo numa quantidade infinita
de energia. Decidi fazer exerccios dentro de  casa.  Depois,  como  no
havia mais a fazer, continuava em curto-circuito, resolvi inventar.
        Tempos depois,  Jos  Jlio  voltou  e  perguntou  o  que  tinha
acontecido com o meu cabelo.
        Aafrei... - disse. E uma  preocupao  relmpago  passou  pelos
seus olhos, acho que pensou assistir a uma Aurora raiando...
        Em seguida, tentou contar a histria da  tal  boneca  que  tinha
morrido, mas eu disse que estava cansada e no dia seguinte  gostaria  de
ter uma conversa com ele, que me abraou dizendo  que  eu  jamais  podia
imaginar como ele me amava. Voltamos    nossa  gincana  sexual  rpida,
suada e aflita. Jos Jlio dormiu, e eu fiquei pensando na  deciso  que
havia tomado e que no dia seguinte iria comunicar.
        Acordei com um bilhete debaixo da minha xcara: "Chuchu, teremos
dez dias s para  ns,  voltarei  correndo  do  trabalho  para  os  seus
braos:" Tomei caf chorando, enxugando as lgrimas no  guardanapo.  Mas
havia tomado a deciso e no voltaria atrs. No fim do dia, quando  ouvi
o pigarro de Jos Jlio subindo a escada (acho que ele fuma demais),  me
encontrava sentada esperando para  falar  tudo  que  havia  pensado  nas
ltimas semanas. Que, na verdade, era pouco. Ele me beijava, e dizia que
eu estava com cara sria, o que ser que tinha para dizer:
        - Fala logo, chuchu!
        - Eu quero me separar.

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        Nisso, a merda do telefone tocou. Por que no desliguei a meleca
dessa joa? Jos Jlio falava com a filha no telefone, aos berros,  como
se a menina  estivesse  no  Polo  rtico.  E  ai,  tome  revezamento  no
aparelho, Aurora, Bianca, Bianca, Aurora. Eu  sabia  quando  era  Aurora
porque ele pedia que passasse o telefone para a menina. A ligao  durou
tanto tempo, que eu comecei a me distrair com meu  dedo  do  p,  minhas
unhas estavam horrveis, fui buscar o alicate e fiquei tirando cutcula,
quando de novo vi Jos Jlio  minha frente; a essa altura, recuperar  o
clima perdido foi to difcil, que acabei arrancando um bife.
        -  por causa de Bianca... de Aurora? - perguntou, com meu p em
seu colo, sangrando, assoprando-o.
        Puxei meu p de volta.
        - No, Jos Jlio, claro que no, elas so  chatas,  mas  no  
isso... j conversamos sobre nossos corpos que no se encontram na  cama
e nem em nenhum outro lugar.
        Pouco  a  pouco,  um  circulo  vermelho  debruava  seus    olhos
castanhos.
        - No pense que eu no estou sofrendo,  mas  foi  um  azar  esse
nosso desencontro, e a cada dia eu fico  mais  desbaratada,  perturbada,
destampada.
        - Voc no quer pensar mais?
        Abracei-o.
        - No consigo. Amo tudo em voc, Jos  Jlio:  orelhas,  cabelo,
sua boca linda, seu cheiro, o calor de suas mos, te amo  com  todos  os
meus coraes... - Estvamos de mos dadas.

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Tambm ele me abraou e comeou a chorar, instantaneamente  as  lgrimas
escorreram pelo meu rosto; ento ele pediu que eu  ficasse  mais  alguns
dias. Beijvamos nossas caras molhadas, quando a campainha tocou  e  ele
dependurou-se na janela; voltando-se para mim, disse que era  o  medidor
da luz. Luz.





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9


        Voltei para a casa de mame, e ela disse que  sabia,  sabia  que
aquilo no daria certo. Sujeito comprometido,  mulher  adoentada,  filha
pequena, vendedor de livros, no sabia onde eu estava com  a  cabea.  O
pior                            era                                ouvir
 essas coisas... Ela continuou, dizendo  que  esperava  que,  dali  para
diante, eu arrumasse algum decente; nesse instante, pulei  da  cadeira,
dizendo que era justamente do contrrio que eu precisava.  Levantando-se
mame disse que no apreciara em nada o comentrio. Voltou pouco  depois
para perguntar sobre as minhas coisas que haviam ficado no  apartamento.
Respondi que ela no ia querer que eu deixasse a casa depenada... -  No
? Pronunciando o nome de So Judas Tadeu,  voltou  a  se  afastar.  Por
falar nisso, Jos Jlio tinha ficado de me devolver o telefone; acho que
queria um pouco de descanso de Aurora.  Logo  depois,  mame  reapareceu
para contar que mandara  fazer  o  aparelho  de  surdez.  Finalmente,  o
nefasto cidado chegara  concluso  de  que  ela  escutava  nada!  Lili
apareceu e disse: "Voltou? Que bosta, hein!" Depois sorriu. E quando ele
sumiu, me joguei na poltrona  abri  o  berreiro.  At  a  vizinha,  dona
Idalina, veio ver o que estava acontecendo. Eu no  conseguia  parar  de
chorar, soluava, com a camiseta j toda molhada e amarfa
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nhada, enquanto mame rezava, invocando o nome de papai, dizendo que no
sabia onde ele se metera. Porque no  respondia,  e  Wilma,  aparecendo,
disse que eu estava com a criana  de  frente.  S  parei  quando  Lili,
diante de mim, disse:
        -Vai passar.
        Mais tarde, mame  bateu    porta  do  quarto  e,  abrin-  do-a
devagarinho,  disse  que  esperava  que  eu  estivesse   melhor,    mais
controlada; aproveitou e perguntou se eu estava procurando trabalho.
        - Agora estou no meio do inferno! gritei, e emborquei a cara  no
travesseiro. Depois, abri  ligeiramente  um  olho  e  a  vi  saindo,  se
benzendo.
        No me d uma folga!...
        Durante essa semana, de vez em quando  eu  ia    casa  de  Jos
Jlio, me abraava com ele, chorava, e depois  ia  embora.  Numa  dessas
vezes, encontrei  seu  Evaristo  no  corredor;  ele  parou  ao  me  ver,
perguntando se eu havia me separado. Respondi que sim, e ele  falou  que
tambm estava saindo do Jardim Botnico.
        - Muito silncio para nada!
        E... (custei a  entender:  srdido!).  Me  despedi  cortesmente.
Tenho aprendido expresses antigas. Descobri uma frmula de Lili  falar.
Assim: Diz uma palavra, Lili, um, dois,  trs...  E  ele  fala.  Fala  e
depois sorri. Voltando a seu Evaristo, nos despedimos polidamente (outra
palavra nova para o meu vocabulrio), e  ele  me  desejando  boa  sorte,
subiu os primeiros degraus da escada. Tive muita vontade de perguntar se
ainda havia trabalho para mim no Meio do Cu. Achei melhor no.

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        No dia seguinte, resolvi fazer  uma  visita  aos  meus  colegas.
Apareci no escritrio. Assim que me viram, fizeram a maior festa. Mas  a
verdade  que, na minha ex-mesa havia uma nova recepcionista,  Patrcia,
Susie me apresentou; a moa, magra,  fina,  branca,  abatida,  fingiu-se
atarefada e no me deu a menor ateno, apesar de Susie  ter  dito  que,
antes dela, era eu a recepcionista.
        -  Voc  viu  que  estou  em  silncio?  -  perguntou  Roddy,  e
continuou: - Treinando para falar  menos.  S  que  assim  engulo  muita
saliva.
        Rimos, menos a tal Patrcia. Quando eu ia saindo,  seu  Evaristo
chegava, e me punprimentando, comentou:
        - A senhora por aqui, dona Gilda... venha tomar um cafezinho  no
meu gabinete.
        Entrei, e  o  encontrei  diferente,  distante,  lacnico  (outra
palavra de Lili). Tomei coragem e perguntei se ainda havia trabalho para
mim. Ele  respondeu  que  os  cargos  estavam  ocupados,  mas  em  breve
acreditava que sim, uma funcionria se encontrava demissionria, j dera
o aviso prvio. Perguntei se era a recepcionista.
        - Patrcia? No... de forma alguma...
        Quando eu ia  saindo,  seu  Evaristo  disse  que,  assim  que  a
oportunidade se  apresentasse,  entrariam  em  contato  comigo,  e  que,
independentemente  disso,  gostaria  de  me  convidar  para  jantar   na
sexta-feira prxima, caso no tivesse compromisso.
        Precisei conter meu corpo que queria sair aos saltos no Meio  do
Cu.

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        Mame comentou que nem bem eu me separava e j ia sair com outro
homem, eles no gostam de mulheres fceis, disse. Mi pobre mam.
        Caprichei, pus meu vestido laranja-papaya, curto,  transparente,
e esvoaante. Gosto de me sentir assim:  despojada  e  sensual.  Escovei
tanto os cabelos com os dedos, que quase tiro  as  impresses  digitais.
Pus gargantilha no pescoo e pulseira no tornozelo.  Borrifei  o  melhor
perfume no corpo e sa pelas ruas ouvindo  assobios,  elogios,  freadas,
enquanto, clere, caminhava at alcanar um  txi  que  me  deixaria  no
local combinado.
        Todos os olhares refluram na minha direo quando eu atravessei
o interior do restaurante. Ao me  ver,  seu  Evaristo,  olhando  para  o
garom, murmurou: "Magnfica."
        -  Ento,  dona  Gilda,  o  casamento  da  senhora  teve   curta
durao?... perguntou, assim que o garom desapareceu magicamente.
        - , mas eu ainda gosto dele.
        Ao acabar de pronunciar a frase, achei que no devia diz-la.
        - Quem sabe voltam?
        Movimentei as sobrancelhas, melhor do que falar.
        - Em qual aspecto a senhora diria que seu casamento falhou?
        - Prefiro no responder.
        - Est respondida, sorriu ao dizer, e  tilintando  uma  taa  na
outra chamou o garom.
        Os dois comentavam a carta de  vinhos,  enquanto  eu  olhava  ao
redor Reparei em seu Evaristo; tambm ele

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caprichara na vestimenta, alm de ter passado  alguma  coisa  no  cabelo
para que eles ficassem com aparncia molhada, o que o rejuvenescia. Numa
das mesas prximas, um  casal,  ele,  de  frente  para  mim,  me  olhava
seguidamente. Eu sentia meu  corpo  transtornado,  alvoroado,  abafado.
Acho que seu Evaristo tambm percebeu, tanto que disse que eu  estava  a
prpria oferta da natureza, sua mais exuberante expresso.  medida  que
ele                                                               falava
 e me observava, eu sentia que meus seios em desespero eram  capazes  de
explodir o vestido. Ento me vi na cama, e seu  Evaristo  com  o  mastro
sempre desfraldado a me perfurar com estardalhao.
        - Desculpe, dona Gilda, mas achei a senhora distant de  repente,
estou enganado?
        - No, respondi, com vontade de dizer que seu dardo me perfurava
em todos os sentidos.
        - Queria lhe dizer que a convidei para jantar na noite  de  hoje
para participar  que  estou  saindo  com  outra  pessoa...  -  Quase  me
levantei, jogando a cadeira pra trs,  indo  embora.  Ele  continuou:  Estou lhe revelando isso para que entenda algo que, da primeira vez  que
conversamos, lhe fiz notar. A morte, dona Gilda,  a rainha que  governa
a todos ns. A senhora combina pulsao a  uma  impressionante  pujana,
interfere com meu prazer. J tive a oportunidade de lhe dizer  o  quanto
me encantam corpos sem movimentos, aspirantes da beleza eterna, imveis,
quase  sem  que  se  perceba  ali  a  turbulncia  vital,  mas  sim    o
apaziguamento de anseios.
        Voltara a macabra conversa.
        O garom trouxe os pratos.

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        - Um festim ao paladar,  no    mesmo,  dona  Gilda?  -  disse,
observando a comida.
        Minha cara certamente era outra, a impresso que  eu  tinha  era
que os seios murcharam, o cabelo desabara, e a maquiagem evaporara, isso
sem falar no estmago, que se fora. Ento, como se  ainda  no  fosse  o
suficiente, seu Evaristo disse que estava compromissado com Patrcia,  a
moa com ar doentio que agora era a recepcionista  do  escritrio.  Como
no consegui chegar perto  da  comida,  seu  Evaristo  perguntou  se  eu
desejava outro prato, e eu tive vontade de dizer, gritar,  que  desejava
um homem, um homem bsico - seria to dificil encontrar?
        Para dizer que nada comi, engoli azeitonas e pedi chope,  que  o
garom disse que no tinha, ento tomei cerveja,  ouvindo  seu  Evaristo
comentar que era quase um crime desprezar o Chteau-Laffitte.
        Pouco depois, ele me deixou em casa sem me tocar; minto, segurou
a ponta do meu cotovelo quando descemos os degraus do restaurante.
        Em casa, encontrei mame com olhos perscrutadores (Lili), abanei
a mo e no emiti um som.
        Antes de retirar a roupa em frente ao espelho, me  vi  desfeita,
beirava os vinte e sete, e nem  uma  nica  vez  tivera  prazer  sexual,
estava mal... Deitei pensando em me masturbar, mas em todas as vezes  me
cansara mortalmente... De repente, vi  a  porta  se  abrir  devagarinho;
mame, perguntando o que tinha acontecido. Mandei que fosse ver se eu me
encontrava na gaiola de Arnaldinho. Aos berros, claro.

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        No dia seguinte, resolvi me abrir  com  Nina.  J  que  Dad  se
confidenciara comigo, faria o mesmo com Nina. Aproveitei que o  aparelho
de mame ainda no tinha sido instalado e contei tudo a respeito do  meu
casamento. Nina no se surpreendeu. Disse que talvez eu no tivesse dado
tempo, s vezes as coisas demoram. Com  ela,  acontecera  muito  depois.
Contou que s alcanara as nuvens (alcanara as nuvens) ao  se  imaginar
menina nos braos de Srgio. E todas as vezes era assim. Ela ia  ficando
cada vez menor, ento, ascendia aos cus. Comigo  seria  dificil,  daqui
que me imaginasse pequena, tudo j tinha se acabado rapidamente. Nina  
muito menor do que eu, deve ter um  distrbio  qualquer;  no  seu  caso,
facilitador.
        Bem, apesar de ter sido sincera, de nada adiantou a conversa com
Nina.

        Fui  casa de Jos Jlio, que, quando  me  viu,  pensou  que  eu
tivesse voltado. Mas eu j estivera l outras vezes e a  idia  no  lhe
ocorrera. Que se pas? Nos abraamos, olhos cheios d'gua, como  sempre,
ento eu disse a ele que gostaria de fazer amor. Jos  Jlio  disse  que
podia ser pior, tentava me esquecer, ento pedi, implorei:
        - Uma vez s, por favor!
        Eu mendigava amor, mas, na verdade, queria fazer  a  experincia
de Nina. Ele hesitou, mas eu disse que era muito importante. Ento,  ele
perguntou se no  tinha  sido  exatamente  por  isso  que  eu  havia  me
separado. Concordei, mas disse que no custava tentarmos uma  vez  mais.
Nesse instante, o telefone tocou, e pelo que

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pude perceber, era Aurora, oh, Aurora (na casa  de  Jos  Jlio,  nem  
preciso o telefone tocar, basta tir-lo do gancho que se ouve a  voz  de
Aurora), no estava bem, como sempre. Quem sabe no fora por isso no se
ressentira da pressa de Jos Jlio? Sabe-se l? Fiquei pensando enquanto
ele tentava dissuadir Aurora de se mudar para La Paz (La Paz?). Por  que
La Paz, perguntei baixinho, e Jos Jlio, tapando  o  bocal,  disse  que
ficava mais perto das estrelas,  e  levantou  as  sobrancelhas.    cada
coisa... Quando largou o aparelho, eu disse,  vem,  meu  bem,  vem...  E
tirei a roupa, e Jos Jlio disse que nunca mulher alguma  possuiria  um
corpo semelhante ao meu. E  eu  tinha  que  aproveitar,  porque  ele  se
animara, e, ento, tentei me sentir pequena, fechei os  olhos,  forando
me ver diminuta, enquanto ele explorava meu corpo afogueado, e, cus, eu
no diminua nem um tiquito, e Jos Jlio j muito  entusiasmado,  e  eu
dizia, espera, meu bem, enquanto me lembrava de crianas, o tamanho  das
crianas, quem sabe eu alcanaria, espera, meu  bem,  eu  dizia,  e  ele
afobado penetrou em mim,  murmurando,  chuchu,  voc    a  mulher  mais
gostosa que j vi, e, em segundos, tombou imvel sobre o meu corpo.
        Merda! Essa histria s serve mesmo para Nina, que  diminui  num
instante, de pequena que . Me levantei como tinha chegado,  alvoroada,
inquieta, desesperada. Mas disse "obrigada, meu bem". Quando  sa,  Jos
Jlio disse que certamente isso tinha feito mal a ns dois. Certo. Todos
certos, e eu profundamente errada e desesperada.

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fui embora com uma sensao danada. De que servia o corpo  todo  que  eu
tinha? O pior, chegar em casa e encontrar mame. Ela semre quer saber  o
que  houve  comigo.  Nada.  Nada  acontece  no  meu  panorama  corporal,
corporal, sensual, sexual.

Dias depois, esperava onibus, quando vi Jos Jlio e  Bianca  do  outro
lado da rua. Acenei, e a menina, assim e me viu    distncia,  virou  a
cara. Devo ter causado pssima impresso a essa garota.






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10


No final do ms, j me encontrava no Meio do Cu. Mame ficou  na  maior
alegria porque voltei ao trabalho.
        - L todos so to bons com  voc...  -  comentou.  Na  verdade,
estava satisfeita porque o  dinheiro  entraria  de  novo;  gaiola  cheia
dentro de casa.
        A exceo de Patrcia, que  se  mostrava  muito  ocupada  quando
entrei  no  escritrio,  todos  festejaram  a  minha  chegada.  A   moa
encontrava-se ainda mais abatida do que na primeira vez em que  a  vira,
seu Evaristo devia estar vibrando... Enfim, no  problema meu. Os  meus
so: trabalho, que graas a Deus recuperei,  sair  de  vez  da  casa  de
mame, quem sabe um dia... e  um  namorado.  No  necessariamente  nessa
ordem.
        Mal pus os ps no corredor atapetado, seu  Evaristo  pediu  que,
assim que eu pudesse, fosse  sua sala. Queria me  dar  as  boas-vindas,
como disse quando entrei, mas estava o mesmo  do  restaurante,  educado,
gentil e distante. Compromissado com a pr-defunta, Patrcia. No  tenho
nada a ver com quem est morto ou vai morrer, meu caso   rir,  brincar,
me alegrar. E foi num dia desses, depois do expediente, em que fui tomar
chope com Susie, que conheci o Rui. Estava com amigos, na mesa ao  lado.
Como ns, devia ter sado do servio e se divertiam. Rui puxou  conversa
comigo, olhei para ele, e era

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um moreno bonito, cabelos brilhantes, gestos largos  e  sorriso  aberto.
Mudamo-nos para a mesa deles, Susie e eu. Susie  no  sabe  beber,  logo
fica enjoada, olhos miudinhos, cara de passarinho depenado,  um  horror
quando entra nesse estado. Levantando-se e pedindo desculpas, disse  que
j ia, e falou baixo no meu ouvido que  o  assoalho  havia  algum  tempo
girava sob seus ps. Vai, Susie, vai, eu disse. Nisso,  os  rapazes  que
acompanhavam Rui tambm se despediram.  Quando  nos  vimos  a  ss,  ele
perguntou se eu tinha namorado. Respondi que no, e ele  estranhou.  No
iria contar os infortnios  passados,  comentei  apenas  que  sofrera  o
suficiente, e, para espanto meu, ele disse que tambm j dera sua cota:
        - Quem sabe a fase boa chegou,  e  justo  na  nossa  hora?...  disse, cheirando um punhado dos meus cabelos.
        Da para a mo foi um pulo. Ele observou detalhadamente a  palma
da minha mo, dizendo que me  encontrara  justamente  naquele  ponto,  e
apontou a linha da vida, onde ela engrena,  viu?,  disse.  S  tem  esse
probleminha aqui, mostrou, uma outra linha pequenina que interfere com a
principal. (Ser que tambm ele tinha uma  filhinha?)  Perguntei  o  que
via, ele disse que era, digamos uma interseo dificil, um entroncamento
de rotas. Esperei que explicasse porque falava muito bem, alm de eu ter
gostado do som de sua voz ribombando dentro de mim. Nesse  momento,  Rui
perguntou se podia tambm investigar o meu sorriso. Sorri mais  ainda  e
nos beijamos, beijamos, beijamos. Trs horas da manh e ainda

        108

no bar, linhas e lbios colados, resolvemos nos despedir.  Aguardamos  a
chegada de um txi tontos no meio da rua. Quando entrei no carro,  quase
esqueo o endereo; ainda morava com Jos Jlio?
       "Ya no ests mas a  mi  lado  corzon,  en  el  alma  solo  tengo
soledad..."  fiz  uma  zoeira  tal  entrando  em  casa,  que  acordei  o
passarinho. Deve ter ficado nervoso, porque piava  sem  parar,  enquanto
mame dizia que fazia muito tempo no me via to embriagada,  mal  podia
andar, qual teria sido a companhia, e eu no conseguia brigar porque no
localizava a entrada do quarto, fiquei um tempo em frente  parede, sem
saber que assim estava, em castigo de outrora, e ela, ao  lado,  falando
que eu tinha virado alcolatra, no tinha  mais  jeito,  acabaria  muito
mal, que futuro me  aguardava,  o  lodo,  o  lodo,  quando,  finalmente,
identifiquei a parede, berrei com mame, o canarinho piou forte na rea,
e ouvi Lili dizendo: passa.

Apesar da ressaca, acordei feliz da vida de ter encontrado o Rui.  Mesmo
sem esquecer meu amor por Jos Jlio, acho que finalmente acertara com o
namorado. Alegre, forte, potente, viril...  Mame  apareceu  no  quarto,
dizendo que jamais tinha pensado em me ver no estado em que eu  chegara.
Eu disse, esquece, e ela disse que eu  ia  ver  uma  coisa.  Que  coisa?
perguntei.  Detesto  que  me  ameacem.  Ela  disse  que  depois  do  meu
casamento, se  que aquilo podia ser considerado um casamento (soltou um
muxoxo), eu me convertera numa moa ati
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rada, assanhada. No ousou dizer depravada. Queria me informar, e era  o
que tinha a dizer, que me havia entregue  santa  das  causas  perdidas.
No encontrara outra soluo. E, para terminar, gostaria de lembrar que,
no filme Farrapo humano, o Ray Milland acaba na sarjeta.
        - J que voc est tendo tantas recordaes, gostaria tambm  de
lembrar que, para quem inexistiu at quatro meses de gravidez,  at  que
eu no estou me saindo to mal...
        E ela, olhos rasos d'gua (oh, novelas!), pediu que eu tivesse a
delicadeza de no evocar sofrimentos passados. Antes de se  afastar,  me
entregou uma carta de Dad, resolvi deixar para ler quando  chegasse  do
trabalho, no estava a fim de me aborrecer nem  tampouco  me  enraivecer
por causa de la Rubia.
        Depois do trabalho, encontraria o Rui,  e,  quem  sabe,  ele  me
convidaria para algo mais?
        Avisei a mame que chegaria tarde, e  ela  respondeu  que  tinha
certeza de que eu arranjara uma porcaria.
        Fui  me  arrumar,  apesar  de   mame    ter    rogado    praga,
impressionante, sempre esperando um final infeliz. Veio at a  porta  do
quarto s para me olhar de banda e sair. Pura provocao, depois diz que
no sou sua amiga, no quero seu bem, e por acaso ela quer o  meu?  Acho
que, com todo bem, mame me quer muito mal...
        J estava quase pronta, um  teso,  modstia    parte,  se  no
encantasse o Rui, no encantaria a ningum mais... Quando ia fechando  a
porta, mame perguntou se eu sairia sem me despedir. Voltei da porra  da
entrada e fui

        110

at seu quarto, e, depois de me olhar de alto a baixo, ela quis saber  o
que era"signo zodiacal regido por marte":
        - Aries! Alis... tudo o que eu preciso: um homem de fogo!
        Ela comentou que havia muito tempo me achava bastante agitada. E
enquanto continuava a falar do  meu  descontrole,  pensei  que  seria  a
primeira pergunta que faria ao Rui. Signo, por favor.  Mame  continuava
me olhando, revistinha na mo, e quando senti que viria outra  pergunta,
mandei que consultasse a parte de trs da revista; l, estavam todas  as
respostas. Ela disse que preferia perguntar. Me pentelhar, falei. E  ela
disse que eu andava falando muito palavro.
        - Pentelho  palavro?
        No respondeu. Faz essas coisas, provoca e depois emudece.
        No trabalho, Susie perguntou se eu queria ir  praia no final de
semana. Nem pensar. Mas j que estava to  minha  amiga,  eu  disse  que
queria lhe fazer uma pergunta, ntima, no  precisaria  responder,  caso
no quisesse. Pode falar, disse. Ento, perguntei como  ela  fazia  para
chegar ao orgasmo. No chegava, respondeu. S acontecera uma vez (sei ao
que se referia). Parece que o corpo  vai  explodir,  depois  se  sacode,
totalmente  descontrolado,  sabe  como  ?  Disse  que  no    precisava
continuar.
        - Nunca sentiu nem de perto?
        - Nem de longe - respondi, e me afastei.
        Com Susie, eu no chegaria a nada.

111

        Abri a carta de Dad. Nela, contava que Hermano chegara em  casa
em brasa, mais queimado impossvel. Os estrangeiros  quiseram  trabalhar
ao redor da piscina E Dad ainda passou pasta d'gua nas costas dele?...
Respondi em seguida. Irm: maldade  moda antiga, mande Hermano  e  essa
moa  puta que os pariu. J que estava respondendo a  Dad,  aproveitei
para lhe fazer a pergunta. A que havia feito a Susie.
        Dias depois, Dad respondeu que, para ser sincera, no  fazia  a
menor idia do que era  um  orgasmo  com  Hermano;  de  vez  em  quando,
costumava usar o chuveirinho do  bid.  O  corpo  saltitava  durante  um
tempo, depois passava. Mas, pelo amor de Deus, que  eu  no  contasse  a
ningum.
        Quer dizer, eu no era a nica infeliz da famlia.
        Quando tentei puxar o assunto com mame,  ela  disse  que  eu  a
respeitasse, no queria saber dessas nojeiras. Nojeiras...
        Pelo visto, apenas Nina se safou, assim  mesmo,  se  diminuindo.
Que bosta.
        De repente, me lembrei de duas pessoas; como tinha me  esquecido
de Wilma (no h de passar mal por isso... espero) e dona Idalina?
        Resolvi comear com a vizinha. Bati  sua porta; pedindo que ela
no estranhasse a pergunta, porque se tratava de uma pesquisa,  gostaria
de saber se ela tivera (no seu caso tive que usar o  verbo  no  passado)
orgasmo.
        - Hein?
        Perguntei se estava de aparelho, ela respondeu que sim, mas  que
podia estar mal colocado, e ficou acer
112

tando-o enquanto eu aguardava. A operao levou alguns segundos e vrios
sorrisos, quando, finalmente, tirando as mos da  orelha,  perguntou  de
que se tratava a pesquisa.
        Comecei tudo de novo; quando acabei, ela disse que  no  saberia
responder, porque uns diziam uma coisa, outros, outra, ento ela  ficava
sem saber se tivera  ou  no.  Agradeci,  e  deixei-a  na  porta,  olhos
arregalados e espichados na minha direo.
        Quanto a Wilma, esperei mame dormir, porque tive a tristeza  de
saber por Nina que mame tinha dito que eu fazia mal  empregada. Como!?
Passo os dias na rua...  Entrei  mansa  na  cozinha;  Wilma  acabava  de
enxugar os talheres e atir-los na gaveta,  com  o  esporro  de  sempre.
Comecei a xaropada de novo. Quando terminei, ela disse:
        - Sei nada disso no.
        Quer dizer, dois depoimentos  nulos,  de  nada  serviram.  Minha
ignorncia pode ter conseqncias incalculveis...

        Bem, a esperana estava  prestes  a  ser  alcanada.  Depois  do
trabalho, me encontraria com o Rui no mesmo bar em que  nos  conhecemos.
Durante o expediente, comentaram o meu bom humor Assim que se aproximava
o final do horrio, fui ao banheiro dar uma retocada geral.
        Senoras e Senores, aqui me voy a encuentrar al  Rui...  mas  que
nome curto e gostoso de pronunciar, ui!, quase

113

dei de cara num tapume em plena  esquina,  que  l  ficou  aguardando  o
prximo transeunte.
        Quando o Rui me viu, me abraou to forte e durante tanto tempo,
que pareciamos namorados de longa data. Excelente recepo. Nessa  hora,
lembrei de perguntar seu signo, e  ele  disse  que  era  o  sofredor  do
zodaco. Quem? Com o tempo, eu adivinharia; ele sorriu, beijando a ponta
dos meus dedos. Uno a uno... Bem, comeamos o vira-vira dos chopes,  at
que, em um dado momento, o pingente do meu brinco se enlaou na pulseira
do relgio dele. No sei como aconteceu... Ento,  ele  sugeriu  que  eu
encostasse a cabea na mesa enquan- to tentava o desengate.  A  operao
demorou, em funo dos chopes ingeridos sofregamente; o lbulo da orelha
doa, e o Rui, disfaradamente,  sorria.  As  pessoas  olhavam  a  cena,
algumas  sorriam,  e  eu  feito  imbecil  arriada  numa  mesa  de   bar,
acompanhando de banda o  movimento.  Quando  finalmente  conseguiu,  Rui
disse que queria ficar  vontade  comigo.  Apesar  da  bochecha  fria  e
melada, ainda pensei: uau. Samos s pressas e nos enfiamos no  primeiro
motel que encontramos na cidade. Assim que entramos no quarto, ele pediu
cervejas pelo telefone. Ao ficarmos  nus,  nos  agarramos  aflitos,  nos
beijando, embolando de um lado ao outro, numa luta  apaixonada,  suando,
rolando pela cama, quando, subitamente, esquecendo-se de mim, ele entrou
numa espcie de  briga  amorosa  com  seu  peru.  Segurava-O,  puxava-o,
dizendo, calma, calma, est quase (se dirigia ao membro  ou  a  mim?)...
quando senti algo mole e frio esfregado na minha xoxota.  Suspendendo  a
movimen
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tao, e coando a cabea, Rui disse que teramos que aguardar um pouco.
        - Quer tomar uma cervejinha? - perguntou, virando-se para mim.
        Sentamos na cama, desgrenhados,  afogueados,  manchas  vermelhas
espalhadas pelo corpo, e brindamos; no  sei  a  qu.  Depois  de  muita
cerveja, Rui comeou a falar de um amor que  tivera  e  que  achava  que
destrura sua vida.
        - Ela roubou meu passado - disse, emocionado.
        Roubou seu passado!? No entendi, mas abracei-o e,  feito  Lili,
disse: passa.
        Mas, convenhamos, no dou sorte.

        Durante a semana seguinte, voltei ao meu posto de recepcionista.
A moa adoecera, eu j a achava muito mal,  mas  parece  que  dessa  vez
contrara  uma  pneumonia.  Seu  Evaristo  devia  estar    completamente
apaixonado.
        Nesse final de dia, em que depois me encontraria com o Rui,  fui
 sala de seu Evaristo entregar os  ltimos  contratos  que  acabara  de
digitar. Nesse instante, aquela espcie de desmaio que vez por outra  me
acomete me surpreendeu. A sala girou, ainda  cheguei  a  escutar  a  voz
dele, e senti seus braos me amparando; acordei recostada no sof, blusa
aberta, sem suti, e ele dizendo que eu tinha  passado  mal  mas  estava
divina, to plida e bela, um verdadeiro  ser  celestial.  Me  levantei,
seios   mostra,  sacolej  antes,  e  ele  perguntava  sobre  o  que  me
acometera, tentando me ajudar a pr o suti, mas eu me  afastei  e  meus
peitos enormes, rebeldes, custaram a se encaixar

115

nas taas. Sa confusa do seu gabinete, trpega,  e  fui  acabar  de  me
ajeitar no banheiro.

        Aps o sinistro episdio, me encontraria com o Rui. Era o  nosso
quarto encontro, e at aquele dia,    exceo  de  beijos,  aflies  e
abraos, no acontecera nada.  Rui  era  doce,  carinhoso,  inteligente,
sensvel, mas conseguia frear aqum de Jos Jlio. Incrvel.  Os  finais
dos encontros sempre iguais,  ele  bebendo,  me  beijando,  acarinhando,
emocionado, falando na tal moa.
        Dias depois, na quinta noite em  que  nos  encontramos,  resolvi
terminar  com  o  Rui.  Foi  muito  dificil,  porque,  pelo  visto,  ele
colecionava sofrimento, disse que daquele dia em diante sofreria  tambm
por mim. Deixei-o no mesmo bar, terrivelmente sentido. Que horror
        Avante, Gilda, um dia, quem sabe, voc vai ser feliz!

        Cheguei cedo em casa e, por incrvel que parea, encontrei Lili,
mas no encontrei  mame.  Terminada  a  novela,  ela  fora  devolver  o
aparelho a dona Idalina, e parece que,  ao  introduzi-lo  no  ouvido  da
vizinha, exagerara no empurro, tudo isso disse meu tio,  e  em  seguida
perguntou:
        - Rifou o rapaz?
        - Rifou, Lili?...
        Tinha dado as costas, j havia falado por hoje, disse.

        No trabalho, depois do episdio do meu mal sbito, seu  Evaristo
voltou a ser o de antes. Cartes,  telegramas,  flores,  interesse  pela
minha sade. Patrcia nunca mais

116

apareceu, disseram no escritrio que os pais a levaram para se tratar em
So Paulo. Para tristeza de seu Evaris- to,  certamente.  Ele  voltou  a
bufar para o meu lado.
        Ao chegar em casa,  depois  de  negar  um  jantar  num  ambiente
ntimo, decorao refinada  e  cardpio  seletivo,  encontrei  Nina,  em
prantos (o que se sofre no  brinca- deira), contando  para  mame  que
Srgio iria trabalhar  em  Vitria.  Chorava  de  saudades  antecipadas,
enquanto mame dizia que o amor  provocava  muito  desassossego  e  dor.
Deixava a pessoa desorientada. Nisso, escutamos:
        - Carina! Carina! - A voz de meu tio.
        Deve ter sonhado com ela, disse mame se levantando e passando a
mo nos cabelos. Lili repetia cada vez mais alto:
        - Carina! Carina!
        Mame disse que era necessrio tomar providncias, chamou Wilma,
que se encontrava no quarto, descansando (dorme todos os dias depois  do
almoo), depois as duas passaram correndo pela rea  e  foram  bater  no
quarto de Lili, que, ao abrir a porta, ouviu mame anunciar:
        - Carina veio lhe fazer uma visita! - e apontou Wilma.
        Lili exclamou "querida", e fechou a porta. Durante algum  tempo,
ficaram os dois l dentro fazendo sabe Deus o qu.
        Nessa circunstncia, perguntei a Nina se era  permitido  enganar
ao outro espiritualmente, e ela foi incapaz de responder. Tem  horror  a
ir contra mame.  Enquanto  isso,  uma  cena  se  desenrolava  na  rea;
limpando

117

sofregamente os azulejos na periferia da mquina de lavar, mame  contou
que a tal Carina tinha sido noiva de seu irmo e o  abandonara  para  se
casar com um oficial de marinha que, na poca, andava muito em voga.  De
repente, a porta do quarto se abriu e Wilma, tentando baixar a carapinha
com as mos, disse que se cansara de ser Carina.



        118

11


Encontrei Jos Jlio, Bianca, e uma moa os acompanhava. Parei em frente
a eles e tentei fazer um carinho na menina, que se encolheu,  escondendo
o rosto nas calas do pai. Jos Jlio contou que se casara com Mansa,  e
a moa sorriu dentes trepados. Perguntei se ele  continuava  morando  no
Jardim Botnico, respondeu que sim, mas disse estar com  pressa,  porque
levariam Bianca ao Zo. Sempre apressado. Zo.
        Desapareceram da  minha  frente,  e  eu  segui  andando;  passos
depois, as lgrimas rolaram, pingando minha blusa. Me meti num nibus, e
assim que me sentei ao lado da janela, lembrei do primeiro  dia  em  que
sa com Jos Jlio, na verdade, primeira  noite.  No  nos  conhecamos,
amigos  em  comum  marcaram  um  programa  e  no  apareceram.  Na  hora
combinada, desci em frente ao prdio e l estava Jos Jlio, no meio  da
calada. Desconhecidos, atrapalhados, tontos, nos olhvamos, enquanto as
pessoas atravessavam  nossa frente; depois  de  alguma  hesitao,  ele
props irmos a uma boate. O que fizera de Aurora e Bianca naquela  noite
de sbado? Nunca perguntei. Mal adentramos a  escurido  da  paixo  que
pouco a pouco nos assombrava, ele me convidou para  danar,  embora  no
soubesse, e assim dizendo sorriu, sua linda boca de comer  ambrosia.  No
meio da pista, encabulados, nossas mos se procuraram, os

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cantos  dos  olhos  se  miravam,  e  quando  comeamos  a   nos    mover
vagarosamente no  meio  do  salo,  Jos  Jlio  iniciou  uma  srie  de
histrias. Ao terminar de contar a do peixinho  dourado  que  no  podia
morrer afogado, nos encontrvamos abraados, nos beijando,  e  eu  quase
chorava com a chegada de algo que desconhecia, ah, meu amor...
        O trocador  minha frente avisava que era o ponto  final,  e  eu
perguntei se poderia esperar  pela  prxima  sada.  Ele  estranhou,  se
coando (no sei por que os homens fazem esse  gesto),  dizendo  que  ia
demorar. Fiquei ali dentro, numa tarde de outono nublada, uma rstia  de
sol se pondo, temperatura em declnio; em condies instveis.
        Quando estava para saltar na esquina  de  casa,  me  lembrei  do
aniversrio de Susie. Ainda bem que havia  comprado  o  presente.  Susie
avisou que faria uma reunio ntima, porque seu  cachorro  no  tolerava
muita gente. Me vesti com  mame  ao  lado,  perguntando  como  eu  iria
chegar. No dei resposta, para certas coisas  melhor no responder.  Na
sada, disse que era aniversrio de Susie;  ela  ento  comentou  que  a
noite devia ser menos agitada porque Susie no tinha bebida alcolica em
casa. Quem disse? No perguntei. No dou a menor chance  de  encompridar
conversa com mame, todas circulares, no do em nada. Abri a porta para
sair, enquanto Nina entrava, travesseiro dentro de uma sacola; perguntei
se estava de mudana, e ela disse que se cansara  de  acordar  torta  em
cima das almofadas  duras  do  sof.  Em  seguida,  puxou  uma  camisola
estampada de nu
        120

vens. Sempre que Srgio viajava, tambm ela ficava  nas  nuvens,  disse.
Sei ao que se referia, enquanto mame a chamava de santinha. Me  despedi
e deixei Nina abraando mame, j com soluos na voz.
        At que Susie estava bonitinha, mas tem tamanho  de  pnei,  por
isso est sempre de saltos. Nunca disse isso  a  ela,  primeiro,  porque
deve  saber,  depois,  porque  ningum  gosta  de  ser  confundida   com
cavalinho. As pessoas se espremiam na sala apertada de Susie.  Um  rapaz
de rabo-de-cavalo comprido mexia no aparelho de som e, ao  se  virar  de
frente, nos vimos; o porte atltico e os cabelos esticados davam-lhe uma
aparncia rupestre, digamos. Ele se postou imediatamente  ao  meu  lado,
perguntando meu nome e se eu era amiga de Susie; dei vrias cruzadas  de
pernas (sou boa nisso, treinei muito em frente ao espelho), e,  azeitona
pra c, azeitona pra l, comentou que eu era bonitona, daria uma  grande
aventureira (?). Nisso, a porta se abriu e seu Evaristo entrou carregado
de flores. Susie fez um escndalo quando o  viu.  O  cachorro  deve  ter
estranhado, porque latiu rouco na rea. Susie comentou em voz  alta  que
Afonso tossia. Afonso. Seu Evaristo cumprimentou um  por  um,  e  quando
chegou a minha vez, exclamou, com olhos bamboleantes:  -  Que  surpresa,
dona  Gilda,  no  esperava  encontr-la...  Susie  dava  gritinhos,  se
exibindo, dando voltas como se estivesse no picadeiro, e os olhos de seu
Evaristo, depois de passearem por todas, pousaram em mim. Numa das vezes
em que me levantei para ir ao banheiro (se
121

gundo mame, devo ter  bexiga  cada,  de  tanto  xixi  que  fao),  seu
Evaristo cochichou no meu ouvido que sairia da festa comigo. Encarnou de
novo na minha pessoa. Me tranquei dentro do banheiro e  fiquei  pensando
que soluo daria, e cheguei  concluso  de  que  sairia  cedo,  com  a
desculpa de que minha irm havia chegado  de  viagem,  partiria  no  dia
seguinte e eu queria v-la. E foi o que fiz, mas, ao  chegar    rua,  o
carro de seu Evaristo, com chofer, estava diante  de  mim,  e  sua  voz,
repercutindo nas minhas costas: "Entre, por  favor,  dona  Gilda,  quero
surpreend-la? Como se fizesse outra coisa...  Desviei  e  sa  andando,
quase correndo pelo calado da Avenida Atlntica. Ao chegar na primeira
esquina, o rapaz da festa, Bruno, ao meu lado, perguntava  o  que  tinha
acontecido. Todos atrs de mim? Eu arfava, sem  conseguir  responder,  e
depois de caminharmos dois  quarteires,  ele  me  convidou  para  tomar
alguma coisa. Paramos num bar, e quando o garom se aproximou,  o  rapaz
pediu um guaran diet para ele.  Isto  mesmo  que  ouvi.  Conversa  vai,
conversa vem, contou que em sua vida buscava o bem-estar  fisico;  fazia
mountain biking, se eu sabia do  que  se  tratava.  Como  no  respondi,
explicou que era pedalar em terreno acidentado. Havia tambm o trekking,
continuou, caminhada  por  trilhas,  e  escalada,  canoagem,  asa-delta,
rapei, sabe  o  que  ?  Descida  de  montanha  com  auxlio  de  corda,
respondeu, e eu me levantei dizendo que  iria  ao  banheiro.  Na  volta,
trilhas  que  no  acabavam  mais.  Enfim,  encontrara  um  desportista,
espcime des
122

conhecido no meu currculo, agora j no to pequeno. Ao chegar em casa,
mame disse que finalmente eu arranjara boa companhia, seria  timo  que
eu repetisse sadas assim.  Falei  que  nunca,  nunca  mais,  e  ela  se
afastando disse que eu no tinha jeito, gostava mesmo  era  de  fuzarca.
Fuzarca?...

        Na manh seguinte, no trabalho, duas pessoas praticamente no se
dirigiam a mim. Seu Evaristo e Susie. Ele, certamente porque  o  deixara
plantado no meio da rua, e ela, por acreditar que ele  e  eu  seguramos
viagem  juntos.  Dois  imbecis.  Para  ela,  esclareci.  Disse  que,  se
estivesse pensando que sa com  seu  Evaristo,  estava  muito  enganada,
tinha passado o resto da noite ouvindo falar em mountain biking, e Susie
sorriu. No final da tarde, seu Evaristo me chamou ao seu gabinete, fazia
algum tempo usava essa palavra, devia ter achado mais condizente  com  a
sua idade. Assim  que  entrei,  ele  disse  que  ficara  sentido  com  a
desfeita, queria me  proporcionar  uma  noite  plena  de  acontecimentos
prazerosos. Eu disse que avisara na festa  que  queria  me  despedir  de
minha irm, esperava que, como os  outros,  ele  tivesse  escutado.  Ele
pediu que, por favor, eu no repetisse o gesto, e deixou a  mo  no  ar.
Com qual intuito?... Transformar-se em tapa? Perguntei se poderia  sair.
Seus olhos falcnicos acompanharam meus passos  at  eu  desaparecer  da
sala.

        Na volta do trabalho, ao sair do elevador,  ouvi  os  gritos  de
mame e dona Idalina. Conversavam.

123

        Quando mame fez uma pausa, e me viu  sua frente, disse que  um
rapaz muito simptico ligara: Bruno.
        Sabia que no ficaria naquele diet.

        Chegou outra carta de Dad. Tinha conhecido Rubia numa festa.  A
moa cintilava em jias,  cabelos  negros  escorridos,  boca  e  vestido
vermelho-sangue. Dad disse que a encarou tanto,  que  no  dia  seguinte
tivera que ir ao oculista. Resultado: ressecamento da mucosa ocular.
        Mame apareceu no quarto perguntando o que tinha acontecido  com
Dad, e eu disse que  no  tinha  acontecido  nada.  Continuou    minha
frente, aguardando sei l o qu; pedi licena para ficar sozinha  e  ela
perguntou o que eu iria fazer. Pensar na vida, disse.
        Pensei, pensei, e liguei para o Bruno, que  atendeu  de  pronto.
Combinamos uma sada, para a noite seguinte. Mame voltou a me perguntar
por Dad, e eu disse que, se quisesse  saber  dela,  bastava  telefonar.
Esqueci de contar que mame tinha mandado fazer o aparelho de surdez mas
no se adaptara, continuando a preferir o de dona Idalina. Perguntei por
que no fazia um igual. Ela disse que no tivera a idia. Burrinha. Toda
a comunicao, como sempre, aos gritos.
        Noite seguinte, antes que fssemos parar nos  diets,  entrei  no
carro do rapaz, dizendo:
        - Pronta para a aventura!  -  Seus  braos  estufados  de  veias
viraram o volante em direo a um motel.
        - Gosto de mulher assim: decidida! -  Deu  uma  fungada  no  meu
pescoo.

124

        Chegando ao motel, ele se despiu e, mostrando o muque, pediu que
eu o apalpasse. - Viu s, bonitona, a dureza dos msculos?
        Depois, dizendo-se timo em trepadas, perguntou se eu  no  iria
tirar a roupa; foi o que fiz. Ficamos nus, e ele mergulhou  em  cima  de
mim, comentando que dava vrias  seguidas,  e,  como  um  rptil  veloz,
introduziu-se no meu corpo, comeando a  se  movimentar  freneticamente;
passados alguns minutos, disse, agora de lado, pouco tempo depois, agora
do outro, menos tempo ainda, na beira da cama. Parando subitamente,  ele
comentou que o esporte fazia o sangue correr mais rpido nas veias. Iria
pedir um refrigerante, recomearamos logo a seguir.
        Comecei a me vestir, alegando cansao e dor de cabea. Que pena,
disse ele.
        Deus meu...

        Est cada vez mais dificil ser feliz, foi o que pensei  enquanto
enfiava a chave na porta e a porteira da madrugada abria do outro  lado,
dizendo-se orgulhosa de ver como eu estava chegando em casa.
        Ao acabar de pronunciar a ridcula frase,  o  telefone  tocou  e
mame  foi  atender  Rpido  o  recado.  Ela  largou  o  aparelho  muda,
gesticulando, como se fizesse ginstica. Aguardei  o  que  seria  aquela
manifestao. Bem capaz de ter falado com defunto, o dia inteiro  escuta
coisas e tem vises. Quando conseguiu recobrar a fala, soprou: - Ricardo
morreu! - Despencou no sof, abanando o rosto com a mo.

125

        - Ah, meu Deus, o crioulinho de Lili...
        Ela balanava a cabea, e num fio de voz perguntou como daria  a
notcia ao irmo.
        - No precisa dar... no diz nada...
        - Tenho que dar, devo dar, o rapaz fez de Lili seu herdeiro... Imediatamente vi uma montanha de dinheiro ser despejada l  em  casa.  Tudo que ele possua em seu quarto: um rdio, uma  coleo  de  revistas
antigas, Cinelndia e Radiolndia, uma caneta Parker, poucas  roupas,  e
um par de coturnos. Deve ter ganhado essas botas, porque Lili no serviu
ao Exrcito... (falou para ela mesma). Seu tio  tem  de  comparecer,  se
apresentar... onde mesmo...?  Esqueci.  Bem,  temos  que  nos  informar.
Comunique s suas irms.
        Sbito, Lili saiu do quarto. Aproximando-se vagarosamente  dele,
mame disse que, infelizmente, precisava lhe  dar  uma  notcia  triste.
Lili recuou em direo  cozinha. Voltou com quatro velas nas mos,  que
acendeu e disps em cruz no cho da sala, deitando-se em  meio  a  elas.
Assim  ficou  durante  trs  dias,  levantava-se  somente  para  cumprir
necessidades fisiolgicas, beber leite e apanhar mais velas. Nesse  meio
tempo, Nina veio dormir em casa. Apavorou-se quando se deparou com  Lili
esticado na sala. Mame a chamou e deve ter contado a  histria.  Mas  a
nica coisa que Nina queria era saber onde pr seu travesseiro, e  mame
disse que se ela quisesse poderia dormir no colchonete do seu quarto.
        No terceiro dia, meu tio levantou-se e, como era raro vestir-se,
durante algum tempo rodou dentro do terno de meu pai que mame  guardava
dentro do armrio

126

cheio de naftalina; finalmente pronto, saiu. Logicamente, no  voltou  a
aparecer. No dia seguinte, estava na primeira pgina do  jornal.  "Louco
se rasga em frente ao tribunal, exigindo filho de volta!" Precisei  sair
cedo do trabalho, deixei recado dizendo que tinha perdido uma pessoa  da
famlia. A tarde, mame e eu fomos buscar Lili no sanatrio, que, ao nos
ver, desandou a pular, ps descalos, calas arregaadas, pronto para  a
luta de reaver o filho, dizia.
        No trajeto, dentro do nibus, Lili vinha no banco da frente  com
a cabea tapada pela camisa, peito nu, encostado  no  vidro  da  janela,
falando sozinho. Mame resolveu conversar Como se fosse o  assunto  mais
corriqueiro do mundo, disse que, quando eu era  pequena,  havia  passado
algum tempo com meu pai na Espanha. Por que s ento me contava,  gritei
dentro do seu ouvido. Ela respondeu que tinha sido muito  sofrido  ficar
longe de mim. Pedi que continuasse, e ela disse que era apenas isso;  na
poca, minha av paterna adoecera, e meu pai e eu viajamos e l  ficamos
durante um ano. -Um ano!?
        Vrios passageiros viraram a cabea para trs. - S, em Madri.  O
pior foi que l quiseram trocar seu nome pelo de Guadalupe, mas seu  pai
no deixou... Voc chegou aqui falando espanhol, to bonitinha...
        Qu vengan los toros  y  chefren  mam!  Toquei  a  campainha  e
saltamos.

No dia seguinte, seu Evaristo, passando pela minha mesa, disse que assim
que eu pudesse fosse ao seu gabi
127

nete. Quando l entrei,  ele  quis  saber  em  detalhes  a  histria  do
Ricardinho. Contei. Quando terminei, ele disse:
        - Crioulinho quando morre  ainda mais comovente, porque  lembra
a nossa pobreza, miserabilidade, instabilidade vivente.
        Por que a modificao em seu estado de esprito?
        Chegando em casa, mame disse que Lili estava muito  emocionado;
na verdade, vertera algumas lgrimas porque recebera um  carto  do  meu
chefe: "Consternado com o desaparecimento sbito de seu filho, apresento
minhas condolncias:" Mame  continuava  falando,  dizendo  que  algumas
notas acompanhavam o bilhete, mas Lili no quis dizer quanto recebera.
        Me lembrei de ligar para Jos  Jlio  e  contar  a  histria  de
Ricardo. Uma voz de mulher atendeu, perguntando quem gostaria de  falar.
Eu disse que era eu, e a moa respondeu que ele no podia atender, se eu
quisesse poderia deixar o recado (um custo  ouvir,  porque  acabaram  de
inaugurar uma britadeira na rua, um barulho colossal de que mame nem se
d conta). Alm de dentes trepados, a mulher tem lngua  presa?  E  ser
que ela fala assim com Aurora?
        Quando desliguei, mame comentou que felizmente Lili voltara  ao
que era:
        - Graas a Deus, menos  uma  coisa  para  entupir  minha  cabea
congestionada por tantas clulas mortas espalhadas pelo crebro.
        Quando percebeu que eu no pronunciaria uma  palavra  diante  do
que dissera, perguntou se eu sabia O que era falta de considerao, onze
letras. Eu disse que

128

era do que ela me acusava a todo momento.  Ficou  confusa;  quando  isso
acontece, inevitavelmente os culos entortam.  -  De  no  ter  respeito
pelos mais velhos? - perguntou. - E como  se  chama  a  pessoa  que  no
respeita os mais velhos, hein?... Hein?... - Desrespeitosa! - aproveitou
e respondeu em tom de xingamento.





129



12


Cheguei do trabalho e me sentei para ler o jornal, esperando  o  jantar,
quando mame se levantou e desligou a televiso. No  iria  assistir  ao
noticirio da cidade sangrenta? Caminhando na minha  direo,  na  ponta
dos ps,  inclinou-se    minha  frente  e,  procurando  o  meu  ouvido,
perguntou se eu tinha visto Gumercindo; continuava  o  mesmo,  elegante,
sbrio, olhar sonhador, apontou  com  os  olhos  a  poltrona  vazia.  Me
levantei e fui acabar a leitura dentro do quarto.
        Ia assust-la tambm, voltei e disse: -  Sabia  que  existe  uma
formiga chamada "louca" que faz ninho dentro da casa dos velhos?
        Mame disse que no iria admitir escrnios. Escrnios.  Est  a
uma palavra interessante para o meu vocabulrio. -  E  o  que  significa
essa palavra? (Eu j escutara, mas tinha esquecido.)
        Ela respondeu que bastava de conversa por ora. - Est  bem,  no
digo mais nada- e me precipitei sobre ela com cuidado para  no  quebrar
seu esqueleto de vez.- Me d um beijo, disse, beijando-a.
        Ento ela disse que no  estava  nada  satisfeita  comigo  havia
muito tempo, eu sabia, por vrios motivos, mas naquele momento no  iria
enumerar, chegara  a  hora  do  Amor  tirnico.  Novela.  Conversaramos
depois, concluiu.

131

        Antes de ela se retirar da sala, avisei que,  no  dia  seguinte,
depois do trabalho, iria ao cinema, sozinha. No ando  boa  de  arranjar
companhia, no comentei. Ela permaneceu muda, j devia estar  ligada  na
tirania da novela.

No final do expediente, quando praticamente todos sairam, eu arrumava as
coisas, quando senti uma dor Forte. Acho que devo ter soltado um  grito,
porque seu Evaristo apareceu diante de mim assustado, perguntando o  que
tinha  acontecido.  Eu  estava  dobrada  sobre  mim  mesma.  Ento,   me
levantando e abraando, ele me conduziu para o  sof  do  seu  gabinete;
enquanto eu me contorcia, ele me apalpou o quanto  quis,  at  chegar  
concluso  de  que  a  dor  situava-se  do  lado  direito  da   barriga.
Levantando-se, foi at o  corredor  e  avisou  que  precisava  sair  com
urgncia, uma funcionria passava mal. Voltando, ajudou-me a levantar, e
samos do escritrio cuidadosos  e  apressados.  Assim  que  chegamos  
garagem, ele chamou seu chofer, que abriu a porta do carro;  sentamo-nos
no banco de trs. At alcanarmos a casa  de  sade,  ele  alisou  minha
barriga, que doa, doa, e sua mo morna passeava pelo meu ventre, e ele
dizia que em breve passaria.  Mal  demos  entrada,  fui  examinada  pela
equipe de emergncia,  que  disse  que  eu  precisava  ser  operada  com
urgncia. Quadro de apendicite aguda. Pedi a seu Evaristo que avisasse a
mame; depois que me puseram na maca e ela  deslizou  por  um  corredor,
entrando numa sala onde acertaram um luzeiro so
132

bre mim, no vi mais nada. Acordei com seu Evaristo de um lado da cama e
mame do outro. Na mesa-de-cabeceira, meus olhos se entortaram  e  viram
um buqu de rosas rosa dentro de um jarro. Depois de  terem  me  contado
que a operao tinha corrido bem, e que agora era  questo  de  repouso,
seu Evaristo disse a mame que ela poderia ir para casa,  no  precisava
se preocupar, ele cuidaria de tudo. Foi levar mame num txi, e ela saiu
dizendo que ainda tremia pelo susto da novidade. Susto da novidade.
        No sei quanto tempo dormi, s sei que acordei  sentindo  dores,
misturadas s mos de seu Evaristo, que dizia que ia passar, mas naquele
momento eu precisava urinar, e ele  ps  a  comadre  sob  mim,  e  ficou
aguardando. Pedi que chamasse a enfermeira. Ele disse  que  no  ficaria
sossegado me deixando em mos alheias, e eu estava  infinitamente  bela,
plida, descorada, um colosso! ele se dirigiu  para  a  ponta  da  cama,
suspendendo o lenol.
        - Da mata cerrada, observo...
        Avisei que ia gritar. Ele saiu, dizendo que eu o privava  de  um
prazer nico. Uma enfermeira com cara  retinta  entrou  e  sentou-se  na
cadeira ao lado da cama, dizendo que, se eu precisasse de alguma  coisa,
seu nome era Joderlina. Joderlina?
        No dia seguinte, acordei cheia de dores e um tremendo mal-estar,
e com a cara de mame quase colada  minha; ao ver meus  olhos  abertos,
ela disse:
        - Voc est to bem disposta, minha filha...
        Do outro lado da cama, seu Evaristo perguntava como eu me sentia
naquela manh luminosa.

133

        - "Luminosa manh, por que tanta luz"... - Lili entrou cantando,
deu uma volta no quarto e saiu.
        Foi dificil me livrar dos cuidados de seu Evaristo, mas  no  fim
de semana eu estava em casa.
        Quando cheguei, o porteiro mandou entregar flores e  bombons  no
apartamento. No carto, seu Evaristo agradecia pela bela viso  da  qual
ficara impregnado durante suas madrugadas.  um enfermo.

        Assim que me senti boa, fui dar uma volta. Mal havia me afastado
de casa, vi uma velha perdida entre os carros na calada; no  conseguia
encontrar  a  sada.  E  os  transeuntes  apreciando  a   velhinha    no
labirinto... Dei voltas procurando um guarda, no vislumbrei nenhum  nas
redondezas. Fui ajud-la.
        Aps a boa ao, entrei numa livraria e me lembrei de comprar  O
pequeno prncipe para Susie,  pelo  Natal.  Achei  que  iria  gostar:  O
pequeno prncipe e a pequena Susie.
        Nessa tarde, na livraria, conheci  o  Eduardo,  livro  aberto  e
olhos em mim. Quando estava para pagar, ouvi sua  voz  perguntando  qual
livro eu escolhera. O pequeno prncipe,  respondi,  para  meu  sobrinho,
seria seu primeiro contato com a literatura. Jos Jlio que me desculpe,
mas roubei sua histria. Por falar nele, como andar com aquela moa  de
dentes trepados e a filha trepada nele?  O  rapaz,  Eduardo,  tinha  uma
pilha de livros  sua frente; dei uma olhada, e ele,  percebendo,  disse
que era professor de Fsica, retirando um carto do bolso e colocando-se
inteiramente  disposio.

134

        Muito charmoso o  Eduardo,  gestos  lentos,  palavras  pensadas,
pausadas, pousadas, era do que eu precisava. Chega de afobao.

Ao chegar em casa, encontrei seu Evaristo no sof. O que fazia em  nossa
casa? Ele  disse  que  fora  me  fazer  uma  visita  e  saber  da  minha
recuperao. Contei que estava inteiramente boa e  agradeci  a  ateno.
Mas ele no se moveu da poltrona. Como no gritvamos, mame, sentada na
poltrona, nada  escutava,  mas  sorria  sua  boca  mole  e  parcialmente
desdentada. Ela se recusa a colocar dentes  nas  falhas,  assim  como  o
aparelho de audio. Gosta de ficar caindo  aos  pedaos.  Seu  Evaristo
perguntou se eu lhe permitia ver a cicatrizao. Eu disse que  o  mdico
tinha visto e achara tudo  bem.  De  novo  agradeci,  e  ele  permaneceu
sentado. De repente, Lili apareceu, dizendo: mostre. Em seguida,  seguiu
para o quarto. Continuei imvel, e seu Evaristo perguntou se eu ouvira o
que meu tio dissera. Fiquei em silncio. Lili  voltou  a  aparecer  e  a
repetir o que havia dito. Nisso, mame se ausentara, porque  achava  que
papai estava em seu quarto querendo fazer  recomendaes.  Seu  Evaristo
quis saber sobre meu pai e eu respondi que era loucura de minha  me.  E
ele no disse nada. Ento, insistiu, e Lili gritou  do  seu  quarto.  Me
levantei e disse que estava bem, podia olhar, rpido. Fomos para  o  meu
quarto, fiquei de p, enquanto  ele  se  sentava  na  beirada  da  cama,
mandando que eu suspendesse a saia e abaixasse as calcinhas. Olhou bem a
cicatriz, e enquanto comentava, suas mos quentes seguravam e dirigiam a
minha bun
135
da para melhor me observar. Tudo isso debaixo  de  bufos  e  respiraes
ofegantes.  Por  instantes,  vaguei  pelo  solo.  Hasta  cundo   poder
resistir? Quando ele se cansou da inspeo, me  agradeceu  e,  antes  de
sair, disse, quase dentro da minha boca, que  eu  ainda  enfeitaria  seu
jardim, e foi embora. Jardim!? O que ser que quis  dizer  com  isso?...
Demente! Esse sujeito ainda vai me levar ao desatino, estou sentindo,  e
no  de hoje.

        Dias depois, quando mame finalmente desligou o telefone, liguei
para o Eduardo, perguntando se ele podia me  dar  aula  de  Fsica.  Com
enorme prazer, respondeu. E comeou pelo telefone mesmo a me  dizer  que
existiam dois grandes modelos tericos consagrados pela Fsica: a teoria
da relatividade  e  a  teoria  quntica.  So  teorias  extraordinrias,
continuou ele, mas seria importante que eu  tivesse  algumas  noes  de
Filosofia antes que entrssemos na Fsica propriamente dita.  Preparando
terreno. Est bem.
        Assim que nos vimos frente a frente, ele disse:
        - Ento, vamos comear?
        Sorri, dizendo sim.
        - A Filosofia comea com a questo do Ser.
        Instantaneamente teve incio a aula.
        Que voz!... Deslizava em ondas pelos meus tmpanos. Em  seguida,
ele escreveu a palavra Ser e desenhou um  crculo  em  volta,  perfeito.
Voltou a baixar a cabea e a escrever,  dessa  vez  uma  frase,  girando
depois o papel na minha direo.
        "O ser  aquilo que .

136

        Estava escrito. Ele silenciou, me olhando. Como no sabia o  que
dizer, repeti a frase. Seus olhos cintilaram, azuis.  Ento,  ele  disse
muitas coisas, mas delas sou incapaz de me lembrar porque suas  palavras
me deixaram totalmente  deriva.
        As  aulas  prosseguiram:  Plato,  platonismo,   o    eixo    da
verticalidade, da horizontalidade,  enquanto  eu  via  suas  belas  mos
traando  circunferncias  perfeitas  (deve  treinar   em    casa)    no
quadro-negro. Volta e meia, ele fazia um imenso sinal-da-cruz  com  seus
dedos espatulados, ainda falando dos eixos, ento  eu  me  via  deitada,
imvel, a seus ps, e no branco quadro  do  meu  corpo  a  filosofia  se
inscrevia.
        Tudo isso se dava dentro da Universidade na qual  ele  lecionava
para turmas de graduao. A  cada  aula,  ele  me  trazia  um  livro  de
presente, depois tomvamos cafezinho e em seguida ele me deixava em casa
de nibus.
        Aps  inmeras  aulas,  eu  estava  tomando  gosto  pela   coisa
enrolada, mas o Eduardo jamais falou em bar, motel, trepada.  Foi  ento
que ele comeou a discorrer sobre a tese que escrevia "Do sujeito  desde
sempre incomunicvel" e tentou me explicar, mas era  complicadssima,  e
eu  no  conseguia  acompanhar,  porque  cessaram  os    desenhos,    as
circunferncias,  e  eu  fiquei  perdida,  porque  ele  dizia   que    o
imprescindvel em sua demonstrao era a incomunicabilidade, e a ficava
um pouco nervoso (eu no entendia como um  estudo  podia  deixar  algum
assim alterado...), e na volta do nibus vnhamos calados,  e  eu  vendo
nos cus uma poro de circunferncias, no to perfeitas quanto  as  do
Eduardo.

137

        Se ramos incomunicveis, trepada jamais, conclu, claro que no
falei porque at ento, o Eduardo jamais ps sua mo sobre a minha.   o
diabo.
        Enquanto  isso,  seu  Evaristo  me  cercava  a  cada  final   de
expediente, atravs de mltiplas  atitudes,  tantas  cortesas,  que  no
entanto eu no aceitava, esperando a qualquer  momento  ser  salva  pela
Filosofia. E eu lia, lia, para ver se conseguia acompanhar  um  pouco  o
que o Eduardo dizia. Passava os dias com a cara  enfurnada  nos  livros,
mame comentou que estava  encantada  com  meu  novo  namorado,  mas  eu
gritava que no era, e ela dizia que me conhecia, eu no perderia  tempo
com algum que no prometia.
        Pois bem, num final de aula, cansada de  ouvir  coisas  que  no
entendia, perguntei ao Eduardo se  ele  trepava.  Ps-filosofia,  fiquei
assim: clara, objetiva, direta. Ele riu, riu, riu, e eu  comeava  a  me
achar imbecil, quando ele disse: "quando quiser". E eu queria, eu urgia,
e fomos para o seu apartamento. Encontramos sua  me  no  meio  da  sala
fazendo ginstica. Ele me apresentou e seguimos direto  para  o  quarto,
enquanto ela dizia que sentia muito mas no  desligaria  o  programa  da
Jane Fonda. Melhorava a olhos vistos,  falou,  metida  numa  malha  roxa
colada ao corpo. People are ti-te ultimate spectacle lembrei de um filme
da atriz, casava perfeitamente com a cena vista.
        Entramos no quarto, e o Eduardo disse que, infelizmente,  a  me
era um ser superficial,  e  mais  no  disse,  e  nos  deitamos  ouvindo
palavras frenticas em ingls e ele, se despindo, pediu que eu retirasse
a roupa. COmen
138

tando que meu ser era apolneo e dionisaco  simultaneamente,  deitou-se
sobre mim e, ao me penetrar, desandou a soluar. Parou, paramos; impasse
 vista. Deitados lado a lado, perguntei se  ele  no  queria  tomar  um
pouco d'gua, ajudava. Ele saiu do quarto e voltou  dizendo  que  tomara
uns goles. Seu membro mole no anunciava nenhuma outra partida. Me cobri
com o lenol, enquanto o programa da ginstica continuava. Ele deitou-se
ao meu lado, soluante. Perguntei se era dado a soluos, disse que  fora
a primeira vez. No sei o que acontece,  no  dou  sorte,  mesmo.  Pouco
depois, recomeamos, mas as mos do Eduardo no se movimentavam na cama.
Onde as belas, firmes e promissoras mos das aulas? No participavam  da
arte do toque? Passado algum tempo, durante o qual eu nem mais  sabia  o
que fazia  debaixo  daquele  lenol,  ele  deitou-se  sobre  mim  e,  me
penetrando, entramos  no  ritmo  da  ginstica  que  ouvamos  da  sala.
Enquanto se movimentava dentro de mim, o Eduardo me olhava olhos duros e
frios, e eu tentava me lembrar das aulas mas no conseguia, e, depois de
algum tempo de vaivm, ele  anunciou  em  voz  baixa,  tranqila:  estou
gozando. E meu corpo e alma intactos sentiram seu estremecimento; quando
ele parou, no tive o que falar, e ele  comentou  que  contrarivamos  a
teoria, com nossos seres a se comunicar. Sorriu. O Eduardo no  tinha  a
menor graa. E seus olhos, azuis demais.
        Depois desse episdio filosfico-muscular, ele telefonou algumas
vezes,  mas  em  todas  desconversei;  cansei  de  estudar.  No   ltimo
telefonema, no qual conversamos um pouco, no final o Eduardo  disse  que
eu no

139

tinha nenhuma clareza para representar o mundo exter no com um mnimo de
correspondncia e adequao. Quando terminou, falei: est bem. Nunca fui
to bem xingada. Parece que  uma prtica comum em  Filosofia,  provocar
os outros.
        Pensei em desistir, virar monja, como Nina almejava,  ou  ento,
quem sabe, recorrer ao chuveirinho do bid. Mas que merda de vida.

        Nesse intervalo, recebi carta de Dad. Decidira dar um flagrante
em Hermano. Para isso, tinha posto um revlver na bolsa  e  passara  uma
tarde inteira na porta de um motel ouvindo gemidos e gritos.
        Vou pedir a Dad que me poupe de ameaas de  morte  de  contedo
sexual. Meu corpo fica aturdido.

        Mame, de novo, queria que eu desse notcias de Dad,  expliquei
que as cartas no eram familiares, ela e Dad  que  se  correspondessem,
caso assim desejassem. Sempre indelicada, disse mame. E eu no revidei.
Mas a, ela falou que  precisvamos  conversar,  antes  do  horrio  das
novelas. Detesto conversas com mame. Mas ela j dera a partida. A  cada
dia se preocupava mais e mais comigo,  estava  ficando  velha,  energias
perdidas, nervOs gastos, e no  via  um  desfecho  para  a  minha  vida.
Desfecho? No perguntei para no alimentar a conversa, seno iria longe,
sei como . Continuou: mal ou bem, Nina e Srgio se entendiam (acho  que
quando se diz mal OU bem,  sempre mal, tambm  no  acrescentei),  Dad
era

        140

casada (correto, o tempo do verbo), enquanto  eu  no  me  acertava  com
ningum, pulava de namorado em namorado, e apesar de ser a  mais  bonita
das trs, no conseguia encontrar quem prestasse. Quanto a  isso,  tinha
razo, mas no lhe dei. Ficava velha,  a  espelhos  vistos,  e  no  via
futuro para  mim.  O  que  seria  da  minha  vida?  Solido?  Desespero?
Desproteo? Que palavras.., O que acontecia comigo, que  no  conseguia
fazer  uma  escolha  acertada,  o  que  queria  com   tantas    noitadas
descompromissadas? E mais: invariavelmente alcoolizada?  Ela  ainda  no
tinha acabado: sabia que no duraria muito,  e  nem  espiritualizada  eu
era, talvez fosse isso o que fazia falta na minha vida desregrada.  Alm
do  mais,  depois  de  sua  morte,  quando  fizesse  aparies  para  me
confortar, como eu iria reconhec-la?  Eu  precisava  pensar  nisso,  as
relaes no se acabam, mas se eternizam no Esprito Santo,  e  ela  no
desejava  jamais  que  a  nossa  se  perdesse  com  a  sua  partida.   
incalculvel o que eu escuto... Por que eu no rezava, pedindo ao Senhor
um bom companheiro? Fui ficando murcha, triste, infeliz, e a nica coisa
que me ocorreu foi  perguntar  se  ela  estava  doente.  Nesse  momento,
Arnaldinho fez um escarcu na rea, mame levantou-se e disse que depois
continuava, estava com medo de que o barulho tivesse incomodado a Wilma,
que, felizmente, havia algum tempo passava bem.
        Fiquei sozinha na sala,  despencada  no  sof,  e  uma  tristeza
medonha me invadiu, no consegui nem calar os sapatos, uma fraqueza nas
pernas... Mame me deixa totalmente sem foras, tem o dom de me  arriar.
Continuei tombada, me vendo sozinha naquele apartamento, com

141

Lili trancado em seu quarto, Wilma no dela, e o canari  nho  cagando  na
rea. Que bosta de vida me esperava.
        O telefone tocou e eu fui atender Seu Evaristo, perguntando como
eu estava; tive vontade de dizer "uma merda" mas respondi  "inteiramente
recuperada". Ele, ento, disse que faria  uma  festa  de  aniversrio  e
contava com a minha presena. Sem  pensar,  respondi  que  iria,  e  ele
comentou que seria o melhor presente com que poderia sonhar.  Desliguei,
enquanto ouvia mame brigar baixo com o passarinho. Ela se pla de  medo
de que Wilma tenha um troo. O telefone voltou a tocar. Quem seria?
        Jos Jlio, com voz do alm. Jos  Jlio?  Para  me  contar  que
Aurora morrera. De qu? No  perguntei.  Deve  ter  sido  de  uma  coisa
esquisita... Humm, que horror.. Ento, perguntei pela sua mulher  Mansa,
no , Jos Jlio? Havia muito se fora, respondeu. Queria  filhos,  mas,
como no engravidara nesse tempo de relacionamento, mdicos, consultas e
espermogramas sem fim, deixara-o para tentar sua realizao como me  em
outra relao. Eu disse que  lamentava  por  tudo  e  quase  contei  que
continuava  meu  priplo  de  encontrar  satisfao  sexual,  at  ento
infrutfero, mas continuava a am-lo. Mandei um beijo para  ele  e  para
Bianca,  e  caso  precisassem  de  mim,  eu  estava    disposio.  Ele
agradeceu, desligou, e mame voltou  sala  perguntando  por  que  tanto
tocaram para a nossa casa.
        - A ex-mulher de Jos Jlio morreu.
        -Quem!?...
        - O rapaz com quem um dia casei respondi.

142

        - Ah, ...murmurou  ela,  arreganhando  o  lbio  inferior  para
baixo.
        O comentrio s pode ter sido para me destratar.. maltratar..

        Me deitei, e, depois de rolar na cama, sonhei com raios;  vinham
de todos os lados, mortferos, tentando dizimar a populao.  Eu  corria
pelas ruas acompanhada de pessoas que gritavam,  tentando  se  esconder,
mas os raios se desprendiam de todos os lados, at que um me alcanou, e
eu, tingida de prpura, morria, mas, antes de  exalar  o  expiro  final,
perguntei, e no sei quem respondeu, onde estava o meu amor.





143




        13



        Acordei decidida a me entregar a seu Evaristo. Era o
                que  iria  fazer,  cedo  ou  tarde  as  coisas  tm   de
acontecer, e ele aguardava havia muito tempo; era  justo,  esperara  pra
caramba. Se bem que eu tinha muito medo do  que  poderia  acontecer.  Me
apaixonar, por exemplo, no sentir nada, outro exemplo mais terrvel, ou
ainda, descobrir coisas inusitadas. No sei por que essa idia me passou
pela cabea...
        Ainda tomava caf, imaginando como  seria  a  cena  da  entrega,
quando Nina irrompeu porta adentro soluando. No  esperava  nem  entrar
para chorar. Enquanto ela catava mame  dentro  do  apartamento,  eu  me
imaginava tomando champanhe (se bem que no gosto,  mas  como  gosto  de
lcool, qualquer um serve); depois, quando estivesse bem tonta,  tontona
mesmo, me despiria diante de seus olhos ardentes, rotativos,  aflitos  e
famintos, e estava resolvida a questo, finalmente. J  tentara  demais,
debalde (recentemente tinha aprendido com Lili),  em  vo.  Me  levantei
avisando  a  mame  que  chegaria  tarde,  enquanto  Nina   me    olhava
lacrimejante, dizendo que se mudaria para o  convento  prximo    nossa
casa. Estava a um passo de voltar de vez. Contou que no  fora  possvel
mais suportar a relao com Srgio. Ele continuaria em Santa  Teresa,  e
seus santos seriam outros; no, no ha
145

veria santo, e sim o Lama. Mame ziguezagueou as sobrancelhas,  mas  no
emitiu um som. E eu me despedi das duas,  dizendo  que  precisava  sair,
comprar uma roupa pra mim.
        Quando voltei, Nina j tinha ido embora, mas em  compensao  me
esperava outra carta de Dad, que em hiptese alguma  eu  leria  naquela
hora.  Estava  a  fim  de  namorar  meu  vestido  novo  e  pensar    nos
complementos. Suti, fora de cogitao, claro. Ele gostava de peitos (me
lembrei da cena do  desmaio  no  escritrio),  Jos  Jlio  no  ligava,
engraado, para ele era como se no existissem, e olha que so  enormes.
Mame, quando viu a roupa nova, elogiou a combinao, mas disse que hoje
em dia parecia ter sado inteiramente de moda. E eu disse a ela que  era
um  vestido-vu,  cor  marfim,  que  modelaria  meu  corpo  de    formas
voluptuosas, abruptas, salientes e  gostosas.  Ela  se  retirou  para  o
quarto murmurando que no queria ouvir indecncias.
         tarde, fui ao cabeleireiro para evitar  perder  as  impresses
digitais; fiz  luzes  na  juba,  depilao,  pintei  as  unhas  de  roxo
cintilante, e quando  a  noite  chegou,  sa  disposta  a  uma  aventura
alucinante. Quando mame me viu pronta,  perguntou  aonde  eu  iria  nua
daquele jeito.  A  um  aniversrio,  respondi,  e  ela  avisou  que  no
dormiria. Invocaria papai, e ele certamente aguardaria a minha  chegada.
Lili apareceu e disse:  fogo!, e tornou a sumir.
        Sa pelas ruas ouvindo freadas; assim que  os  carros  me  viam,
diminuam  a  marcha,  e  de  repente  eram  muitos,  praticamente    se
engavetavam pela orla.  Eu  caminhava,  tendo  ao  lado  um  squito  de
mquinas algumas

        146

buzinavam,  outras  piscavam  faris  enquanto  seus  donos  assobiavam,
gesticulavam, chamavam. E eu seguia em frente, em direo a uma colossal
noitada.
        Quando adentrei o  breu  da  casa  de  seu  Evaristo,  ele  veio
solicito me cumprimentar, mas onde seus  olhos  aflitos?  Pouco  depois,
percebi que se depositavam numa moa lvida, tez clara, ossos salientes,
parecendo adoentada, claro. Pero cmo diabl os?
        Os garons circulavam com as fltes de champanhe, e  eu  resolvi
beber, bebida pra mim tem  mltiplas  funes:  alegrar,  fazer  chorar,
dormir, esquecer...
        Desfilava pela sala. Taas depois, vi um  grupinho  conversando.
Um deles contava que, um dia, um qumico francs viera ao  Rio  e  havia
permanecido durante meia hora com um sapato suspenso  na  mo,  tentando
colocar o cadaro diante de um auditrio...
        -  Era  o  Sr  Barbant!-  Me  meti  na  conversa,  soltando  uma
gargalhada.
        Seu Evaristo me olhou, nos lbios um sorriso de  satisfao?  Em
seguida, aproximouse, porque queria me  apresentar  a  seu  colaborador:
Jorge. Colaborador? Rapaz frio e bonito,  olhos  secos  e  calculadores.
Outros rapazes, que eu no conhecia, volta e meia se  aproximavam  e  me
diziam  graas  idiotas,  e  as  mulheres  me  olhavam  despeitadas    e
assombradas.
        - Perto de voc existe gente que no se contm de inveja,  fique
alerta!
        Por que Susie tinha dito isso? Precisava me alertar mais  ainda?
Depois de dizer aquilo, ela se afastou, indo

147

conversar com outras pessoas. De longe, piscou o Olho pra mim.
        Resolvi telefonar para mame, me entristecer mais  um  pouco.  
impressionante, seu tom de voz me anquila, nem  preciso que diga muita
coisa. Desliguei o aparelho quase me arrastando; fui direto me servir de
mais um copo.
        No final da festa, a sala esvaziou - at Susie tinha ido  embora
-, quando notei a ausncia de seu Evaristo, e do  legume  ao  seu  lado.
Fiquei ouvindo msica, e o tal Jorge  minha frente. Perguntei  por  seu
Evaristo, o rapaz disse que dera um  pulo  l  dentro  mas  voltaria  em
instantes. Ficamos frente a frente com um  som  alto  vibrante.  Ele  me
olhava, eu volta e meia o encarava, e ele sustentava  o  olhar.  Passado
algum tempo daquele "olhos nos olhos", comeou a tocar um tango e eu  me
levantei, dizendo que iria ao banheiro. Onde  o toalete, perguntei. Num
pulo, o rapaz estava ao meu lado, e pondo a  mo  na  minha  cintura  me
conduziu  corredor  afora;  pensei  que  daramos  incio  a  uma  dana
vertiginosa, mas, diante do banheiro, cessou a colaborao. Me sentei na
privada  e  fiz  xixi  escutando  rudos  estranhos  que,  de   repente,
tornaram-se vozes, e a de seu Evaristo destacou se. Transava com a  alma
penada que eu vira na sala.
        Sa do banheiro, percorri o corredor e no vi mais O tal  Jorge.
Atravessei a sala inundada de msica, encontrei a porta da casa aberta e
fui embora.
        Mas que caganitas de noite, pensava, chutando  as  pedrinhas  na
rua, em meio aos faris, buzinas, freadas e piadas, nem tonta eu estava.

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        Mame abriu a porta sorridente por  me  encontrar  razoavelmente
sbria, e tambm pelo fato de eu ter chegado cedo. Quis puxar  conversa,
mas eu disse que o aniversrio tinha sido uma bosta. E ela comentou  que
parecia que eu s gostava quando chegava em casa tocada. Sem dvida. Fui
me deitar sem dar mais uma palavra, e a  carta  de  Dad  na  cabeceira,
esperando ser aberta.

        No dia seguinte, mal as batidas na  porta  se  anuncia  ram,  me
levantei e continuei muda. O telefone tocou e mame  atendeu,  largou  o
aparelho dizendo que um tal Z queria falar comigo.    uma  tristeza...
Jos Jlio me convidando para tomar uma cerveja com ele.  Eu  disse  que
iria trabalhar e depois daria uma passada em sua casa.  Mame  perguntou
com quem eu iria me encontrar. Com a perereca da  vizinha,  respondi.  E
ela disse que deixaria de falar comigo. Mal sabia o  favor  que  estaria
prestando
        Abri a carta de Dad antes de sair  para  o  trabalho.  Mais  um
flagrante que no deu certo? Acho que porque Dad no enxerga,    mope
ao ltimo grau. Demorei dias para  responder  a  sua  carta.  J  estava
enjoada de tantos arredores de motel.

        Seu Evaristo no apareceu no trabalho, devia estar em outro Meio
do Cu. Quando terminou o expediente, fui  casa de  Jos  Jlio.  Assim
que o vi, notei seus olhos molhados, os meus  lacrimejaram  em  seguida.
Perguntou pela minha vida, contei (no em detalhes) a dificulda
149

de que estava encontrando, e ele se  queixou  de  solido.  Bianca  fora
morar com os avs, e depois da partida de Aurora,  e  da  outra,  que  o
deixara por falta de beb, sua vida estava uma merda. Nos  abraamos  no
meio da sala e choramos. Havia um calor no  choro,  no  abrao,  que  eu
jamais havia sentido com algum. Passamos a  noite  trocando  desgraas.
Outra merda, essa, mais sentida, doda, infelizes vidas as nossas.  Bem,
acabamos tentando uma,  digamos,  relao  sexual,  outra  infelicidade,
essa, conhecida. No comentei nada, porque, positivamente,  se  encontro
havia em minha vida, era com a porra da alma de Jos Jlio. Que  inferno
de merda. Sa trpega de sua casa, desejando tudo de bom que algum pode
querer a outro e segui ladeira abaixo. Como a minha vida.

        Abri a porta, e a chefe de trfego da  casa,  me  inspecionando,
disse que eu estava bbada. OK, respondi,  batendo  continncia,  e  ela
tomou um susto com a aceitao do porre.
        Dias depois, seu Evaristo pisou no escritrio. Passou pela minha
mesa dizendo  que  precisava  esclarecer  alguns  assuntos,  que  eu  me
apresentasse no gabinete assim que  pudesse.  No  final  do  expediente,
entrei em sua sala, e ele disse que queria  apresentar  suas  desculpas,
havia sido pouco lisonjeiro de sua parte ter me deixado  na  sala  e  se
retirado no final do aniversrio, mas, infelizmente, aquela moa que  eu
vira precisava dos seus  cuidados.  Agora,  no  entanto,  se  encontrava
livre, desimpedido, e me pedia uma ltima chance. Olhei longamente  para
ele e disse:

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        - No seas maricn.
        - Repita!
        Senti un tem blor por todas las piernas.
        - Nojento, ardiloso, peonhento, mudei o xingamento.
        Tirando um pigarro, ele disse que eu tinha razo, me fizera  uma
desfeita e entendia perfeitamente, caso eu  recusasse  o  convite.  Pedi
licena e sa.

        Encontrei Nina em casa, vestida de monja, esquisitssima, ela  e
um outro sujeito. Partiam para uma recluso de  vinte  dias  de  orao.
Mame, adepta de  todas  as  religies,  ficou  contente  por  Nina  ter
encontrado a paz. E a abenoou. Nina partiu, nem partiu, porque a  bosta
do convento era a quadra e meia de nossa casa.

        Me lembrei que ainda no tinha escrito para Dad. Fui responder
        Irm: Sugiro que corte os culhes de Hermano para que nada  mais
brote daquele corpo infame e diablico. Sua irm, puta da vida.





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14


- O  temporal  que  desabou  sobre  o  Pio  acarretou  uma  situao  de
calamidade pblica. Desabamentos, desastres e perturbaes no sistema de
locomoo. A prefeitura faz um apelo  populao para que se  apresentem
voluntrios que ajudem no servio de desobstruo de ruas e  remoo  de
escombros.
        Mame, com a  televiso  aos  berros,  assistia  ao  noticirio,
quando me viu arrumada ao seu lado.
        - Vai sair!? No ouviu o que est acontecendo na cidade?
        - Vou prestar minha colaborao.
        Depois contei que tinha um jantar da firma.
        - Vai ser cancelado.
        - Quem vai cancelar, voc?
        Ento, vendo que no me demoveria da idia, ela fez um  discurso
a partir do que escutara na televiso,  digno  de  um  novelo.  Depois,
apelou para o de sempre, com novidades para os meus ouvidos  acostumados
 cantilena.
        - Seu pai no consegue ascender, apesar de querer,  porque  est
preocupado com voc; no fosse por isso, a alma dele no estaria vagando
pela terra esse tempo todo, j teria encontrado descanso e paz.
        No dei uma palavra, mas tive vontade de dizer: interessante.

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        Antes de eu sair, mame andava de um lado ao outro e de  vez  em
quando espiava a chuva pelo vidro da janela, senti que ainda iria falar:
        - Vou pedir ao esprito do primo Manoel que a acompanhe!
        Bati a porta. Era demais!
        Quando  passei  pela  portaria,  divisei  a  calamidade.  At  o
porteiro,  que  jamais  diz  uma  palavra,  no  mximo   responde    aos
cumprimentos,  olhos  grudados  como  sempre  num  aparelho  mnimo   de
televiso  preto-e-branco,  perguntou  se  eu  iria  sair.  Sim  senhor,
respondi. Abri o guarda-chuva, empurrei  o  porto,  e  em  pouco  tempo
chapinhava pelas ruas, enquanto no cu escapavam relmpagos por todos os
lados. Apesar de la borrasca senior, no permitas  que  nada  arruine  mi
pelo...
        Um tor. Alm de tudo, ventava, e  logo  de  sada  a  merda  do
guarda-chuva ficou do lado avesso duas  vezes  seguidas,  e  eu  grudada
nele. A casa de seu Evaristo, uma delas, porque  parece  que  ele  ocupa
vrios lugares em diferentes pontos da cidade, ficava do outro  lado  do
Corte de Cantagalo. O tal apartamento da Lagoa. E tombava chuva  grossa.
Quando dobrei  a  primeira  esquina,  o  trnsito  estava  todo  parado,
engarrafados e a rua que eu tinha que atravessar, inteiramente  alagada.
Nesse instante encharcado, um rapaz surgiu ao meu lado.  Parece  que  os
homens no usam guarda-chuvas, mame conta que papai dizia que s servia
para que se perdesse. Nisso, ouvi a voz do rapaz perguntando se eu  iria
atravessar. Eu disse que sim. Ele contou que sua casa tambm  ficava  do
outro lado do Corte. A chuva escorria

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pelo seu rosto enquanto ele falava, e, apesar da capa,  ele  pingava  de
alto a baixo; breve eu estaria daquele jeito.
        Continuamos os dois olhando para a outra lagoa que se formara  
nossa frente, tomando coragem. Nesse momento, ele disse se chamar  Luiz,
e se eu quisesse, depois de  alcanarmos  a  Lagoa,  poderia  fazer  uma
horinha em sua casa. Os carros buzinavam, dessa vez  para  eles  mesmos,
enquanto avalivamos o melhor trecho para a travessia.  Uma  merda.  Meu
vestido colara-se ao corpo, as pernas e os ps inundados.   exceo  de
ns dois, nao havia ningum a p pelas ruas, as pessoas  se  encontravam
trancafiadas dentro dos carros ou nas portarias de edificios e bares. Um
dilvio. Ao alcanarmos a parte debaixo do Corte, o rapaz que  eu  nunca
tinha visto me pegou pelo brao e disse, vamos, e comeamos  a  subir  a
cascata. Assim que nos  lanamos  nas  guas,  tive  metade  das  pernas
afogadas, enquanto fazia um esforo medonho para no perder  os  sapatos
na correnteza. Ao aportarmos do outro lado, ele voltou a perguntar se de
fato eu no queria ir at sua casa esperar dar uma estiada. Eu disse que
me esperavam para jantar, no poderia faltar.
        No fosse o programa a que tinha me proposto,  iria,  mas  dessa
vez estava decidida a ter uma baita noitada. Ento, tirando um carto do
bolso, o rapaz disse que, caso eu  mudasse  de  idia,  aquele  era  seu
endereo. Enfiei o papel dentro da bolsa. Nos  despedimos,  e  eu  o  vi
correndo; mesmo no breu, deu para  ver  que  era  alto,  magro  e  tinha
cabelos encaracolados, a  chuva  escorria  dos  seus  cachos.  Gosto  de
caracis em cabelos masculinos. Continuei meu priplo, e a  porcaria  do
guarda-chuva volta e

155

meia queria ir com o vento, e eu agarrada  s  varetas  da  salvao.  
medida que eu andava, sentia  meus  ps  pesados  de  lama,  os  sapatos
rangiam, em que situao eu chegaria naquele apartamento...
        Prximo  casa de seu Evaristo,  vi  que  no  daria  mais  para
seguir, a no ser a nado. Aquela altura, at a calcinha estava empapada.
No mnimo, os deuses da chuva conspiravam contra ns. Fazendo marola por
onde passava, me  aproximei  de  um  bar  cheio  de  curiosos  na  porta
apreciando a enchente e os  imbecis  que  resolveram  se  aventurar.  No
interior do bar, uma televiso ligada noticiava a intervalos regulares a
catstrofe. Perguntei no balco se havia telefone.  Com  m  vontade,  o
portugus fez surgir o aparelho e o  destrancou  com  uma  chavinha.  Eu
disse que no me demoraria, precisava dar notcias  minha me. Ele  mal
ouviu o que eu falei. Mame perguntou como eu tinha  conseguido  chegar,
com tudo inundado. No tinha conseguido, respondi, falava de um bar. Ela
dizia que a televiso no se cansava  de  noticiar  a  desgraa  que  se
abatera sobre a cidade. Perguntou como eu sairia de onde me  encontrava.
Nas costas de um turista noruegus,  respondi.  Ela  disse  que  eu  no
fizesse graa, porque papai avisara que os espritos estavam  em  fria.
Eu no disse nada; quando mame entra nesse assunto, silencio; ela sabe.
O portugus me olhava de banda, segurando um  palito  entre  os  dentes.
Devia achar que eu estava demorando, e estava. Impossvel  falar  rpido
com mame. Ela perguntou como eu sairia  dali,  precisava  de  um  banho
quente seguido de lcool no

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corpo; estando no meio da rua, pegaria uma gripe medonha e,  quem  sabe,
uma pneumonia. Avisei que iria para a casa de uma colega perto  de  onde
me encontrava, breve estaria em casa.  Ento,  antes  de  desligar,  ela
disse que no passava bem. O que voc tem? perguntei, e a palma  da  mo
do portugus estalou em cima do balco. Dores  difusas,  ela  respondeu.
Mandei que tentasse localizar; assim  que  pudesse,  voltaria  a  ligar.
Quando desliguei, olhei para baixo  e  havia  uma  poa  sob  meus  ps;
melequei o bar do homem, logo na entrada... Perguntei se podia dar outro
telefonema, seria rpido, jurei, antes falava com minha me,  expliquei,
inclinando a cabea. O portugus fez  um  glissando  com  o  palito  nos
dentes. Liguei para o Luiz, estava em  comunicao,  fiquei  aguardando.
A, pensei que at ento no sara nenhum tiroteio no  bar.  Outro  dia,
uma bala perdida dentro do bar perto da minha casa atingira  um  fregus
que comprava uma caixa de fsforos. Disseram que a mulher aparecera  num
instante chorando e dizendo que por causa de uma  msera  Fiat  Lux  seu
marido ficaria para sempre na  escurido.  Nesse  momento,  o  portugus
perguntou se eu ainda usaria o aparelho. Sim, respondi, e voltei a ligar
para o Luiz, que atendeu e disse: Mrcio?  falei  que  era  eu,  e  ele,
pedindo desculpas, disse: Gilda,  viva!  Viva?  Era  o  caso.  Voltou  a
repetir que sua casa estava s ordens, me esperaria  na  portaria,  para
que eu no ficasse nem mais um minuto na chuva.
        - No disse que era rpido?...lembrei ao galego.
        E a simpatia lusitana cobrou os dois telefonemas  e  desapareceu
com o aparelho.

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Vi o Luiz atravs do vidro do  prdio,  era  mais  bonito  seco  do  que
molhado. Ele abriu a porta e repetiu o  "viva"  (to  bom  ser  recebida
assim...). Disse que seria melhor que eu tomasse um banho, caso  no  me
importase de vestir uma de suas roupas. Mas hoje em dia  todo  mundo  se
veste igual, no  mesmo?, disse, sorrindo, subindo as escadas na  minha
frente, de dois em dois degraus. Em seu edificio no havia elevador.  Me
lembrei do apartamento do Jardim Botnico, onde eu tinha morado com Jos
Jlio, era escada  dia  e  noite.  Mal  entramos,  avisei  ao  Luiz  que
precisava dar um telefonema, me esperavam para jantar.
        - Mas minha bela sereia no vir do fundo do mar? perguntou  seu
Evaristo.
        Prometi a ns outra noitada. Acho que ele  no  ficou  chateado,
no sei. Nunca mais saiu da minha cabea o que Susie dissera a  respeito
dele: vingativo.
        Enquanto estive no telefone, Luiz tinha escolhido um  CD.  Havia
uma estante coberta deles, ps Erick Satie  para  tocar  Depois,  quando
voltou a falar no banho, aceitei o oferecimento. Enrolada na toalha,  me
penteava, quando vi sobre a bancada da pia uma  cala  com  elstico  na
cintura, uma camisa aflanelada  xadrez  e  sandlias  havaianas.  Quando
apareci na sala, estiquei o brao e me apresentei: Luiz. Ele  sorriu,  e
eu nunca tinha visto ningum sorrir daquela maneira,  a  boca  se  abrir
devagarinho, os olhos irem se apertando, acompanhando  o  movimento,  os
dentes pouco se mostrando. Me aproximei dele  e  agradeci.  Ento,  Luiz
perguntou, esfregando as mos, o que eu gos
158

taria  de  comer,  me  apresentaria  sua  despensa.  Um  homem   alegre,
sorridente, cozinhando s pra mim?...
        Luiz fez  uma  carne  com  bouquet  garni.  Durante  o  preparo,
explicou que eram vrios verdes envolvidos numa gaze: organo,  alecrim,
tomilho, folhas de manjerico, louro e um dente de alho.    medida  que
enumerava, apontava; deve  ter  percebido  que  eu  desconhecia  folhas.
Enquanto a carne cozinhava, ps uma massa no fogo.  Uma  vez,  h  muito
tempo, mame pediu que eu desse um pulinho no minimercado  para  comprar
couve para a feijoada. Quando ouvi a voz do vendedor perguntando  o  que
eu queria, respondi: couve  mineira, e as  velhas  que  se  encontravam
fazendo compras abafaram risinhos, e o homem apontou um  balco  repleto
de verdes  minha frente. Fui embora de mos vazias, e mame  disse  que
esperaria Nina chegar, porque ela conhecia os alimentos. Luiz  perguntou
o que tanto eu pensava, respondi,  "bobagem";  enquanto  ele  tinha  uma
garrafa de vinho entre as pernas, tentando abri-la.  Disse  que  era  um
reserva especial, bem gostosinho.  mesa, quando foi me servir do vinho,
eu disse que no gostava, ele franziu a testa, e voltou   cozinha  para
pegar uma Coca-Cola. Aos poucos, comentaria minhas preferncias pesadas.
Quando terminamos a refeio, ele disse  que  aquele  prato,  bem-feito,
chamava-se boeuf bourguignon.
        Ficamos ouvindo msica at altas horas, e a cada CD  Luiz  fazia
uma introduo. Mais tarde, quando nos debruamos na janela para  checar
o tempo, no havia mais uma  gota  despencando  do  cu.  Eu  disse  que
precisava ir, e ele me acompanhou  portaria; quando me

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virei de frente para agradecer  e  combinar  a  entrega  da  roupa,  ele
perguntou se podia provar meu sorriso. Tive a  sensao  de  ter  ouvido
alguma coisa parecida antes, enquanto sua  boca  engolia  a  minha.  Nos
beijamos durante nao sei quantos minutos, e  s  descolamos  Porque  uma
senhora queria sair do prdio com o cachorro. Prometemos um ao outro, no
encontro seguinte, um brinde ao temporal.
        Sa tonta de l, e no tinha tomado pingas.  Ser  que  eu  iria
gostar mais do Luiz do que de Jos Jlio? Ser?

        Cheguei em casa e encontrei mame sentada na Poltrona, com a mo
no peito,  queixando-se  de  falta  de  ar.  No  conseguia  se  deitar.
Perguntei se tinha ligado para seu parente, ela disse que  sim,  que  j
havia tomado o remdio que ele recomendara,  e  no  dia  seguinte  tinha
consulta. Nisso, Lili apareceu na sala dizendo que ele e  mame  estavam
virando fsseis. Quando fui me dirigir a ele, j ia longe  no  corredor.
Mame perguntou por que eu estava vestida daquele jeito.
        - Onde foi parar seu vestido, a correnteza levou?
        No respondi, disse apenas que iria acompanh-la at seu quarto.
E mal virei as costas, mame ressonava.

        Um tubaro corpulento, com os traos de seu Evaristo, se postara
no convs de uma lancha. Sentado  no  banco  alto,  atrs  do  leme,  me
convidava para dirigir. Si entend bien: la cosa es as: me voy a  joder
entera. De acuerdo. Transmitindo que teramos uma viso completa de tudo
que nos cercava, me circundou com suas na
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dadeiras, enquanto o vento batia, embolando  meus  cabelos.  Exalava  um
cheiro forte a boca do tubaro. Nesse momento,  avisando  que  aprumaria
minha garupa, e afastando minhas ndegas, me cravou as bandarilhas. Ol!
gritei.  medida  que  ramos  varridos  pelas  ondas,  suas  barbatanas
discutiam  com  cavalos-marinhos,  crustceos  e  estrelas-do-mar.   Num
circuito de muitas horas, o monstro marinho me lanava    superfcie  e
depois  me  fazia  descer  s  profundezas,  lentamente,  me    rodando,
martelando, variando, enquanto nossos corpos se  emaranhavam  nas  algas
que coordenavam esforos para danar um ch-ch-ch. Sbito,  comecei  a
desprender bolhas, e o tubaro prosseguia no  compasso  das  ondas,  num
vaivm flutuante interminvel, saltando mares, quando,  de  repente,  um
tremor se espalhou pelo meu corpo, dando lugar a espasmos;  gesticulando
tentculos, gritei:- Dis! Dis!
        - Felizmente voc est chamando quem vai te salvar, filha!
        - Puta que pariu!
        Mame saiu instantaneamente do quarto; pela primeira vez isso me
acontece e ela corta desse jeito... ainda  sentia  uns  espasmos  fracos
quando ela fechou a porta. Vou morar sozinha!

        No  caf  da  manh,  mame  perguntou  por  que    eu    estava
mal-humorada. No iria dizer que ela havia cortado a trepada, a nica na
qual chego  ao  fim.  Nada,  respondi;  ela  ento  perguntou  se  eu  a
acompanharia ao

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mdico. Em seguida, emendou na falao. Disse  que  estava  pensando  em
comprar uma  canarinha  para  Arnaldinho  acasalar.  O  que  eu  achava?
Respondi que teramos a cantoria dobrada,  mas  na  verdade  pensei  que
seria ele o nico da famlia a trepar.  Ela  continuou  falando:  Queria
aproveitar a ida ao mdico, porque, prximo ao  consultrio,  havia  uma
casa de aves. Se eu ajudaria a escolher a Beatriz.
        - Por que esse nome?...
        Ela disse que seria uma homenagem  cachorrinha de sua  av  que
fora engolida por um jacar, e que  eu  no  olhasse  para  ela  daquele
jeito, porque sua av morava numa fazenda que tinha um lago com  jacars
e carpas.
        - Jacar no come carpa?
        Mame disse que no continuaria a conversa por diversos motivos,
mas o principal  que estava apertada para ir ao banheiro fazer xixi.
        Estvamos de sada, quando Nina apareceu, sem o hbito,  dizendo
que fora expulsa do convento. Todas as palavras fungadas,  claro.  Antes
que perguntssemos a razo, contou que ela e  o  tal  monge  passaram  a
noite juntos. Retiro o que pensei a respeito da famlia que no trepa. A
santinha se enclausurara para isso.
        Perguntei a mame se  no  preferia  que  Nina  a  acompanhasse,
durante o trajeto conversariam, e ela concordou. Liberada, felizmente.
        As duas saram e eu  fui  ao  quarto  pegar  a  roupa  do  Luiz.
Enquanto a dobrava para guard-la numa sacola, O  telefone  tocou  e  eu
escutei a voz dele do outro lado  da  linha:  serena,  grave,  modulada,
calma. Por segundoS fi
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camos sem assunto, depois ele me convidou para um cinema seguido  de  um
jantar. Si, si, como no, hermoso que el viento me ha traido, oh, bendita
iluvia, calies que inundaron nuestros corazones, gracias!

        Antes de sair para me encontrar com Luiz, chegou outra carta  de
Dad, mas no abri, j sei que atirou em Hermano, pronto.
        Na semana seguinte, Dad  chegou    nossa  casa,  com  armas  e
bagagens. Conto depois. Muito mais interessante falar do  que  acontecia
comigo e com Luiz. Que banho providencial. Que fantstico temporal!





163





15


Enquanto esperava a hora de me encontrar com o Luiz, vez  por  outra  um
raio riscava meu crebro: o que seu Evaristo poderia  fazer  comigo?  Me
mandar embora, despedir, sim, mas no procederia dessa  maneira,  idias
malvolas habitavam  sua  cabea.  Fatalmente  me  encaminharia  para  a
calamidade. Se bem que me mandar embora seria de uma maldade nica,  eu,
que tenho me, tio e passarinho para cuidar. Ele j devia saber do Luiz,
sabia  tudo  que  acontecia  na  minha  vida.  Devia   ter    contratado
farejadores. A porta da frente se abriu, mame  chegava  do  mdico  com
Nina. Esquecera a canarinha, felizmente, menos  uma  cantoria  em  casa.
Antes de se sentar, apoiando-se nos joelhos, contou, quase sorrindo, que
estava com insuficincia coronariana.
        - Isso  motivo para voc estar feliz?
        - Mas quem est feliz?perguntou, franzindo a testa.
        -Voc!
        - Eu?!
        - .
        Nina achou melhor no discutirmos, porque  mame  no  podia  se
aborrecer. Pelo visto, somente eu posso me aborrecer nesta casa.  Wilma,
 o que se sabe, poupada de tudo. Mame, que  acorda  com  as  galinhas,
chegou ao

165

cmulo de andar  na  ponta  dos  ps  para  no  atrapalhar  o  sono  da
empregada.
        Lili, assim que a viu entrar,  correu  para  o  quarto  Para  se
vestir. Enquanto mame estivera no  mdico,  meu  tio  tinha  ficado  nu
dentro de casa, gesticulando sem parar.
        Fui me arrumar, a segunda-feira estava chegando, e  no  trnsito
dos meus pensamentos eu imaginava seu Evaristo passando pela minha mesa,
mandando que eu o seguisse e, depois de entrarmos no  seu  gabinete,  me
encarando no fundo dos olhos me esbofetearia vrias vezes e, em seguida,
arrancando minha roupa, treparia comigo at me deixar desfalecida  sobre
sua mesa de trabalho.
        Dada passara um telegrama dizendo que em breve estaria em  casa.
Na nossa. Enquanto os homens saem, desaparecem, as mulheres  voltam  pra
casa. J tnhamos Nina, choraminguenta. Srgio sumira, sem deixar pista,
carregando inclusive os ingredientes dos pes, e o monge expulso  parece
que fora rezar no Tibete. Dizem, ningum viu absolutamente nada, o  fato
 que Nina suspirava por ele, contou que ningum podia  imaginar  o  que
era transar com um homem de saias, de perder o ar, comentou, abraada  a
uma almofada e atirando a cabea pra trs. Pedi que no continuasse, no
iria dizer que sobre o assunto eu conhecia apenas em sonho, assim  mesmo
nico.

        Desde  sua  volta,  Nina  resolvera  harmonizar   nossa    casa.
Transform-la em fonte de energia positiVa segundo

166

ela. A comear pela entrada, onde pendurou um espelho sobre a porta para
que refletisse o shar. Ningum sabia do que se tratava. Pendurou  tambm
flautas de bambu em fitas vermelhas pelo teto da sala. Tudo  isso,  para
amenizar a energia negativa; sem contar com os cristais espalhados  pela
casa. Resultado das inovaes: pulos de Lili atrs da porta,  certamente
tentando se ver no espelho, cabeadas nas  flautas  de  bambu,  alm  do
tempo que fica hipnotizado diante dos cristais. Mas mame diz  que  Nina
deseja nosso bem. Est bem.

        Fomos, Luiz e eu, assistir  a  Gaba  ret,  reprise  com  a  Lisa
Minelli. Mame disse que eu no perdesse, ela era to boa artista quanto
a me. Nem perguntou quem me acompanharia. Quando  jovem,  mame  queria
ser cantora e atriz, mas o pai a proibira. No era  meio  que  uma  moa
prendada, de famlia, freqentasse. Cairia na vida. Mais  tarde,  ao  se
casar, sonhou ter uma filha artista. Deu no que deu: Dad, vive   custa
do marido; Nina,  uma pobretona, salva pela  religio  e  ns  aqui  de
casa; e eu, tenho um bom salrio, no posso me queixar, mas trabalho num
ambiente escroto, onde a todo momento querem  nos  derrubar  numa  cama,
banheiro, mesa, qualquer superficie serve; abatidas em qualquer lugar.
        Bem. Ao filme. Mal consegui ver  a  cara  da  artista,  escutava
apenas as msicas, porque os lbios  de  Luiz  se  colaram  aos  meus  e
praticamente s desgrudaram quando as  luzes  se  acenderam.  Na  sada,
estava com a boca dormente, mas o corao pinoteava de alegria...

167

        Ser que desta vez vou ser feliz? Ser?
        Em  frente    portaria,  Luiz  e  eu  nos   desatracamos    com
dificuldade. Assim que entrei, mame suspendeu as sobrancelhas, querendo
saber se eu gostara do filme, e eu fui salva por um telefonema. Salva  e
perdida, Porque uma voz dizia que eu estava dispensada  por  uma  semana
das atividades no Meio do Cu. Voltariam a entrar em contato  comigo  em
breve. Bem que Susie  tinha  dito  que  seu  Evaristo  era  vingativo...
Pronto, estava desempregada; bela merda.
        Mas por que no explicaram e  sequer  se  identificaram?  Liguei
para Susie para saber se tambm a submeteram  a  esse  descanso.  Tinham
acabado de ligar para sua casa, ela disse.
        - Provavelmente esto fazendo obras na sala...
        Susie  dona de uma inteligncia estreita... No s o II tamanho
 de pnei...
        Bem, frias durante uma  semana.  Aproveitaria  para  fazer  uma
visita a Jos Jlio. Testar meus sentimentos,  tentar  no  fazer  outra
burrada. Liguei para sua casa, ele ficou contente ao  ouvir  minha  voz,
disse que estava com  saudades,  e  eu  adiantei  que  tinha  novidades.
Marcamos de nos encontrar  noite, ps-sebo. Jos  Jlio  continuava  no
mesmo apartamento, acostumara-se s escadas.
        Antes de eu sair de casa, no dia seguinte, mame perguntou aonde
eu iria:
        - Vou me esbaldar!
        No mais ouviria o desprezo de mame por Jos Jlio.

168

        - V l como chega, hein?... Lembra que eu estou doente...
        Ouvi sua voz com a porta fechada.

        Acho que nunca reparei tanto em Jos Jlio como naquela noite, a
ponto de ele perguntar que tanto eu o olhava.  Saudades,  disse,  e  ele
ficou to contente, coitado... Depois de  muita  observao,  cheguei  
concluso que amava o Luiz, e acabei contando a  Jos  Jlio  sobre  meu
namorado. Ele ficou arrasado... me lembrou aquele rapaz, como era  mesmo
o nome dele?... Aquele que dissera que  uma  mulher  tinha  roubado  seu
passado... Esqueci, completamente.
        - Por acaso voc vai dizer que roubei seu passado?
        -Hein?
        Ningum entende essa frase...
        - Nada, eu disse.
        Jos Jlio murmurou que acabara de perder a ltima pessoa de sua
vida. Eu disse que no ficasse daquele jeito, logo  eu  apareceria  para
uma trepada.  Ele  contorceu  a  boca  num  sorriso,  fazendo  uma  cara
horrvel.  No  devia  ter  dito  isso,  tinha  falado  para  alegrar  a
despedida. Nunca fui to infeliz numa visita...

        Ao chegar em casa, mame disse que queria me contar  uma  coisa.
Sim, respondi, me sentando; sei quando os relatos  vo  se  alongar,  os
trejeitos os antecipam: mos nos cabelos, alisar de roupa, muxoxos.
        - Lili deixou de falar com Arnaldinho!
        Sequer movi uma pestana. Ela continuou:

169

        - No estado em que me encontro, sem poder fazer esforo, pedi  a
ele que limpasse a  gaiola  de  Arnaldinho  que  fizera  uma  verdadeira
imundcie. Wilma no est passando  bem  -  disse  a  ltima  frase  aos
sussurros, como se a outra fosse ouvir do quarto -, servio  feito,  seu
tio virou a cara para o passarinho. Mas parece que  uma  atitude  muito
comum; Idalina contou que  uma  amiga  sua  no  se  dirige  ao  prprio
cachorro h meses.
        Ao terminar, perguntou se eu no ia dizer nada.
        Silenciei.
        - Ah!... ia me esquecendo... Sua colega  Susie  quer  falar  com
voc com urgncia...
        - E voc me conta essa besteirada toda?... berrei.
        Ela sumiu da minha frente.
        Enquanto eu apertava as teclas do aparelho, pensava no porqu da
urgncia. Assim que ouviu minha voz, Susie sussurrou  que  seu  Evaristo
tinha sido preso. -Preso!?
        Por qu? Perguntei. Ela disse que era melhor  que  eu  lesse  os
jornais.
        Corri at a banca. Antes de bater a  porta,  escutei  a  voz  de
mame perguntando que correria era aquela.  Desenfreada,  ainda  a  ouvi
dizer. Gritei que j voltava.
        Virei o jornal de cabea para  baixo,  fazendo  barulho  com  as
folhas e no encontrei notcia alguma. O jornaleiro me olhava, acho  que
havia notado a perturbao. Voltei no mesmo p em que fui, correndo.
        Ao entrar em casa, fui direto para o telefone ligar para  Susie.
Mame perguntou que agitao era aquela. No

170

respondi. Susie, voz em falsete, no sabia como eu  no  tinha  visto  a
notcia... Contou que seu Evaristo fora chamado para prestar  depoimento
a partir de denncias de casos  de  seduo  sexual  (baixou  o  tom  de
falsete) seguidos do desaparecimento das vtimas. A moa que  passara  a
noite com ele no  fora  localizada.  Mas  ela  achava  que  tudo  seria
esclarecido.  Defendendo  o  bandido...  Pudera.  Disse  que   precisava
desligar.
        Quase gritei no meio da sala. A essa altura, poderia  ser  eu  a
fodida desaparecida!... Esse sujeito nunca me  enganou,  sou  uma  burra
muito esperta...
        Em seguida, o telefone tocou.  Roddy.  Queria  conversar,  falar
sobre seu Evaristo. Eu disse que estava ocupada com minha me, em  outra
hora conversaramos. Desliguei. No quero mais saber se esse homem trepa
ou no, quero que se estrepe, como parece que finalmente aconteceu.

        Tive vontade de contar tudo a mame, ela no diz que eu acho que
os homens esto atrs de mim? Quer  dizer,  no  fosse  o  aguaceiro  (o
alucinado pressgio), a essa altura estaria estuprada. Muerta,  a  causa
de ias atroces sevicias dei patife... Mame no estava na  sala;  quando
cheguei prximo  porta de seu quarto,  encontrei-a  deitada,  plida  e
trmula. Perguntei o que estava acontecendo, e ela no sabia dizer o que
sentia. Perguntei se era frio, ela respondeu que no. Ento  peguei  sua
mo e ficamos as duas tremendo. Depois, comecei a chorar, e tambm  ela.
Ela comentou baixinho que no  sabia  por  que  chorava,  se  eu  sabia,
perguntou, eu disse que sim, e como.

171

        O telefone tocou, e Wilma deu-se ao trabalho de aten  der,  veio
avisar, com cara de quem ia ter um troo, que  era  pra  mim.  Pedi  que
fizesse um pouco de companhia a mame enquanto eu veria quem  era.  Jos
Jlio, se desculpando pelo  passado.  "Voc  tinha  razo,  o  cara  no
presta,  um canalha, um..." Interrompi Jos Jlio,  dizendo  que  mame
no passava bem, falaramos depois mal  do  crpula.  Jos  Jlio  tinha
conseguido encontrar a notcia?
        Voltei  para  perto  de  mame,  e  Wilma  saiu  se   arrastando
propositalmente para chamar ateno, mostrar que tambm ela passava mal.
Nisso, Lili apareceu, deu uma olhada em mame, voltou a sumir e retornou
nu, e assim ficou, danando e cantando na sala.
        - Nina, onde est?
        Mame respondeu que ela fora at sua ex-casa pegar um banquinho.
S ento me lembrei de perguntar pelo parente, ela disse que devia estar
chegando. Nesse momento, a campainha bateu e... Dad entrou! Foi  direto
para o quarto de mame, j com olhos cheios d'gua,  dizendo  que  viera
para ficar. Mame, pegando as  mos  de  Dad  e  chorando  sobre  elas,
perguntou por que ela voltara. Olhei de lado para  minha  irm  e  pedi,
baixo, que contasse depois.
        - Por que est tremendo, mame? perguntou Dad.
        E ela respondeu que no sabia, enquanto ouvamos a voz  de  Lili
na sala cantando upa upa upa cavalinho alazo". A campainha tocou e  eu
fui atender. Era o parente

172

seguido de Nina segurando um banquinho. O banquinho,  depois  eu  soube,
era do Joozinho, o nome do filho que Nina e Srgio no tiveram;   cada
histria horrvel... Nina dizia que tinha perdido a chave, e  o  doutor,
parecendo ter sido exumado, entrou no quarto de mame  dizendo  que  ela
estava com boa aparncia, melhorara desde a  ltima  consulta.  Mandando
que se sentasse, ouviu suas costas, pedindo que ela tossisse.
        Quando o macrbio saiu, disse para ns trs na  sala  que  mame
estava bem  mas  seu  quadro  inspirava  cuidados.  Esperava  acertar  a
medicao, e entregou a receita em  nossas  mos.  Esperava  acertar?...
Anunciando que estava de sada, apertou a mo de cada uma de  ns  e  se
foi. Nada perguntamos e nada comentamos depois.
        Entrei no quarto e mame  perguntou,  a  mim,  por  que  a  todo
momento seus culos se embaciavam. Acha que eu tenho resposta para tudo.
Eu disse que talvez fosse o bafo que exalava quando dos cochilos. Apesar
de  no  ter  gostado  da  resposta,  ela  comentou  que  considerava  a
explicao correta.

        Mais tarde, fiquei durante uma hora conversando no telefone  com
Luiz; trocando preocupaes. As minhas, com mame e  trabalho,  a  dele,
unicamente com a arquitetura. Luiz  arquiteto e, segundo ele,  est  na
fase da vazante, so inmeras, tirava seu sustento de dois  imveis  que
os pais deixaram, e aquele em que morava era prprio.  Perdera  os  pais
fazia muito tempo, era rfo. Tinha  por  famlia  exclusivamente  a  si
prprio. Achei o mximo encontrar algum assim...

173

        Luiz pensava em montar um  pequeno  restaurante  na  serra,  sua
ascendncia era francesa, mas ele era craque em chucrute. O fato   que,
apesar de todo esse blablabl eu me borrava de medo do prximo  convite,
seria inevitvel irmos para a cama, e se no horizonte estivesse um  novo
desastre e eu ficasse reduzida a  quando  os  sonhos  me  brindassem?...
Desligamos com o compromisso  de  nos  vermos  no  dia  seguinte,  outro
cinema, quem sabe?

        J ia me deitar, quando o telefone tocou, e felizmente fui eu  a
atender. Algum do outro lado dizia ter sido informado  de  que  eu  era
funcionria antiga do Meio  do  Cu;  assim  sendo,  podia  responder  a
algumas perguntas  sobre  seu  Evaristo.  Respondi  que  sim,  mas  pelo
telefone e com a garantia de que no seria identificada, caso a  matria
fosse publicada. Ento, a pessoa perguntou se  em  algum  momento  desse
longo perodo seu Evaristo me importunara.
        - De forma alguma, sempre foi muito respeitoso, um cavalheiro. O
que o medo faz...
        Mesmo assim, no dia seguinte saiu no jornal que a  recepcionista
do Meio do Cu no poupara elogios ao ex-diretor.
        As semanas se passavam e eu no recebia nenhuma notcia. Vez por
outra, Susie e Roddy ligavam, mas ningum conseguia  nenhuma  informao
nova. At que um dia, Susie ligou cedo, para contar que havia sado  uma
nota no jornal. As acusaes sobre seu EvaristO no

174

foram confirmadas, adiantou ela. "Eu no disse?" - comentou  em  tom  de
triunfo. No levei a conversa adiante.
        E a moa que a famlia levara para So Paulo? E a  da  noite  do
chuvaru? Ah!... e a enfermeira  do  edificio  no  Jardim  Botnico  que
exagerara na dose?... Assunto encerrado? Processo arquivado?
        Pronto, o predador ativo e que se desloca com agilidade estava 
solta.





175



16

Luiz e eu quase trepamos no cinema. Quase. Quando as luzes se acenderam,
foi uma movimentao danada: sobe  calcinha,  abaixa  saia,  puxa  fecho
clair... Estva- mos to convulsionados que no conseguimos  emitir  um
som. Quando ele conseguiu falar, props irmos para o seu apartamento. Eu
disse que teria que  voltar.  Apesar  de  mame  estar  acompanhada,  eu
precisava me certificar de  que  ela  estivesse  bem.  Ele  se  despediu
dizendo que eu fizera uma  expresso  preocupada,  beijou  entre  minhas
sobrancelhas, depois pediu que eu desse um sorriso para  que  ele  fosse
contente para casa.
        Estou quase acreditando que desta vez vou ser feliz, s falta  a
experincia final, que, se Deus quiser, com ele vai dar certo. Isolei na
parede do elevador, me lembrando em seguida que era de  frmica,  bosta!
Abri a porta de casa com  o  p  virado  para  cima,  batendo  na  sola,
felizmente mame no apareceu para perguntar o que eu fazia.
        O telefone tocava e ningum atendia,  e  devia  ter  pelo  menos
cinco pessoas l dentro. Se bem que campainha e  telefone  no  so  com
Wilma, cansa muito atravessar a sala. Lili, no  breu,  tambm  no  quer
saber de ser importunado.  Minhas  irms  conversavam  no  quarto,  Dad
rememorava as fugas de Hermano, e Nina ouvia,  atenta.  Mame  dormia  a
sono solto, televiso ligada, culos no

177

peito e, no sei por qu, descabelada. Tirei o fone do gancho:
        -  Dona  Gilda,  quero  lhe  agradecer  pela  declarao  a  meu
respeito; alis, no poderia esperar outra coisa, vinda da senhora...  Bati com o telefone na voz do crpula.
        Depois fiquei muda, pasma... aquele vigarista,  assassino,  sim,
devia ter comido e matado aquele legume, j estou fazendo confuso,  no
era aquela, e sim a moa que ficara no meu lugar de recepcionista,  como
era mesmo o nome dela?... Patrcia!...
        Mame devia ter acordado, porque  escutei  o  som  de  sua  voz.
Quando entrei em seu quarto,  ela  conversava  com  papai.  Esperei  que
acabasse, no gosto de me meter nessas coisas. s vezes ela pede que  eu
d uma palavrinha, mas em todas desconverso.
        - Checho, tenho uma notcia que vai alegr-lo, acho que em breve
estaremos juntos... No vai dizer nada?... Mas estou vendo um sorriso no
regato dos seus lbios... Lembra que foi a primeira declarao que  voce
me fez: "Surpreendi um sorriso no regato dos seus lbios".  lembra,  meu
bem?
        Quando me viu, mame disse que papai estava de sada:
        - Calmo, sereno, tranqilo, carinhoso. -  E  o  que  eu  queria,
perguntou. Tambm perguntei:
        - Por que est descabelada desse jeito?
        Ela achava que Lili tinha estado no quarto e passara  a  mo  em
seus cabelos, mas no tinha certeza, porque

178

tambm achava que cochilara. Em seguida, contou  que  tivera  outra  dor
daquelas, no meio do peito. Perguntei por que no chamara  suas  filhas,
ela respondeu que conversavam no quarto, no tinha querido atrapalhar.
        - E Wilma?
        - No tem andado bem, preocupada com a minha sade,  coitada,  
uma moa muito sensvel...
        Contratamos uma empregada para no incomod-la.

        Luiz quis conversar a srio comigo. Conversas como essas  deviam
ser proibidas entre as pessoas, causam um profndo  mal-estar  ao  serem
anunciadas.
        Sentamo-nos em um dos bares da Av. Atlntica. Copo no copo,  ele
comeou a falar; queria saber por que eu sempre arranjava  uma  desculpa
para no transarmos. Saa sempre excitado dos  nossos  encontros  e  no
conseguia atinar com o que acontecia. Eu no gostava mais dele?  Cortei,
rpido. Disse que, com minha me doente, no havia  clima.  Simplesmente
isso.
        Ficamos  de  mos  e  pernas   entrelaadas,    observando    os
transeuntes.  Depois  de  alguns  chopes,  ele  perguntou  quando  seria
possvel acontecer algo entre ns.
        - Acontecer est acontecendo, Luiz, s no estamos fodendo.
        Mame diz que de vez em quando eu tenho um palavreado  horrvel,
mas  quando os outros entendem... Luiz no disse  mais  nada,  nem  eu.
Voltei  para  casa  e,  de  fato,  encontrei  mame  mal.   O    parente
encontrava-se  sua cabeceira, e Nina e Dad  no  quarto.  Me  arrependi
horrivelmente do chope, de ter ficado naquela bobeira.

179

        A mmia achou conveniente internarmos mame para que ela fizesse
exames. Nos entreolhamos, e como nenhuma de  ns  entende  de  medicina,
concordamos. Avisamos a Wilma e a Lili, que se agitou no  quarto,  devia
estar pelado; a qualquer transtorno maior, tira a roupa.  Passando  pela
rea, vi o passarinho encolhido a gaiola.
        Na sala, o fantasma balbuciava ao telefone: "Uma ambulncia, faz
favor." Nina estalava os dedos dos  ps,  encarapitada  na  poltrona,  e
Dad, mos na cabea, olhava fixo para o assoalho, calculo  que  contava
os tacos. Nisso, a campainha tocou, fui abrir a Porta para dona  Idalina
(blush beterraba nas bochechas), que passou reto por  ns  e  entrou  no
quarto de mame. No se disseram uma palavra, o aparelho  estava  sumido
havia dias. Dona Idalina escreveu num pedao de  papel  que  mame  iria
ficar boa, j tinha feito promessa para Santa Edwiges (mas no  a santa
dos aflitos e endividados?), e enquanto mame estivesse no hospital, ela
iria contratar a menina que trabalhava na casa de sua cunhada  para  dar
uma busca, tinha certeza de que, quando  voltasse,  o  aparelho  estaria
esperando por ela. Cruzou de volta a sala, apertando o casaco de  l  no
corpo e se benzendo.

        O telefone voltou a tocar:
        - Dona Gilda, por favor...
        Bati com o fone no gancho. De novo a perseguio.  Minhas  irms
perguntaram que tantos enganos eram aqueles. Eu disse que o nosso nmero
parecia com odos

180

bombeiros, depois emendei que a ambulncia devia estar chegando. E  elas
desandaram a catar coisas dentro de casa.
        Ao  chegarmos  ao  hospital,  deixamos  mame  com  Nina,    que
certamente preferia passar a noite em claro a dormir sozinha.
        Quando voltei, tive a grata surpresa de saber que Wilma  anotara
um recado pra mim; que eu me apresentasse no dia seguinte, no horrio de
sempre, no Meio do Cu. Agradeci, e Wilma disse que devia ser uma beleza
de lugar, e eu nada comentei; havia tempos a empregada se rendera    f
de mame. Um dia, mame tinha comentado que ficara muito feliz ao  levar
mais um cabritinho para junto do Senhor. Teria sido esse o bicho?...

        Pela manh, escutei um barulho de gua vindo da rea.  Encontrei
Nina no tanque lavando, no sei o qu, no dava para ver. Perguntei como
havia deixado mame; bem,  respondeu,  depois  disse  que  viera  embora
porque Dad tinha chegado ao hospital. Perguntei o que lavava.
        - A pedra do sol. Tem que ficar sob a gua corrente para retirar
todo o sal. Afasta a melancolia e  indicada para quem perdeu a  vontade
de viver.
        Escutei a voz de Lili:
        - Deixa ela!

Voltei ao trabalho. Em p, dentro do nibus apinhado, entre  passageiros
espremidos e arrancadas do moto
181

rista, senti um promontrio roando em mim, me  pressionando  por  trs.
Instantaneamente, meu corpo deu sinal de turbulncia.
        - Que desconforto passam os vivos, no , dona Gilda? - A voz do
animal furioso, bandido feroz, macabro, hidrfobo. Quase gritei.  Sempre
de tocaia, impressio nante.
        - A vida  um aperto, no  mesmo?
        Achava que eu me dirigiria a ele? Saltamos no mesmo ponto,  e  o
maligno caminhava ao meu lado.
        - O que est havendo, dona Gilda, no vai me dirigir a  palavra?
Aborrecida por causa do terrvel engano? Peo que  no  tire  concluses
precipitadas...
        Entramos no prdio. No sei como soltam  um  elemento  desses...
Estaria voltando ao trabalho?? Subimos no mesmo elevador. Mas, graas  a
Deus, assim como veio ele se foi,  sumindo  pelos  corredores.  Tenho  a
impresso de que um dia ainda me abrao com o Redentor.
        Ps-encontro com o animal selvagem, cheguei ao escritrio,  e  o
novo chefe se apresentou. Alto, porte ereto, cabelos e barba  castanhos.
Devia ter por volta de quarenta anos, e nem um fio de cabelo branco,  ou
seria daqueles que arrancavam os que apareciam? Sr. Medeiros,  um  homem
comum, desses em que se tropea na rua a todo  momento,  insignificante.
Foi gentil comigo, amvel, e disse que, em caso de  dvida,  eu  poderia
consult lo. No seria o inverso?
        Expediente findo, seu Medeiros pediu que eu me  apresentasse  em
seu gabinete. Ao entrar, notei as feies transtornadas e a  mudana  de
cor. Ele me fez uma srie

182

de perguntas idiotas enquanto me observava,  depois  pediu  que  eu  lhe
desse uma mozinha: ajudasse a fechar a ltima gaveta, que achava  estar
um pouco empenada. Me desculpei, mas disse que estava atrasada para  ver
minha me no hospital. Sa quase correndo da sala. O que  queria  aquele
filhote de lagartixa? Passar a mo na minha bunda?

        Do trabalho, fui direto para o hospital, tinha que correr mesmo,
render o planto de Dad, que devia estar cansada de ficar  naquele  fim
de mundo. E um lugar medonho,  a  comear  pelos  elevadores,  funcionam
quando querem, e so dois, mas raramente conseguem chegar ao trreo,  os
botes para cham-los rodam  enlouquecidos;  quando  finalmente  baixam,
marcam o nmero quatorze;  uma esculhambao. Mame  se  encontrava  no
dcimo quinto andar, eu j tinha descido as escadas  vrias  vezes,  mas
subir, s se eu pretendesse me hospedar Alm de estar com as mos sempre
ocupadas, porque no h jeito de mame engolir  a  comida  do  hospital.
Quando  a  enfermeira  aparece  com  a  bandeja,  ela  a  manda   embora
instantaneamente, no se interessa nem em ver o  menu.  Parece  que  tem
razo, porque outro dia dona  Idalina,  em  visita,  resolveu  provar  e
cuspiu. E um horror... Isso, sem contar com as  enfermeiras,  dificlimo
aparecerem, no sei onde se escondem, porque no  posto  tambm  no  so
encontradas; ento, quem estiver com  mame  tem  que  levant-la  (est
pesando horrores) e transport-la ao banheiro. O parente faz questo que
ela urine e defeque no vaso. Assim se expressou.

183

Minha coluna, com a qual raramente posso contar, foi para o  brejo.  Faz
parte tambm da excurso ao banheiro o soro,  que  a  acompanhante  deve
carregar; o porta-soro estacionado ao lado da cama no possui rodinhas e
pesa  bea. Enfim, tarefa para poucos, como no nosso caso, poucas.
        Cheguei ao quarto depois de  meia  hora  na  fila  do  elevador,
quando j havia um incio de motim na recepo. Assim que  entrei,  Dad
sussurrou no meu ouvido que mame estava afundando.  O  mdico  dissera.
Corri em direo  cama e encontrei-a de olhos fechados. Perguntei  como
estava:
        - Voc  voc, ou mais algum?
        Dad voltou a  sussurrar,  dizendo  que  mame  no  mais  fazia
conexes. Nesse instante, ela disse que queria fazer xixi; teve incio a
operao  levantamento.  Mesmo  assim  toquei  o  boto,   chamando    a
enfermeira, que, miraculosamente, apareceu, devia ser nova na casa. Trs
pessoas para levarem uma velhinha para fazer xixi.
        Findo o iamento, Dad se despediu, dizendo-se morta.
        Depois que mame se aquietou, parecia dormir, resolvi ligar para
o Luiz, dar notcias, mas, sobretudo, ouvir sua voz. Pela  primeira  vez
na vida a voz de um homem me acalmava. Luiz atendeu ao  primeiro  toque;
assim que eu disse al, ouvi mame resmungando:
        - Nem no hospital voc larga o telefone...
        Pronto, conectada, contei ao Luiz, que entendeu em parte  o  meu
alvio, porque eu no mencionara a desco
184

nexo anterior. Tive a impresso de que ela estava acordada mas no quis
saber com quem eu falava. Quando desliguei, me  deu  vontade  de  contar
sobre o Luiz, mas mame ressonava de boca aberta. Me deitei no  sof  de
plstico,  a  iluminao  fria  batendo  nos  olhos,  e  tive  um   sono
instantneo. Acordei logo depois com o meu ronco, ou  teria  sido  o  de
mame? Acho que voltei a dormir, porque algum me  perguntava  como  era
alecrim em ingls. Quando a enfermeira entrou e acendeu  um  luzeiro  na
minha cara, quase digo: Rosemary!
        Mame 'murmurou qualquer coisa, e eu, trpega, exausta, abri  os
olhos para o dia e, ainda teria que trabalhar.
        Mais tarde, chegou Nina, tambm aos cacos; o passarinho piara  a
noite inteira, ela estava at com medo de que os vizinhos reclamassem.
        - Pobre Arnaldinho...disse mame, e nos entreolhamos, e eu falei
com mame que achava bom ela voltar  para  casa,  pois  se  arriscava  a
acabar com as trs filhas naquela temporada.
        Fui embora aos tombos; tentando no encontrar o crpula e atenta
ao discpulo que entrara em seu lugar.

        Aps a dobradinha planto-trabalho, cheguei em casa.  Assim  que
entrei, Dad perguntou por que eu estava daquele jeito.
        - Farrarespondi, depois disse que iria  me  deitar  durante  uma
hora, s me chamasse em caso de incndio ou morte. Dad voltou a  fechar
os olhos, espichada no

185

sof, exausta do planto da vspera, e eu desmaiei na cama. No antes de
pr o despertador para tocar, jantaria na casa do Luiz mais tarde.

        No deveria ter ido,  sabia  que  chegaramos  quela  situao.
Praticamente nus,  no  sof,  entusiasmado  com  o  meu  corpo,  Luiz  o
elogiava, debruado ativamente sobre  mim,  quando  desandei  a  chorar.
Interrompendo a movimentao, ele perguntou o que estava acontecendo,  e
eu respondi:
        - Minha me.
        Ele ficou em silncio, alisando meus  cabelos,  desmontando  seu
teso.  Depois,  vestiu-se  devagar,  desanimado,  e  disse    que    me
acompanharia at em casa.
        - No  m vontade, juro! disse eu, abraando-o na porta.
        E assim terminou a cena da no-trepada.

        Entrei e encontrei Lili sentado no breu da sala, gaiola no colo,
cantarolando para o passarinho. Acendi o abajur, e parando  sua  frente
disse que mame logo estaria em casa. Lili  saiu  abraado    gaiola  e
trancou-se no quarto. Fui ver onde estava Dad.  Emborcada  na  cama  de
mame.





186


17



Luiz  perguntou  quando  iramos  transar.  Homem  quando  encasqueta...
Respondi que assim que mame melhorasse. Ele aceitou, quer  dizer,  teve
de aceitar, mas senti que se convencera. Sempre desculpam quando se fala
em me, no lembro quando fiz essa descoberta. Deve ter  sido  na  poca
das provas escolares, quando mentia  bea. Voltando ao teso  do  Luiz,
eu disse que at a data da recuperao de mame no voltaria  sua  casa
- evitar que as latinhas de cerveja subissem  e  borbulhassem.  Essa,  a
nossa conversa dentro do cinema, triturando amendoins, enquanto a sesso
no iniciava.
        Na manh seguinte, mame sairia do hospital, no comentei com  o
Luiz, porque ele podia achar que ela ficara boa. Nessa noite, o  planto
era de Nina. Dad se refazia em casa, acho que  muito  do  estresse  ela
tinha trazido da Flrida. Dormia sem parar.
        Depois do filme, e de dividirmos uma pizza, Luiz  me  deixou  em
casa. Devia ser por  volta  das  dez,  eu  precisava  dormir  cedo  para
enfrentar a manh seguinte. Abri a porta devagar,  para  no  acordar  o
passarinho, Nina disse que era um martrio a  piao.  Devia  estar  com
saudades de mame. A luz do abajur acesa, e a casa  em  silncio.  Dad,
capotada, quando no est cuidando de mame, dorme  em  qualquer  lugar.
Contou que em uma tarde dessas tirara um cochilo dentro  do  nibus,  em
p;

187

certamente amparada por ombros alheios. Lili, tranca do,  e  o  canrio,
quieto. Fui ao banheiro descala e no escuro; voltei, deitei,  e  quando
danava num campo de azalas, a bosta do telefone tocou; puta!
        - Dona Gilda, estou lhe telefonando para me despedir...
        Mas no vai me deixar em paz?... O dio era tanto,  que  ouvi  o
telefonema, j que me acordara e ao  passarinho.  Ele  contava  que  seu
mdico recomendara que passasse uma  temporada  fora  do  pas.  Eu  no
acreditava que me veria livre dele... Devia ser outro golpe, mais  baixo
ainda, para me foder de vez.  um sujeito  programado  para  a  maldade.
Antes de embarcar, disse que gostaria de se despedir de mim. Impossvel,
respondi ao patife, em seguida desejei boa viagem e  bom  canrio,  isso
porque tinha escutado o diabo do bicho desembestado na rea. Lili tambm
acordara, ouvia seus murmrios no quarto. Fui  ao  banheiro,  entupi  os
ouvidos com algodo, e me joguei na cama, tentando encontrar o campo das
flores. Quais? Azalas lembrei.

        Uma  operao  como  poucas,  trazer  mame  de  volta;    quase
precisamos de uma  grua.  Luiz  nos  emprestou  a  caminhonete,  grande,
espaosa, de carregar material quando havia  trabalho.  Mame  no  quis
saber quem era ele, pensava se tratar de  um  chofer  qualquer;  a  cada
momento que eu tentava apresent-lo,  ela  fazia  uma  pergunta:  "Minha
bolsa veio?" "Esqueceram a chave de casa?" Apesar de estar bem, mame se
encontrava torta, adernada, mais um pouco beijava o cho. O mdico dis
188

se que esse era outro problema: coluna.  Herana  e  tanto.  Mame  teve
alta, com a recomendao de se alimentar apenas de grelhados  e  folhas;
acho que faria as refeies  com  Arnaldinho.  No  hospital,  no  foram
poucas as vezes em que perguntara por ele. Achava que eu iria  solt-lo,
alm de apoquentar Wilma e maltratar Lili. Tudo isso ela pensa de mim.
        Ao abrirmos a porta, o telefone tocava e  evidentemente  ningum
atendia. Corri, e quando pus o fone de volta no gancho, ela  quis  saber
quem era.
        - Perguntaram se era o Oswaldo - respondi.
        Antes de  sairmos  do  hospital,  seu  parente  fez  questo  de
informar que o problema de  mame,  alm  de  clnico  e  cardaco,  era
circulatrio e neurolgico. Teramos que consultar outros especialistas,
porque ele era cirurgiao. Quer  dizer,  cuidara  de  minha  me  a  vida
inteira,  agora  que  a  coisa  fodera  tinha  resolvido   escolher    a
especializao? Bela bosta. De onde eu tiraria dinheiro para todas essas
consultas?

        Fui fazer contas; na  passagem,  peguei  dona  Idalina  tentando
enfiar o aparelho no ouvido de mame. E ela reclamando. Na verdade, dava
o troco do dia em que mame atochara o aparelho nela.
        - Mame no precisa escutar nada agora - eu disse.
        A ttulo de ajuda, quantas maldades se praticam...
        Dona Idalina ficou sem graa, e mame disse que no  queria  que
eu mandasse sua amiga embora.
        - Mas quem est mandando ela embora!?

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        Ela escutara porque eu tinha berrado, escutaram, melhor dizendo,
porque o aparelho se encontrava nas mos de dona Idalina.
        Sa do seu quarto e  fui  pedir  ajuda  s  minhas  irms.  Nina
meditava, sentada no cho da sala, e ainda quis que eu a acompanhasse...
e Dad, deitada no sof, abriu um olho dizendo que tirava um  cochilo  e
dentro em pouco estaria novinha em folha.
        Como eu mal sentia o corpo, resolvi ir  casa  de  Luiz.  Estava
com saudades. Esperei as duas acordarem, uma da meditao,  a  outra  do
sono, e avisei que iria  casa dele, mas deixaria o telefone.
        Depois de duas msicas, meia dzia  de  latinhas  de  cerveja  e
inmeros beijos, meu corpo acordou. Iniciamos  a  sesso  tortura,  Luiz
pedia, implorava para que fizssemos amor, j estava  rouco,  quando  se
excitava perdia a voz; novidades  da  cama.  O  sexo  deixa  as  pessoas
loucas... falo por mim,  um desarranjo, um  destempero,  uma  avalanche
descomunal. Sbito, me levantei, deixando seu peru apontado para o teto;
em  seguida,  ele  se  levantou  atrs  de  mim;  desandei  a    chorar;
completamente fanhoso, ele dizia:
        - Esquece sua me, meu bem, esquece...
        Chorei mais alto ainda, enquanto  seu  peru  declinava  a  olhos
vistos. Deixei-o desanimado, desapontado, decepcionado,  arrasado.  Tudo
isso, porque me cagO de medo de que entre ns no d certo...
        Ainda vou me dar mal, o dia em que eu disser sim,  bem capaz de
ele no conseguir, haja vista experincias

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anteriores. Alm disso,  possvel que contraia uma disfuno ertil,  o
ginecologista diagnosticara o  distrbio  de  Jos  Jlio,  coitado.  Eu
pensava nessas coisas enquanto xingava as caladas; estava de saltos, na
bica de quebrlos,  uma desgraa a despavimentao dessa cidade...

        Cheguei em casa e encontrei mame  estirada  no  cho  da  sala.
Corri gritando em direo a  ela,  que,  com  esforo,  abriu  os  olhos
(dormia?), dizendo que cara subitamente. Assim,  sem  mais  nem  menos,
estava muito bem, e tibum.  Lili,  murmurando  palavras  desconexas,  me
ajudou a levantar mame e a lev-la para a cama. E  Dad,  onde  estava?
Tinha dado um pulinho na rua, para fazer  uma  comprinha,  disse  mame.
Quando acorda, vai ao shopping. E Nina, por onde anda? Em  recluso,  no
stio de uma amiga. Perguntava por elas enquanto discava para o parente.
A voz soturna disse que em instantes estaria em nossa casa.
        Tentei saber um pouco mais sobre o tombo. Mame disse  que  fora
relativamente simples. Escutara uma  trovoada,  se  lembrara  que  Wilma
estava de folga  (como  se  a  empregada  se  ligasse  em  intempries),
levantara-se para dar uma espiada na janela da sala e assim  que  pisara
no carpete, bumba, estendera-se no cho. Nesse  momento,  perguntei  que
novidade era aquela: tibum, bumba.
        - Eu disse essas coisas?...
        - Disse.
        - Ora.
        Ora. Bem, mame continuou contando sobre o  momento  em  que  se
escarrapachara. Tinha certeza de no

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ter sido empurrada e de no ter tropeado em nada, at porque  na  nossa
sala h pouco no que trombar: um sof com mesa ao lado e uma poltrona em
frente ao aparelho de tev. Ela faz questo que assim  seja,  porque  h
anos teme a cegueira total (dela e a de Dad, no se  cansa  de  repetir
que uma tatarav no enxergava), ento pe  venda  nos  olhos  e  treina
todos os dias s apalpadelas caminhar pela sala. Ultimamente  anda  meio
esquecida, ainda bem.
        O parente chegou. Com um pouco de tosse;   mdico  e  fuma  sem
parar. Parece que baixou hospital vrias vezes sem conseguir respirar. A
mulher, dizem, cansou de ir ao convento de Santo Antonio, mas at  agora
nada. Seria melhor que tentasse o santo das causas perdidas,  cujo  nome
acabei de esquecer.
        Depois de um minucioso  exame  e  alguns  acessos  de  tosse,  o
veredicto: mame no poderia mais ficar sozinha. Teria que contratar  um
pessoal especializado. Perguntei o que ele queria dizer  com  isso.  Uma
equipe de enfermagem, respondeu, guardando o estetoscpio, depois  virou
as costas, indo embora.
        Liguei para o Luiz, agitada. Desliguei o  telefone  mais  calma,
porque Luiz tinha dito que as coisas no ficam do jeito que esto  (acho
que pensou tambm em causa prpria); de qualquer forma, ouvir sua voz me
serenou um pouco. Lili e Arnaldinho piavam na rea de maneira desconexa.
Fui ver  mame;  estava  quieta,  deitada,  olhos  fechados.  Quando  me
aproximei, perguntou:
        - Adivinhe o que estou fazendo?
        - O qu?

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        S tenho pacincia com mame quando ela est na bica de  morrer,
depois passa.
        - Palavras cruzadas; mentalmente.
        Repeti o que o mdico dissera, que ela precisava de companhia.
        -EoArnaldinho?
        A pacincia voou pela janela. Eu  disse  que  iria  me  informar
sobre enfermeiras.
        Voltei a fazer contas, como se com isso o dinheiro espichasse.
        O telefone tocou. Corri, no dava mais  para  contar  com  mame
para atender telefonemas.
        - Dona Gilda?...
        Mas esse avio no levantou vo?... Que diabos esse homem  ainda
queria comigo?
        - A viagem foi adiada para daqui a dois dias, durante esse tempo
a senhora aceitaria um jantar?
        - Com licena- Desliguei e nem respondi.

        Tive que masturbar o Luiz. Tive. Horrvel, de  contar  e  fazer,
alm do mais dentro de um cinema assistindo a um faroeste. De  uma  hora
para a outra ele entrou em uma espcie de estertor rouco,  se  contorcia
pedindo que eu o fizesse; o revlver do ator e o peru do Luiz  na  mesma
Posio, apontados para o alto, prontos para disparar; do jeito que  ele
se encontrava, no conseguiria voltar para dentro das  calas  de  forma
alguma. O pior foram os sacolejes finais, quando Luiz chutou a Poltrona
da frente, e a mulher olhou para trs; ra
193

pidamente, atirei minha bolsa em seu colo, e ele soltou um grito.
        Fim da sesso de masturbao e de tiros por todos os lados.

        Cheguei  do  bangue-bangue  e  encontrei  um  vozerio  em  casa;
balbrdia  instalada.  Ningum  conseguia  comunicar  o    que    estava
acontecendo, andavam de um lado para o outro, aflitos;  mame  soluava,
Lili gritava, e nenhum deles contava o que se passava. At Wilma  estava
agitada, na hora da sua sesta.
        Resolvi me alvoroar tambm:
        - Algum pode me dizer o que houve? gritei.
        Nina, em posio de ioga, no meio da sala, disse que o canarinho
fora encontrar sua luz.
        Arnaldinho tinha morrido. Fui constatar;  triste  um  passarinho
estendido no cho da gaiola. J havia flores ao redor. Em prantos, mame
dizia que queria saber quem envenenara seu canarinho. Eu disse que  isso
acontecia aos cachorros, no s aves.
        -  o que voc pensa... ela  respondeu,  fungando.  Lili  tomara
vrios calmantes, e no entanto continuava a gritar,  alto.  Na  verdade,
mistura de pio e grito. Nesse momento, mame proclamou em voz  alta  que
no enterraria Arnaldinho. L ele ficaria at no  restar  uma  peninha.
Alm do mais, enterrando depressa no havia tempo de a  alma  chegar  ao
corpo.
        - Ela sai pra passear? perguntei, e ela se fez de surda, e muda.
        Que fedor viraria a nossa casa...

194

18

        Demorei a sair por causa de mame. Passada a agitao, as  dores
voltaram. Voltei a ligar para o parente. Ele passou uma medicao  extra
em funo da morte do passarinho. Contei, claro. E quando ele  perguntou
pela equipe de enfermagem, quase respondo que  estava  num  torneio,  em
breve chegaria. Mas disse que aguardvamos a chegada  de  uma  moa.  Na
verdade, Dad ficou esperando, porque Nina no mais saa das meditaes,
alegando que todas eram para mame; duvido que no pense  no  colega  de
saias.
        Deus permita que  eu  no  encontre  o  predador  pelo  caminho,
pensava, andando em direo  parada de nibus, quando uma mo  estourou
no meio do meu peito, e o pivete dizia, quieta, quieta, e  num  arranco
levou meu colar. Abri a boca:
        - Moleque filho da puta!gritei, enquanto via suas pernas finas e
ruas saltando entre os carros.
         isso, por todos os rinces desta cidade.

Antes de sair do trabalho, telefonei para casa.  Dad  disse  que  mame
estava bem, sentada na poltrona e fazendo palavras  cruzadas.  Ela  quis
saber com quem Dad conversava, e Dad disse que era comigo.  Aproveitou
e perguntou como  era  criaao  de  demiurgo,  entre  parnteses  estava
escrito Plato. Essa eu tive que pensar. Lem
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brei das aulas do rapaz de mos  espatuladas.  Cosmo!  quase  gritei.  A
filosofia servira para alguma Coisa... Pelo visto,  mame  melhorara,  e
muito. Perguntei pela enfermeira. Dad disse que era boazinha,  mas  no
sabia aplicar injeo. Na verdade, era  acompanhante.  Dad  esperava  a
minha Chegada e a de Nina para resolvermos.
        Liguei em seguida para o Luiz, e ele foi me buscar no  trabalho.
De l, seguimos para conversar e comer alguma coisa.  Quando  comecei  a
contar como iniciara o dia, Luiz  me  olhava  olhos  cados  e  aguados,
esfregando minhas mos. Fingi que no notava  a  excitao  instantnea.
Continuei falando do puto que rebentara a mo nos meus peitos  e  levara
meu colar. Luiz quase babava, como se eu estivesse contando histria  de
sacanagem. Quando acabei, disse que ele no tinha  prestado  ateno  em
nada do que eu havia contado; se eu  quisesse,  repetiria  cada  uma  de
minhas palavras, respondeu. Falei que nao  precisava,  depois  perguntei
por que estava epilptico daquele jeito.
        - Epilptico?
        - No sabe o que ?
        - A nica coisa que sei  que eu quero transar  com  voc!...  disse, me puxando pelos braos.
        -  No  d!...  Voc  sabe  disso  perfeitamente!  respondi,  me
desvencilhando da agarrao.
        Inclinando a cabea, e sorrindo de boca torta, ele meteu  a  mo
entre as minhas coxas.
        - Pra! J disse!... Que coisa... Parece que no entende!
        Ficou quieto.

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- Voc no sabe conversar sem pensar em trepar?... Respondeu que  sabia,
mas no comigo.
        Propus jogarmos o  jogo  da  velha  nos  guardanapos,  s  assim
pensava em outra coisa. Ele sorriu e me chupou a boca. Poxa.

        Ao passar pela entrada do prdio,  o  porteiro  me  entregou  um
lindo vaso de orqudeas, entre elas um carto. "Fui atrs de rosas  para
comemorar a chegada do seu aniversrio, mas elas ainda dormiam.  Aguardo
a suprema alegria de jantarmos antes do meu embarque. Evaristo."
        Mas era possvel uma coisa dessas? Como  que o maldito sabia do
meu aniversrio? Ahn... na ficha da empresa, claro!  Minha  vida  estava
toda ali, em suas mos.
        Entrei  em  casa  com  as  flores,  e  Dad  comentou  que  Luiz
caprichara. Mame continuava sentada na  poltrona,  dizendo  que  vrias
palavras ela no conseguira completar. Perguntei por que no  perguntara
a Dad. Minha irm disse que os quadradinhos a  tumultuavam.  A  miopia.
Perguntei  por  Nina;  ela  ligara,  dizendo  que  estava  no  final  da
meditao, em breve chegaria, e tinha certeza que passaria bons  fluidos
para mame. Antes que eu a ajudasse  com  as  palavras  cruzadas,  mame
pediu que eu fosse ver Arnaldinho o que ainda  restava  dele.  Considero
famlia uma coisa cruel. Fui at a rea, e  uma  poro  de  formigas  e
insetos no identificveis haviam coberto o cadver  do  passarinho.  Ao
voltar  sala, mame perguntou: "Ento?"
        - Est do mesmo jeito, deitado.

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        -  um santinho, disse ela, se benzendo.
        Ento comearam as perguntas, enquanto eu via surgir no corredor
uma figura magrinha, vestida de branco, se aproximando,  dizendo  ser  a
enfermeira; apertando a minha mo, disse que  mame  no  havia  gostado
dela.
        - , concordou mame.
        Falei para a moa que conversaramos depois,  espervamos  nossa
outra irm chegar.
        Mame quis me mostrar a revistinha, mas eu disse que  no  havia
necessidade, bastava que perguntasse.
        - Esta comea assim: (?) del Fuego.- Mostrou a revstinha.
        - Luz. Aquela mulher que vivia nua  com  cobras  enroladas  pelo
corpo, lembra?
        Dad respondeu, perfeitamente, e mame comentou que a  lembrana
se  fora  com  os  neurnios  que  partiram.  Nesse  momento,  tive  uma
recordao: Dad brincando de Luz del Fuego, enrolando a toalha e depois
esfregando-a no corpo, enquanto requebrava nua.
        - Lembra?
        - Isso foi h tanto tempo...-  E  seu  olhar  se  perdeu  janela
afora.
        Mame disse que nunca tinha visto Dad fazendo essas  coisas,  e
voltou s palavras cruzadas:
        - Outra: o Cu.
        - Quantas letras?
        - Sete.
        - Abbada. Acabou?
        - No... Falta uma, enorme: causa a morte de  pessoas  inocentes
em tiroteios nas ruas...

198

- Ba-la-per-di-da!
        Lili,  desenfinhando-se,  gritou:  Parabns!  -  E   tornou    a
desaparecer.

        Nina  chegou,  e  antes  de  nos  enderear  qualquer   palavra,
ajoelhou-se diante de mame e ps as mos  sobre  sua  cabea,  e  assim
ficou, sem pronunciar um som durante algum tempo. Mame,  que  sofre  da
coluna, gemia, e nada podamos fazer  porque  nossa  irm  entrara  numa
espcie de transe e s quando este acabasse  a  cabea  de  mame  seria
libertada. A enfermeira e Wilma, lado a lado,  assistiam  encostadas  na
parede da sala. Quando Nina finalmente liberou mame, ela se queixou  de
dor no pescoo, mas Nina disse que no  era  nada,  compara  do  ao  que
tivera de pressionar no interior de sua cabea. Mas  fizera  uma  orao
jaculatria e tinha certeza de que mame ficaria bem (jaculatria?)  Era
uma orao curtssima, porm eficaz, explicou Nina. Bem,  nesse  momento
resolvi falar sobre o que interessava, Porque  a  conversa  evaporava  a
olhos vistos. Em primeiro lugar, tivemos que chamar o rapaz da  farmcia
porque mame precisava tomar a injeo que a mocinha no sabia  aplicar.
Depois eu lhe disse que certamente houvera um engano em sua  convocao,
que eu pagaria o dia, agradecia e ela poderia ir embora quando quisesse.
Nesse instante, o telefone tocou, e como era eu que estava  ao  lado  do
aparelho, atendi:
        - As flores chegaram a tempo de enfeitar a vspera do seu dia?

199

        Eu tomava tantas providncias, que, em vez de bater o  telefone,
disse que estava ocupada com minha  me  doente,  e  ele  respondeu  que
lamentava muito, se eu aceitaria um jantar em sua companhia, gostaria de
esclarecer o ocorrido... Eu disse que no poderia continuar no telefone,
e ele perguntou  se  poderia  ligar  mais  tarde,  e  eu  respondi  sim.
Desliguei e fiquei pensando no que dissera. Sim!?
        Depois da loucura do que havia dito, fui  conversar  com  minhas
irms sobre enfermeiras. Nina disse que conhecia uma moa cuja me tinha
um servio de enfermagem. Ligaria para ela. Pensando  melhor,  daria  um
pulo em sua casa, ela morava perto. Enquanto isso, a acompanhante passou
por ns se despedindo e se desculpando por qualquer coisa. Dad,  depois
de um telefonema para a Flrida, disse que nunca mais voltaria.  Ficaria
o resto da vida na nossa companhia, e arriou-se no sof.
        Est bem, eu disse. Pelo visto, fim de novela na Flrida.
        Fui tomar banho. No final, enrolada na toalha, ouvi a  campainha
tocando. Devia ser Nina, sai  sempre  sem  a  chave.  Descala,  cabelos
pingando, corri at l, e quando abri a  porta:  qu  es  lo  que  veo!o
maquiavlico surgir na soleira, dizendo que  fora  fazer  uma  visita  
minha me.
        Virei as costas e  sa  patinando.  Dentro  do  quarto,  tentava
acabar  de  me  enxugar,  mas  meu  corpo   disparou    em    movimentos
desarticulados e, sem saber o que fazer, retornei ao banho, enquanto es
200

cutava seu Evaristo  se  apresentando  a  Dad,  e  ela  comentando  que
andvamos muito nervosas com a doena de nossa me, que no reparasse  e
aguardasse um momento enquanto iria  l  dentro  ver  se  mame  poderia
receblo. Abri toda a torneira do chuveiro  e  fiquei  sentindo  a  gua
batendo no corpo, acalmando-o com seus jatos.
        Sa do banheiro novamente enrolada na toalha, abri devagarinho a
porta para ver se o repelente ainda estava l. Dad cabeceava no sof da
sala, sinal de que  ele  tinha  ido  embora,  e  tambm  no  adiantaria
cham-la, ela s acorda aos sacolejes.
        Depois do  jantar,  resolvi  ligar  para  o  Luiz.  Conversamos,
conversamos, e, no final, ele quis saber o que  aconteceria  conosco  se
mame continuasse no mesmo  estado.  Respondi  que  nada  se  alteraria,
continuaramos da mesma forma. Ento ele foi perdendo assunto, perdendo,
at eu ouvir sua voz baixa, bocejando, dizendo que  me  ligaria  no  dia
seguinte. Nesse momento, me lembrei de uma msica,  eu  era  pequena,  o
rdio tocava ou mame cantava pra mim?

" fim de noite Nossa estrela vai embora Seu olhar me diz agora  Que  eu
v embora tambm..."


        Acordei e fui ao quarto de mame. Ela ouvia msica  aos  berros.
Silenciei, esperando que me desse os parabns.
        - Que foi, acordou aborrecida?

201

        Eu disse que era meu aniversrio. Beijando minha mo,  mame  se
desculpou, e seus olhos brilharam de lgrimas.
        Tive tambm que contar para o Luiz sobre a data. E ele perguntou
se podamos comemorar, e arregalou seus olhos furta-cor.  Eu  disse  que
sim, e em seguida, no!...
        Ao acordar, Nina foi meditar, depois veio me  dar  um  presente,
uma pulseira chamada o mala.
        - No sei se devia te dar, porque  usada para fazer o mantra.
        Ps-explicao, fiquei repetindo: vou ser feliz com o Luiz,  vou
ser feliz na cama com o Luiz. No sabia se podia  pedir  certas  coisas,
mas como Nina no fez nenhuma recomendao, continuei.
        Dad me abraou forte, me beijou, amassou,  mas  disse  que  no
tinha comprado presente porque o dinheiro que Hermano enviava  mal  dava
para suas despesas mnimas. Mentira,  sob  esse  aspecto  Dad  continua
ruim.
        Wilma perguntou se era meu aniversrio, eu respondi que  sim,  e
fiquei aguardando uma palavra da empregada; enquanto isso vi sob a minha
xcara um desenho de flor, Lili. E a empregada, nada,    uma  antipatia
essa cardaca.
        Durante a manh, Luiz me ligou trs vezes, mas teria entendido o
que eu dissera, ou no?

        Ao chegar no Meio do Cu, um vaso de  flores  enfeiava  a  minha
mesa; quando vi o carto, constatei que no era de  seu  Evaristo,  cuja
letra, infelizmente, eu pas
202

sara a conhecer. Por falar nele, at  ento  no  se  manifestara,  qual
bomba estaria o prfido preparando?
        Os colegas apareceram cantando parabns, e na hora do  cafezinho
improvisaram um lanche. Seu  Medeiros,  olhos  brilhantes,  tambm  veio
apresentar seus cumprimentos, assim falou o engravatadinho.

         noite,  Luiz  e  eu  fomos  a  uma  boate.  Logo  na  chegada,
conversamos, depois, nos descontrolamos  em  uma  agarrao  medonha,  a
impresso  de que seramos expulsos do  ambiente  a  qualquer  momento.
Luiz estava desvairado, e  eu,  depois  de  entornar  a  chama  lquida,
explodia. Meu corpo no tem cabea. Felizmente, no trepamos  na  pista,
no sof e nem no carro. Acabamos a noite na praia, assistindo    aurora
inundando o cu.
        Por falar nisso, lembrei de Jos Jlio; tinha  se  esquecido  do
meu aniversrio? Luiz perguntou se eu estava fazendo um pedido   ltima
estrela. Onde est ela, perguntei. Ele apontou, e eu:
        - Estrela, estrelinha, est vendo este rapaz aqui?... Fazei  com
que ele queira casar com aquela  ali...corri  para  outro  lugar  -  Hoy
esfiesta!- gritei, braos abertos, rodopiando na areia.
        Nos beijamos e abraamos, em  seguida  aplaudimos  os  primeiros
raios silenciosos da manh.

        Luiz e eu nos despedimos  prximo  de  casa.  Eu  disse  que  ia
correr, porque estava com vontade de fazer xixi. Ele perguntou  por  que
eu no havia feito na praia. Arriar calcinhas na sua frente? Jamais.

203

        Mal cheguei na rua movimentada quela hora da manh, vi um carro
estacionado em frente  portaria, a porta  se  abrindo  e  seu  Evaristo
saltando. Preparando uma emboscada!? Como sabia que eu  chegaria  quela
hora? Virei as costas e desci a rua  despinguelada,  o  fantico  atrs.
Corrida s seis da  manh?  As  poucas  pessoas  acordadas  nos  olhavam
assustadas; no lembro quantos quarteires atravessei,  me  mijando  nas
calas, s sei que quando me virei, o primata  tinha  desaparecido.  Fiz
sinal para o primeiro txi que passou, e ca sentada  no  banco  com  um
palmo de lngua pra fora, corao aos trancos, suando e pensando  o  que
quereria o malfeitor Me arriar num  hospital?  Eu  no  seria  capturada
assim to facilmente...
        Podiam ter a idia de sobrevoar o Cristo para ver se distraa os
assaltantes: o incio de uma doce vida.

        - Onde voc estava?
        Assim Dad me recebeu.
        - Numa corrida.
        - Mame est passando mal. -  Dando-me  as  costas,  minha  irm
ainda disse: - Aquele seu chefe esteve aqui e deixou uma  encomenda  pra
voc.
        Sa tropeando pela sala em direo ao quarto de mame.





204



19


Dad perguntava por que eu estava fazendo xixi no quarto, enquanto eu me
mijava de vontade, medo e desespero vendo mame afundada na cama. De  um
dia para o outro mirrou desse jeito?... Ouvamos a voz de Nina na  sala,
falando com o parente. Dad pediu a Wilma que trouxesse o pano de  cho.
Apertando o nariz com cara de nojo, a empregada saiu dizendo "onde j se
viu uma coisa dessas?"  No  iria  discutir  com  ela  naquele  momento,
mand-la tomar no cu,  por  exemplo.  Lili,  segurando  seu  peru  mole,
ensaiou um xixi e quase em coro dissemos, em voz baixa: no!
        A campainha da frente tocou e pensamos que fosse o parente,  mas
dona Idalina entrou, enxugando os olhos.  Nesse  instante,  comeamos  a
ouvir canto de passarinhos, vrios. Lili havia posto um CD de  vozes  de
pssaros. Mame movimentou os olhos, escutou. Aproveitei e perguntei  se
ela me via. Seus olhos mnimos fizeram uma ligeira rotao, mas  a  boca
no se mexeu. Dad disse que , melhor deix-la descansar; Nina, entrando
em seguida disse que o mdico devia estar chegando.  Lili  entrava  sala
chilreando do quarto. Foi ento que a tremedeira  apareceu.  Da  cintura
para cima, mame chacoalhava; abaixei e perguntei dentro do  seu  ouvido
se estava  frio.  Mame  voltou  a  no  responder,  e  Dad  disse  que
obviamente aquilo no era frio. Obviamente? Cega

205

pelas lgrimas, sa do quarto, porque ouvi a campainha  tocando.  Era  o
parente. Entrou apressado, e assim que viu mame, disse  baixo  para  si
prprio: "Prestes a colapsan". Perguntei o  que  ele  queria  dizer  com
aquilo; em vez de responder, ele me olhou com olhos de pessoa morta.  Um
dia, mame comentara que a crnea dele havia sido feita com  clulas  de
morto. Eu devia ser garota quando ela me contara essa histria porque me
lembro de um sonho que se repetiu vrias vezes: as pessoas passavam  por
mim na rua com os olhos  vazados;  uma  coisa  horripilante.  Apesar  do
vero, o frio varria o quarto. Mame continuava se sacudindo, enquanto o
parente a examinava, berrando perguntas. Podiam  gritar    vontade  com
ela, que desgraa... Soy una cria perdida. As perguntas se  sucediam,  e
mame continuava sem responder. Nina rezava uma mesma  frase  desde  que
largara o telefone, e Wilma apareceu com a cara  na  porta  dizendo  que
tinha certeza de que mame ficara daquele jeito por causa do passarinho.
Dad pediu silncio, o doutor a examinava, disse. E o morto l,  grudado
em minha me... Nesse momento, Dad perguntou a ele se  no  era  melhor
que  a  internssemos.  Aps  uma  pausa,  o  quase  totalmente  defunto
respondeu que no, e no explicou.  uma desgraa tentar  conversar  com
mdicos. De repente, sem conseguir me controlar, comecei a chorar, alto.
Dad disse que era melhor que eu  sasse  do  quarto,  Nina  balanou  a
cabea concordando, e Dad  continuou,  dizendo  que  daquele  jeito  eu
poderia incomodar mame. Ouvi o telefone chamar, mas ningum foi

206

atender, nem Wilma, claro. O aparelho rachava de toar, quando vimos dona
Idalina se levantando ligeiro na ponta dos ps, saindo do quarto. Voltou
dizendo que era pra mim.  Perguntei  de  quem  se  tratava,  um  senhor,
respondeu, mandei dizer que no estava, e ela falou que havia  dito  que
eu fazia companhia a mame, pedi ento a ela que,  por  favor,  dissesse
que eu tinha morrido. Ela ficou parada por momentos, pegando  partes  do
cabelo e amassando-o com a mao.
        De repente, desdobrando vagarosamente  o  esqueleto,  o  parente
levantou-se e saiu do quarto. Foi para a  sala  fumar.  E  Dad,  atrs,
fazendo perguntas. Ele respondia a todas da mesma maneira:
        - Vamos aguardar - E, vez por outra, exalava espirais de fumaa.
        - Cada qual sabe com cada quem...
        Sbito, ouviu-se a voz de mame.
        Voltava  tona de novo. O parente apareceu na  porta  do  quarto
depois de vrias tossidas, esboou um sorriso e  aproximou-se  da  cama.
Acho que nem ele se dava conta  do  flego  de  mame.  Ela  afundava  e
voltava, graas a Deus. Nina parou de repetir a frase, e Wilma voltou  a
aparecer, dizendo que tinha sido a  msica.  O  CD  dos  pssaros.  Lili
voltou para o seu quarto, e Dad disse que ia descansar.  Depois  que  o
parente virou as costas, perguntei baixo para mame:
        - Voc vai morrer?... Fala mame, fala, voc sabe as coisas...
        - D eixa eu contar por onde andei, voc nem pode imaginar..  uma
estrada luminosa, brilhante, rodeada de

207

paz, um verdadeiro xtase espiritual, no final dessa estrada,  havia  um
vulto, devia ser seu pai, mas em vez dele, vi vocs de novo.
        Voltara com vontade de falar.
        Pouco depois, despedindo-se de mame,  Nina  tomou  sua  bno,
dizendo que iria concluir a meditao por mais uma graa alcanada.
        Eu escutava o ronco de Dad vindo do quarto, quando  o  telefone
tocou. Surpreendentemente, Wilma deuse  ao  trabalho  de  atender  E  eu
avisei que se fosse para mim, eu estava apenas para o Luiz.
        Me deitei com o fone no ouvido e contei  tudo,  tudo  que  tinha
acontecido ao Luiz.

        No final do telefonema, uma idia me assaltou:  onde  estaria  a
encomenda que o patife deixara? E o que seria? Bomba caseira?
        Contei ao Luiz. Ele disse que era incrvel como  as  pessoas  do
trabalho gostavam de mim.
        - Tambm no era para menos...
        Aumentava a lista dos descrentes: mame, Jos Jlio, e  agora  o
Luiz. Se bem que Jos Jlio me dera razo depois de ter lido o jornal.
        Ao desligar o telefone, fui ver mame. Ela tentava se levantar.
        - Quero sair, arejar...
        - Est bem. Chamei Dad para acompanh-la, dormira o suficiente.
        Algum tempo depois, vi Dad desabada na poltrona ao lado da cama
de mame, roncando. Aproveitei que

208

tambm mame dormia e pedi a Wilma que abrisse a encomenda.  O  embrulho
que o infame deixara. Ela arregalou  seus  olhos  de  cobra  ninja.  No
enfartaria  por  isso,  tenho  certeza.  Custou  a  peg-lo,        uma
 m vontade... Caso fosse uma molotov caseira, preparada com vista  para
a Lagoa, teramos um enfarte-exploso instantnea. Melhor que foguete no
final do ano. O  Cristo  estava  arriscado  a  trepidar  Sem  que  Wilma
notasse, dei dois passos pra trs enquanto via Lili  com  as  calas  de
pijama prontas para cair, espiando da porta.
        Wilma no acabava mais de levantar o durex, tem  pessoas  assim,
ficam horas para desfazer a merda de um embrulho.  Lili  no  se  movia,
tampouco eu. Como pano de fundo, o  ronco  de  Dad.  Depois  que  Wilma
conseguiu tirar o  papel,  surgiu  outro,  de  cor  diferente.  Caso  se
empregasse em sesso de embrulho, essa domstica  estava  fodida.  Nesse
momento, o telefone tocou. Nos entreolhamos, a serpente e eu.  Eu  disse
que me esperasse, e sa correndo. Luiz; outra vez?  No  nos  falamos  
bea?... Queria sair comigo naquela noite, comemorar a melhora de  minha
me. Estava to ocupada com a merda do pacote, que concordei.  Voltei  
cozinha, e a dupla me esperava, Lili  e  Wilma.  Prosseguiu  a  operao
desembrulho. Menos um papel, e nos deparamos com outro, Lili desandou  a
piar (deu para isso), enquanto Wilma continuava maquinalmente o servio.
E assim foi, at termos diante dos olhos uma caixinha mnima, que  Wilma
abriu, e um solitrio raiou entre ns. Muito original a idia  do  dbil
mental.

209

        Agradeci a Wilma, sa da cozinha  e  joguei  o  anel  dentro  da
gaveta.

        - Eu no vou mais fazer isso!
        - Ento vamos transar..
        Dentro do carro, por sua vez dentro  da  garagem,  Luiz  babava,
arriado no banco ao meu  lado,  tendo  o  peru  apontado  para  o  cap.
Segurando-o, quis pass-lo para mim.
        - No! No! Chega! Ser que voc no entende que minha me  est
para morrer?... - Ele continuou empunhando o peru olhando  para  ele.  Voc no liga porque no tem mais pai nem me...
        O peru desapareceu, sumiu, evaporou. Quando o guardara,  que  eu
no tinha visto? Srio, Luiz ajeitou-se no banco, ligou o motor do carro
e saiu numa arrancada. Subiu a rampa da garagem e chegamos  no  breu  da
rua, a iluminao encoberta  pelas  rvores.  J  era  tarde,  perto  de
meia-noite; fui da casa dele  minha me desculpando pelo que tinha  dito
sobre seus pais. E Luiz, mudo. Perguntei se no falaria mais comigo. Ele
disse que eu parasse de pensar bobagem  e  no  deu  mais  uma  palavra,
concentrando o olhar no vazio das ruas.

        Assim que abri a porta, Dad, acordando,  disse  que  meu  chefe
ligara perguntando por mim e querendo  saber  se  eu  tinha  recebido  o
presente.
        Perguntei o que ela havia falado.
        - Que voc tinha sado com seu namorado.
        -E ele?

210

        - Agradeceu e desligou. Dad me acompanhou com os olhos, mas no
perguntou do que se tratava. O maldito vai preparar outra. E esse  avio
que no decola... Merda de viagem que no acontece... Bosta. Saco.
        Voltei para saber de mame. Dad disse que  ela  estava  quieta;
quando acabaram as novelas dormiu instantaneamente.

        Acordei com Dad me sacudindo. Devia estar amanhecendo.
        - O que ?
        - Mame, disse, e se retirou em seguida.
        Pulei da cama e corri ao quarto de mame. A tremedeira  voltara,
e Dad dizia que mame queria fazer xixi,  mas  ns  no  conseguiramos
levant-la.  Estava  torporizada.  Mas  que  horror  de  palavra...    A
infelicidade grassa entre ns. Falei que ia chamar  o  porteiro.  Fui  a
jato ao banheiro, para evitar um mijeiro no assoalho, me lavei,  escovei
os dentes e atravessei a sala correndo, saindo de casa.  Nem  lembro  se
fechei a porta da entrada. Entrei no elevador e ele subiu, mas eu  havia
tocado no trreo, ou no? Dois  andares  acima,  um  perfume  fortssimo
invadiu o elevador; atrs dele, a dona. O  elevador  continuou  subindo,
quando, subitamente, parou entre dois andares; em frente,  a  parede  de
cimento, branca e spera.
        A mulher, olhando pra mim,  sobrancelhas  suspensas,  disse  que
estava com pressa, respondi que tambm eu. Urgncia,  no  falei  porque
percebi que de repente ela Comeara a se avermelhar, torcendo a bolsa  e
revirando Os olhos. Totalmente fora de si. Nesse momento, avisou

211

que iria gritar. Alm de mame j ter se mijado toda,  assistiria  a  um
ataque bem prximo a mim.
        - J j vai andar... ouvi a frase saindo da minha boca.
        Nisso, comeamos a ouvir vozes: "Solta  o  elevador,  solta!"  A
boca da mulher ia se abrindo, quando a mquina  se  disps  a  voltar  a
funcionar. Alcanamos o trreo, e ela saiu na minha frente,  jogando  os
cabelos para trs com fria.
        Chacoalhei o porteiro, debruado sobre o aparelho de  interfone;
mal ele se virou na minha direo,  pedi  que,  por  favor,  viesse  nos
ajudar, era uma emergncia.
        - No tenho ordem pra largar a portaria no senhora... -  disse,
e me deu as costas.
        Fui para a frente dele e insisti, dizendo que minha  me  estava
muito mal, podia morrer de uma hora para  outra.  Depois  de  uma  longa
pausa, em que eu pensei em  mand-lo  tomar  no  cu  vrias  vezes,  ele
respondeu que mandaria o filho. Agradeci e voltei a tomar o elevador.
        Entrei desabalada em casa. Contei  para  Dad  que  o  filho  do
porteiro viria ajudar. Mame tremia de bater queixo, e Lili saltitava na
entrada do quarto de mame, quando a campainha tocou e eu  fui  abrir  a
porta para um rapaz enorme, com braos que batiam nos joelhos. Expliquei
a ajuda de que precisvamos, e antes que eu  terminasse  de  falar,  ele
saiu  andando,  entrou  no  quartO,  levantou  mame   pelos    sovacos,
perguntando onde queramos que ele a pusesse. Calma, dizia Dad,  calma,
enquanto nossa me tremelicava em seus braos.
        Esse, o meu despertar.

212

        - E Nina onde est? perguntei a Dad, enquanto  discava  para  o
parente.
        Meditando  no  stio  da  amiga.  Enquanto  uns  rezam,   outros
trabalham. Se mame morrer, Nina est  arriscada  a  ficar  repetindo  a
mesma frase a vida inteira.
        A mulher do parente atendeu, dizendo  que  veria  se  ele  podia
falar; acordara chiando. O cigarro, disse ela, voc deve saber. No  dou
conversa porque mame dissera que a parenta  tinha  um  cime  atroz  do
marido. Daquele cuspe marrom?  Bem...  no  posso  falar  O  passado  me
condena. Acho que isso era ttulo de filme, antigo...
        O homem veio ao telefone, dizendo que estava  de  sada  para  a
nossa casa.
        - Checho... Checho?... - Mame retornava.
        Me aproximei de sua cama e  ela  perguntou  se  eu  vira  papai;
quando eu ia dizer que ele tinha morrido,  Dad  respondeu  que  ele  j
vinha.
        - Melhor evitar confronto sussurrou, prximo ao meu ouvido.
        Todos  mentem  para  todos  o  tempo  todo.  Assim  caminha    a
humanidade; outro ttulo de filme...
        Pensando bem, seria interessante se, de repente, eu  respondesse
apenas por ttulos de filmes...
        Nesse momento, Dad perguntou se eu no escutava a campainha.
        - Adivinhe quem vem para o jantar?... perguntei, me encaminhando
para a porta.
        Dad coou a cabea, balanando-a.



213





20


Cansei da cara desse parente, faz at mal ver esse sujeito o tempo todo,
seco, esqulido, cadavrico, mas mame no admite ser cuidada por  outra
pessoa. Particularmente, acho que ele no tem a menor idia do  mal  que
acomete minha me, espera "acertar" como disse um dia. E  ela,  coitada,
afundando e voltando, tem graa isso?
        O semimorto parou em frente ao cinzeiro  para  depositar  o  que
restava do cigarro; depois, virando a cabea  para  o  teto,  desprendeu
bolinhas de fumaa que se desfizeram no ar  e,  visivelmente  satisfeito
consigo prprio, seguiu para o banheiro, para lavar as mos  empestadas.
Ao menos isso.
        Depois de ascultar mame, obrig-la a tossir e dar piparotes  em
suas costas, guardou o estetoscpio e ficou olhando para ela -  submersa
em seu mundo de espritos. Breve acordaria para contar sobre  a  estrada
que conduz a meu pai.
        Bem, o parente se foi. Dad tambm  saiu,  disse  que  daria  um
pulinho na rua e j voltava. Nina, de tanto meditar, rezar, saiu  do  ar
Pode acontecer a qualquer  um,  de  repente,  desconectar  inteiramente.
Dizem eles que  a  palavra  atrapalha  a  espiritualidade,  a  elevao,
concentrao. Loucura como outra qualquer Boa, meiga, mansa,  por  isso,
tantos.

215

        Bem, pensei entrar no quarto e contar  a  mame  sobre  o  Luiz,
descans-la em relao ao meu futuro, mas  nesse  momento  o  estridente
tocou e eu no podia contar com Wilma, por causa da enxaqueca. No falei
nelas, so constantes, principalmente depois  das  refeioes,  cada  uma
brutal, que a arria na cama, quarto escuro,  venda  nos  olhos,  durante
horas, s vezes, tardes inteiras, enquanto eu fao seu servio na pia.
        - Dona Gilda, espero encontr-la hoje  noite, amanh j estarei
fora do Rio.
        Sem sacanagem, esse avio escangalhou na pista? Ele continuou:
        - Pelo visto, a senhora se encontra magoada comigo, mas, ao  nos
encontrarmos, ver  que  todo  o  incidente  no  passou  de  um  grande
mal-entendido...
        Dad, entrando, passou por mim perguntando  quem  era.  Tapei  o
bocal:
        - Um criminoso respondi.
        Ela enrugou a testa e, depois de  alguns  passos,  virouse  para
trs e comentou:
        - Voc e seus fs... - E abaixou-se  para  ajeitar  os  jornais.
Depois da leitura de Lili, ningum entende nada.
        - A senhora est me escutando, dona Gilda?...
        Mugi baixo. Ento ele se animou, dizendo que s  nove  em  ponto
nosso garom (nosso?) estaria a postos para me conduzir  sua  presena,
ou at  sua pessoa, no lembro  o  que  disse  porque  mame  murmurava
qualquer coisa, e eu comuniquei ao serpentfero que tinha de acudi-la.

216

        - Melhoras para a senhora  sua  me,  dona  Gilda,  e  at  mais
tarde...
        Me aproximei da cama de mame, e ela  ficou  me  olhando,  ento
perguntei se sentia alguma coisa.
        - Voc  muito labida...
        Labida!? Depois contou que tinha tomado remdio para induzir  o
sono, que era algo que tambm  se  perdia,  alm  de  cabelo,  marido  e
filhos. Bem, voltara ao normal, excelente de novo.
        O nico  a  ter  cabea  aqui  em  casa  era  o  Arnaldinho.  De
passarinho, mas tinha. Todos os dias fazia o  mesmo,  piava  e  cantava;
vezpor outra se esbatia, mas quem no? depois se acalmava. Nina,  mame,
Lili e Wilma no raciocinam. Dad  pouco inteligente. E eu...
        -  Esto  batendo  na  porta  disse  Wilma,  me    interrompendo
(levantou-se?) e retornando  cmara morturia.
        Luiz. Mal o vi, porque grudou-se na minha cara, sugando a  minha
boca, passando um bolo de  chicletes  para  dentro  dela,  me  apertando
contra o seu corpo, e eu senti seu membro duro  de  encontro  s  minhas
coxas. Mas como chega nesse estado!?
        - Sonhei com voc, amor...disse, assim que liberou nossas bocas.
        Cuspi o chiclete no cinzeiro.
        - Sossega, Luiz, sossega, pelo amor de Deus... Minha  irm  est
em casa... Andvamos enquanto ele  me  pegava,  bolinava,  me  cheirava,
arrastando sua  voz  rouca  pela  casa.  Me  desvencilhei,  dizendo  que
trocaria o vestido. Estava de verme
217

lho, traz agitao. Fui pr meu vestido cor de camelo. Cada cor tem  uma
temperatura, e o ser humano se adapta  temperatura da cor. Aprendi  com
Nina. Depois, chamei Dad para avisar que daria uma volta  com  o  Luiz.
Intu que iria dar merda caso ficssemos em casa.
        Ao descermos no elevador, propus tomarmos  sorvete,  de  frutas.
Outro qualquer, e no passaramos da esquina.  Samos,  e  assim  que  o
carro entrou na Lagoa, divisamos o Cristo no horizonte, braos  abertos,
tentando eternamente conter os habitantes.
        Na volta, quando Luiz me deixou em casa, encontrei dona  Idalina
ajoelhada no cho na beira da cama de mame. Nina tambm  se  encontrava
no cho, em posio de ltus. Mentalizao  intensa  dentro  do  quarto.
Perguntei a Dad se mame piorara, e ela disse que  no,  estava  tima.
Quem se encontrava pssima  era  Wilma.  Soubera  da  existncia  de  um
rotavrus que no deixava as pessoas se levantarem da  cama,  e  avisara
que tinha pegado, era melhor ningum se aproximar. Rotavrus? No

queria que a vssemos a sono solto,  roncando.  Dad  avisou  que  havia
feito a sopa de mame, com legumes e batata; ns, teramos que  resolver
nosso jantar. Lili,  noite, toma leite, e Nina, quando se alimenta, ch
com biscoito  integral.  Nesse  instante,  brilhou  uma  fasca  no  meu
crebro: e se eu aceitasse o convite de seu Evaristo e aproveitasse para
dizer palavras cozidas no vapor dos meus pensamentos? Abjeto, insalubre,
torpe e podre, abominvel, detestvel e odioso... Seria uma ceia de  dar
gua na boca, entremeada de bolinhos de salmo  crocante,  servidos  com
pimenta aromtica, ou en
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to um velout de frutos do mar Nesse caldo borbulhante, no chegaramos
 torta-musse de chocolate servida quente, porque ela se  desmilinguiria
antes do final da lauta refeio.
        - O que voc vai querer comer?
        Dad esperava resposta.
        - Ainda no sei.
        Ela mandou que eu pensasse, enquanto tomava uma chuveirada.
        Nesse momento, Nina passou por mim dizendo que prepararia um ch
de cogumelo do sol para mame.
        -  um alimento energtico que ajuda o organismo a  se  defender
contra doenas.
        Acha que mame vai tomar?...
        Pouco depois, quando seu Evaristo, execrvel,  inqualificvel  e
malfico, ainda se movimentava no meu raciocnio, escutei mame  dizendo
obrigada, e Nina passou para a cozinha levando a xcara cheia nas mos.

        Enquanto eu decidia se diria ou no umas verdades quele puto, a
vlvula da privada disparou. Deu para ouvir direitinho. Qual teria  sido
o ltimo a usar o banheiro, pensei, e vi dona Idalina cruzando  a  sala.
Mora ao lado e vem cagar aqui!?...
        Me  levantei  para  constatar  o  estrago.  Lili,  na  porta  do
banheiro, torcia, como se assistisse a um jogo. Pedi licena a ele e fui
apertar o boto da descarga, diversas vezes, na  esperana  de  deter  o
fluxo. Nada. Voltei  sala atrs das pginas amarelas. E tinha que andar
rpido, dentro de pouco tempo no encontraria ningum que

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atendesse no mesmo dia. Quando estava com elas no colo,  Wilma  apareceu
para avisar que a descarga desabotinara. Deve ter usado uma expresso da
terra dela. Dad surgiu em seguida  dizendo  que  era  melhor  fechar  o
registro. Como se alguma de ns soubesse. Diante da minha  no-resposta,
ela disse que  o  porteiro  certamente  saberia  como  fech-lo.  Nisso,
apareceu Nina, xcara suspensa na mo:
        - E se mame precisar usar o banheiro? soltou ela.
        Havia tempos eu escolhera o mutismo em famlia.  Nina  continuou
com a palavra, dizendo que Srgio  sabia  consertar  descargas,  um  dia
consertara a da casa deles.  Achei  o  anncio  dos  bombeiros.  Vrios,
tantos, que fechei os olhos e apontei no escuro. Pouco depois, um  homem
chegou  nossa casa com  uma  sacola  imunda,  fios  de  diversas  cores
escapando pelos lados, e, depois de empetecar o cho e embolar o  tapete
do banheiro, disse "terminei o servio, senhorita". Ao  se  aproximar  a
hora da nota, a famlia se afastou de mansinho.
        Acompanhei o homem  porta. Na volta, vi Lili pulando na entrada
do quarto de mame. Fui ver o que estava acontecendo. Assim que  entrei,
constatei o retorno da tremedeira, s que, desta vez, o  corpo  todo  de
mame chacoalhava. Um frio  me  subiu  por  trs,  escalando  as  minhas
costas, e veio dar na cabea, arrepiando  os  cabelos.  Tenho  horror  a
doena... Dad, depois de ver o que se passava, correu para o  telefone,
dizendo que chamaria o mdico. Nina aboletou-se no cho e comeou a reza
da frase nica. Mame, rosto confuso, l
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vida, olhos mnimos me olhava? Da cintura para baixo  e  para  cima,  um
puro tremor... Pobrecita. Segurei sua  mo,  dizendo  que  iria  passar,
acontecera outras vezes e havia passado, e  minhas  lgrimas  irromperam
como grandes rios correndo sem direo; Dad se aproximando  avisou  que
me chamavam ao telefone. Respondi  que  no  atenderia  ao  vil.  Hein?,
murmurou ela, se afastando. Na volta, disse que meu chefe  me  aguardava
no restaurante, depois, que era melhor deixarmos mame quieta enquanto o
mdico no chegava. Fingi que no tinha escutado, e perguntei a mame se
ela sentia frio, e sua voz baixinha,  tambm  tremida,  disse  no.  Seu
corpo no sossegava, e eu voltei a perguntar, desta vez, se ela me  via;
quase sem  flego,  respirao  curta,  mame  respondeu  que  enxergava
vultos, mas foi sempre assim, eu disse, e ela no sorriu.
        - Me... escuta, me... eu preciso te falar do Luiz. Tanta coisa
aconteceu, que no consegui contar que vou ser feliz,  te  dar  alegria,
est ouvindo, me? Mostra que me escuta, aperta os dedos da minha mo...
- Ela movimentou os olhos, escutou. - No vou mais te  dar  desgosto,  e
tambm no vou acabar daquele jeito, aos farrapos,  como  voc  falou...
Tambm preciso dizer que no transei com ele, apesar de voc no  gostar
desse  assunto,  torce  para  dar  certo,  para  eu  ser  feliz...   Fui
interrompida por um barulho; Lili, inteiramente nu, acocorado  no  cho,
batia a cabea contra a parede. Dad tentou fazer com que  ele  parasse,
mas, movimentando-se agachado, Lili foi bater noutro lugar. Depois, Dad
voltou a insistir para que eu deixasse ma
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me quieta, mas me virei para trs dizendo que dali  no  sairia,  ento
ela se retirou do quarto. Nina continuava imvel, repetindo sem cessar a
frase inaudvel. E eu me abracei com mame, dizendo que ela ficaria  boa
e assistiria a meu casamento, enquanto seu corpo lutava, e eu chorava, e
as pancadas na parede continuavam com mais fora.
        Continuei falando, dizendo o quanto ela ficaria contente  de  me
ver feliz, tinha certeza de que dessa vez ela teria orgulho de mim,  sua
tempor, e no precisaria mais se preocupar comigo, porque eu no  daria
o menor motivo... Dad passou pela porta  do  quarto  reclamando  que  o
mdico no chegava... a tremedeira iria  passar,  seus  santos  e  anjos
estavam a lhe guardar, e beijei sua testa, o que queria dizer, as  rugas
(quanta preocupao, meu Deus...), passando a mo em  seu  cabelo  nuvem
esgarada sobre a sua cabea. Dad cochichava com Nina,  que  repetia  a
frase  escolhida,  e  eu  continuei  grudada  a  minha   me,    quando,
subitamente, ela tremeu mais ainda, arquejou, e  Dad  tentou  me  puxar
pelo brao, dizendo, novamente, que queriam falar comigo no telefone,  e
eu disse, me larga,  chorando  aos  borbotes,  quando  os  tremores  se
acentuaram, e tambm as batidas na parede, e um longo estertor levou  os
olhos de mame a se fixarem no espao.
        - Volta, me, volta! berrei.  Mas  ela  desapareceu  dentro  dos
olhos. Dad e Nina irromperam em prantos, logo a seguir  Dad  debruouse sobre mame, fazendo carinho em seu rosto; depois, abraou-se comigo.
Nina fazia gestos suaves sobre o cor
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po de mame. Enquanto isso, Lili  desapareceu  sob  a  cama.  Da  porta,
ouvamos a voz de dona Idalina dizendo que  mame  alcanara  o  cu  em
apenas um passo; descansara no regao do Senhor. Depois, meu tio saiu do
quarto, retornando em seguida com uma caixa de papeo, e,  aproximando-se
da cama, sacudiu a caixa sobre mame,  dela  fazendo  cair  estrelas  de
papel.
        Quiseram me tirar dali, mas no  sa,  ainda  queria  lhe  fazer
carinho, enquanto ela seguia outro caminho. Meus olhos lquidos  corriam
por toda a extenso de seu corpo imvel, morno, largado em meus braos.
        Nesse momento, fui arrancada por muitas mos, um  punhado  delas
apareceu para nos separar. Foi um custo me  desgrudarem  de  mame,  mas
conseguiram; Luiz me esperava na sala, me abraou, mas eu no escutava o
que ele dizia, porque subitamente o mundo, como uma  imensa  gaiola,  se
rompeu numa algazarra infinita de pssaros.





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Este livro foi composto na tipologia Minion, em corpo 12/16, e  impresso
em papel chamois flue SOg/m2 no Sistema Cameron da  Diviso  Grfica  da
Distribuidora Record
 
  
 

